O cansaço virou “extrema-direita”
A “extrema-direita” venceu. Ao menos foi esse o rótulo reservado a quem se recusou a votar segundo a cartilha vermelha. O termo extrema-esquerda, aliás, desapareceu do nosso vocabulário político. Uma coincidência extraordinária.
A primeira mensagem das urnas já chegou. O problema é que muita gente prefere insultar o mensageiro.
Há uma genealogia nisso. Quem leu Marx, e não apenas comprou a camiseta, conhece o roteiro.
O marxismo transformou o conflito de classes na chave de leitura da história. Só que a velha dupla burguesia e proletariado envelheceu. A lógica moderna precisou de matéria-prima mais abundante e encontrou a política identitária.
Multiplicaram-se as vítimas, os opressores e os ressentimentos. Mudaram os atores; sobrou a necessidade do antagonismo.
É preciso haver o oprimido e o opressor. O progressista e o reacionário. O democrata e o fascista. Até as minorias precisam de carimbo ideológico para merecer solidariedade. Os judeus, vejam só, “os opressores”, descobriram isso recentemente. Vítima, sim; mas só se se vestir de vermelho.
Família, religião e comunidade perturbam essa engrenagem. Elas criam pertencimento fora do Estado. Quem encontra sentido na fé, amparo na família e dignidade na própria renda precisa muito menos de um tutor existencial no poder.
Depois de duas décadas, o sermão populista cansou. O brasileiro já foi informado dezenas de vezes de que o governo acabou com a fome e salvou os pobres. Estranhamente, a cada quatro anos, os mesmos problemas exigem os mesmos salvadores. É o ilusionismo da dependência, e o milagre precisa ser refeito a cada eleição.
Proteção social é indispensável. Tutela política é cativeiro. O pobre que prospera ganha autonomia. O permanentemente dependente garante a perpetuação do salvador.
O fenômeno destas urnas não é sobre radicalização. É sobre exaustão.
O brasileiro não virou extremista de um dia para o outro. Ele apenas se cansou de uma política que promete mudar sua vida, evidentemente, desde que nada mude no poder.
Chamaram esse cansaço de extrema-direita.
Resta saber o que acontece quando o cansaço perde o medo do rótulo e decide votar.
No segundo turno, saberemos se era extremismo ou apenas o Brasil cansado de quem insiste em salvá-lo.



