O PT, os banqueiros e 30 anos de balanços inconvenientes
Em março de 2002, poucos meses antes de ser eleito presidente da República, Lula escreveu que eram “inacreditáveis os extraordinários lucros dos bancos no nosso país”. Oito dias depois, voltou ao tema, referindo-se à “lucratividade absurda dos bancos” brasileiros. A crítica fazia parte da narrativa econômica com que o PT chegava à sua quarta disputa presidencial: juros elevados, rentismo e um sistema financeiro beneficiado pela política econômica de Fernando Henrique Cardoso.
Ricardo Berzoini, então deputado federal e posteriormente presidente nacional do PT, seguia a mesma linha. Comentando o lucro dos bancos em 2001, escreveu que “o lucro recorde dos bancos destoa da realidade da economia nacional” e atribuiu ao governo FHC a defesa dos interesses de um setor privileged. Não havia muita ambiguidade: os bancos ganhavam muito e a responsabilidade, segundo o discurso petista, era do modelo econômico vigente.
Então Lula ganhou a eleição. Quatro anos depois, já candidato à reeleição, seu discurso seria curiosamente diferente. Em julho de 2006, declarou: “Banqueiro não tinha por que estar contra o governo, porque os bancos ganharam dinheiro”. Lula acrescentou que preferia bancos lucrativos a ter de socorrê-los com um programa como o Proer. Entre a “lucratividade absurda” de 2002 e o reconhecimento de que “os bancos ganharam dinheiro” em 2006, há uma mudança além da retórica. Os números do Banco Itaú ajudam a contar essa história.
Lula, Itaú e FHC
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência em 1995, o Itaú era uma instituição muito menor que o atual Itaú Unibanco.
Naquele ano, seu lucro líquido ficou próximo de R$ 400 milhões, algo equivalente a aproximadamente 0,06% do PIB brasileiro.
O Banco cresceu significativamente durante os oito anos de FHC. Em 2002, último ano daquele governo, o lucro já estava próximo de R$ 2,4 bilhões, equivalente a cerca de 0,16% do PIB. O Plano Real, a estabilização monetária e a profunda reorganização do sistema financeiro brasileiro produziram um ambiente onde os bancos sobreviventes se tornaram maiores, mais eficientes e mais rentáveis. Nesse contexto, Lula, ainda candidato, falava na “lucratividade absurda dos bancos”. Pois é interessante observar o que aconteceu depois que ele chegou ao poder.
A lucratividade absurda
No primeiro ano de Lula, o Itaú lucrou aproximadamente R$ 3,2 bilhões. Em 2005 foram mais de R$ 5 bilhões. Em 2007, cerca de R$ 8,5 bilhões. Em 2010, último ano de Lula II, o resultado ultrapassou R$ 13 bilhões. Mais importante que o crescimento nominal foi a rentabilidade. Entre 2003 e 2007, o retorno sobre patrimônio do Itaú foi, respectivamente, de 29,7%, 29,2%, 35,3%, 28,8% e 32,1%. Eram retornos extraordinários para uma instituição financeira daquele porte. E isso ocorreu antes que a incorporação do Unibanco, anunciada em 2008, pudesse explicar o crescimento pelo simples aumento de tamanho e pela captura das sinergias decorrentes desse processo.
O fenômeno não passou despercebido na época. Em agosto de 2003, apenas sete meses depois da posse de Lula, levantamento da consultoria especializada Austin Asis mostrava que doze dos maiores bancos brasileiros haviam produzido no primeiro semestre lucro superior ao de qualquer primeiro semestre dos oito anos de FHC. Em 2006, outro levantamento mostrava que o lucro líquido semestral dos cinco maiores bancos havia aumentado 132,5% desde o início do governo Lula. Talvez por isso Lula tenha sido tão pragmático ao explicar naquele ano por que os banqueiros não deveriam estar contra seu governo: eles estavam ganhando dinheiro.
Quando Lula chegou ao Planalto, em 2003, o Itaú nem sequer era o maior Banco brasileiro. Por ativos, ocupava a quarta posição, atrás de Banco do Brasil, Caixa e Bradesco. Cinco anos depois, já no segundo mandato de Lula, a incorporação do Unibanco criou o maior banco do país, com mais de R$ 575 bilhões em ativos. A liderança seria recuperada pelo Banco do Brasil em 2009, mas a transformação já estava feita: o Itaú que entrara na era Lula atrás dos grandes bancos públicos e do Bradesco saía dela convertido em um dos gigantes do sistema financeiro brasileiro.
O Itaú e o Brasil
Comparar lucros nominais ao longo de três décadas não é suficiente. A inflação, o crescimento econômico, aquisições e a própria expansão do Banco tornam R$ 1 bilhão em 1995 algo completamente diferente de R$ 1 bilhão em 2025. Uma maneira mais interessante de observar o fenômeno é comparar o lucro anual do Itaú com o PIB brasileiro do mesmo ano. O resultado ao longo de 30 anos é o seguinte:
| Ano | Mandato eleitoral | Lucro Itaú (R$ bi) | Lucro/PIB |
| 1995 | FHC I | 0,40 | 0,057% |
| 1996 | FHC I | 0,60 | 0,070% |
| 1997 | FHC I | 0,72 | 0,076% |
| 1998 | FHC I | 0,88 | 0,088% |
| 1999 | FHC II | 1,87 | 0,172% |
| 2000 | FHC II | 1,84 | 0,154% |
| 2001 | FHC II | 2,39 | 0,182% |
| 2002 | FHC II | 2,38 | 0,160% |
| 2003 | Lula I | 3,15 | 0,183% |
| 2004 | Lula I | 3,78 | 0,193% |
| 2005 | Lula I | 5,25 | 0,242% |
| 2006 | Lula I | 6,20 | 0,257% |
| 2007 | Lula II | 8,47 | 0,312% |
| 2008 | Lula II | 7,80 | 0,251% |
| 2009 | Lula II | 10,07 | 0,302% |
| 2010 | Lula II | 13,32 | 0,343% |
| 2011 | Dilma I | 14,62 | 0,334% |
| 2012 | Dilma I | 13,59 | 0,282% |
| 2013 | Dilma I | 15,70 | 0,294% |
| 2014 | Dilma I | 20,24 | 0,350% |
| 2015 | Dilma-Temer | 23,36 | 0,390% |
| 2016 | Dilma-Temer | 21,64 | 0,345% |
| 2017 | Dilma-Temer | 24,00 | 0,364% |
| 2018 | Dilma-Temer | 24,98 | 0,357% |
| 2019 | Bolsonaro | 26,58 | 0,360% |
| 2020 | Bolsonaro | 18,91 | 0,248% |
| 2021 | Bolsonaro | 24,99 | 0,277% |
| 2022 | Bolsonaro | 29,41 | 0,292% |
| 2023 | Lula III | 33,11 | 0,303% |
| 2024 | Lula III | 41,09 | 0,349% |
| 2025 | Lula III | 44,86 | 0,352% |
Para esta comparação, foi utilizado o PIB nominal calculated pelo IBGE. Em 2025, por exemplo, o produto brasileiro ficou próximo de R$ 12,7 trilhões. A tabela conta uma história interessante.
Mudança de patamar
A evolução do lucro do Itaú em relação ao PIB ao longo de diversos governos é a seguinte:
| Mandato | Lucro Itaú/PIB médio |
| FHC I | 0,073% |
| FHC II | 0,167% |
| Lula I | 0,219% |
| Lula II | 0,302% |
| Dilma I | 0,315% |
| Dilma-Temer | 0,364% |
| Bolsonaro | 0,294% |
| Lula III (2023–2025) | 0,335% |
Do primeiro mandato de FHC até o mandato iniciado pela chapa Dilma-Temer, observa-se uma participação média do lucro do Itaú no PIB superior à do período anterior. A sequência somente é interrompida por Bolsonaro, quando a média cai para 0,294%. Com Lula novamente no Planalto em 2023, volta a subir para 0,335% nos três primeiros anos.
Há uma ressalva necessária sobre 2015–2018. Michel Temer rompeu politicamente com Dilma e com o PT, assumiu a presidência depois do impeachment e conduziu uma política econômica distinta da anterior. Seria incorreto chamar o seu governo de petista. Mas também seria incorreto esquecer que Dilma Rousseff e Michel Temer foram eleitos conjuntamente em 2010 e reeleitos em 2014.
Por isso, para fins desta comparação, 2015–2018 é tratado como o mandato eleitoral da chapa Dilma-Temer, registrando-se, evidentemente, a ruptura política ocorrida em 2016. Agrupando os períodos, a diferença chama atenção:
| Período | Lucro Itaú/PIB médio |
| FHC, 1995–2002 | 0,120% |
| Mandatos PT, 2003–2018 | 0,300% |
| Bolsonaro, 2019–2022 | 0,294% |
| Lula III, 2023–2025 | 0,335% |
Durante os oito anos de FHC, portanto, o lucro anual do Itaú correspondeu, em média, a aproximadamente 0,12% do PIB brasileiro. Nos dezesseis anos seguintes, correspondentes aos quatro mandatos conquistados pelo PT, a média foi de aproximadamente 0,30%. No Lula III, até 2025, a média está em 0,335%, quase três vezes a média observada no período FHC.
Isso não prova que o PT tenha causado essa rentabilidade, mas torna difícil sustentar que a presença do partido no poder represente um ambiente econômico hostil aos bancos e, em especial, ao Itaú.
Os números não mentem
Logo após o término do segundo mandato de Lula, a Economatica fez uma comparação entre os oito anos de FHC e os oito de Lula. Para tornar a comparação do Itaú mais adequada diante da incorporação do Unibanco, considerou as duas instituições separadamente. Em valores corrigidos pela inflação, o lucro acumulado teria passado de R$ 29,9 bilhões durante FHC para R$ 75,6 bilhões durante Lula. Crescimento real de 152,8%. As ações do Itaú-Unibanco se valorizaram 729% durante os oito primeiros anos de Lula.
O levantamento mais amplo da Economatica, envolvendo nove bancos, chegou a um resultado ainda mais impressionante: R$ 30,7 bilhões de lucro real durante FHC contra R$ 199,4 bilhões durante Lula. O assunto chegou ao plenário do Senado. Ao apresentar os números, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) afirmou que os nove bancos analisados haviam lucrado 550% mais nos oito anos de Lula do que nos oito anos de FHC. Em aparte, a então senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) não contestou os números, apenas argumentou que os bancos haviam lucrado mais porque as empresas brasileiras, de maneira geral, também haviam aumentado sua lucratividade. É uma explicação perfeitamente possível, que ajuda a explicar por que os bancos prosperaram durante Lula, mas não contesta que tenham prosperado.
Há um episódio interessante anterior à eleição de 2002. Enquanto parte do mercado demonstrava temor diante da perspectiva de uma vitória petista, Roberto Setubal, então presidente do Itaú, mostrava-se tranquilo. Em setembro de 2002, declarou diante de investidores nos Estados Unidos: “Lula será o próximo presidente do Brasil; não tenho nenhuma dúvida disso.” Setúbal descrevia Lula como racional e dizia acreditar que a comunidade empresarial estava preparada para apoiá-lo. E fez uma previsão: “Estou consciente de que teremos uma transição suave.”
*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.



