Por que os nacionalistas deveriam apoiar a globalização
O livre comércio não é apenas desejável porque aumenta o produto total da sociedade ao possibilitar a divisão do trabalho entre indivíduos e países. Ele também é moralmente desejável porque permite que os indivíduos sigam seus interesses comuns sem precisarem compartilhar os valores uns dos outros. Suas interações são reduzidas ao mínimo necessário para o benefício mútuo. Assim, potenciais conflitos são evitados, tanto entre grupos quanto entre países. O agiota de Shakespeare, Shylock, comprava dos gentios, vendia para eles, conversava com eles e caminhava com eles, mas se recusava a comer com eles, beber com eles ou rezar com eles. O comércio implica não apenas a minimização de conflitos; ele também exerce uma influência civilizadora, porque você passa a ver o outro como um potencial cliente e não como um inimigo. Essa é a razão pela qual o ativista do século XIX Richard Cobden chamou o livre comércio de “a diplomacia de Deus”.
Nacionalismo: agressivo ou pacífico
A globalização é simplesmente a extensão do livre comércio a quase todos os países do mundo. À primeira vista, globalização e nacionalismo parecem ser opostos. No entanto, é preciso distinguir entre um nacionalismo agressivo e expansionista e um nacionalismo pacífico e generoso. Essa distinção é ilustrada pela disputa sobre Schleswig entre a Confederação Germânica e a Dinamarca no século XIX. O norte de Schleswig falava dinamarquês e se identificava como dinamarquês. O sul falava alemão e se identificava como alemão. Os nacionalistas alemães queriam unir todo o Schleswig à Alemanha, criando assim uma minoria de falantes de dinamarquês. Os nacionalistas dinamarqueses queriam unir todo o Schleswig à Dinamarca, criando assim uma minoria de falantes de alemão. Ambos os grupos eram agressivos e expansionistas, tentando impor sua vontade a populações relutantes. Uma terceira posição foi adotada pelo pastor e poeta dinamarquês N.F.S. Grundtvig. Ele era um nacionalista liberal que acreditava que a fronteira deveria ser traçada de modo que os dinamarqueses ficassem na Dinamarca e os alemães na Alemanha, dividindo assim Schleswig de acordo com a vontade dos habitantes. O nacionalismo de Grundtvig baseava-se na escolha: aqueles que escolhessem formar um Estado-nação e valorizar sua identidade compartilhada deveriam poder fazê-lo, mas, ao mesmo tempo, deveriam respeitar outras nações e outras culturas.
Pequenos Estados com economias abertas
Alguns poderiam argumentar que pequenos Estados não são viáveis. No entanto, o século XX viu uma proliferação de Estados independentes, de menos de 50 em todo o mundo no fim da Segunda Guerra Mundial para cerca de 200 atualmente. Considere dois exemplos. A Islândia foi, até 1918, uma dependência dinamarquesa, e muitos dinamarqueses esclarecidos e bem-intencionados eram céticos em relação à independência islandesa. Ainda assim, em comparação com muitos outros países, a Islândia se saiu bastante bem. Ela é um país próspero e civilizado. Maurício foi uma colônia britânica até 1968, e dois laureados com o Prêmio Nobel previram um futuro sombrio para o país: o economista James Meade, em um relatório de 1961 para o governo britânico, e o escritor V.S. Naipaul, em um relato de viagem. Mas o povo de Maurício provou que esses dois profetas estavam errados. O país mantém a economia mais livre da África e fez grandes progressos. De fato, Estados pequenos tendem a ter um desempenho melhor do que Estados médios ou grandes, em grande parte porque precisam manter uma economia aberta.
Mercados maiores, Estados menores
Aqui está, de fato, a resposta à pergunta colocada: por que globalização e nacionalismo não são opostos. Isso ocorre porque a globalização permite que pequenos Estados se beneficiem da divisão internacional do trabalho. Eles ganham acesso aos mercados internacionais, podem se concentrar no que fazem melhor e não precisam ser autossuficientes em tudo, o que seria muito custoso. Assim, de forma talvez paradoxal, a integração econômica permite a desintegração política, se por isso entendermos a proliferação de Estados independentes. Porque suas economias são abertas, os pequenos Estados se tornam unidades viáveis. Seu único problema real é a segurança, mas eles provavelmente podem resolvê-lo por meio de alianças militares. A conclusão é que não há contradição em defender o livre comércio e o Estado-nação. Pelo contrário: quanto maior o mercado, menor pode ser o Estado.



