Samba e política: a louvação a Lula na Marquês de Sapucaí

Print Friendly, PDF & Email

E evidente que a Acadêmicos de Niterói usa o nosso dinheiro para nos ofender e militar pelo presidente petista em pleno ano eleitoral.

O enredo da Acadêmicos de Niterói para o Carnaval carioca em 2026 foi motivo de ações na justiça por propaganda eleitoral antecipada — e o que é pior: usando o dinheiro do pagador de impostos para enaltecer o atual presidente da República às vésperas do processo eleitoral. Houve quem alegasse que todas as escolas do Grupo Especial — a primeira divisão do campeonato entre as escolas de samba — receberam o mesmo aporte federal, o que lhe daria caráter de impessoalidade. Podemos apreciar a questão por dois ângulos: um mais estrutural e sistêmico, o das verbas estatais para os desfiles, e o caso específico da Niterói.

As escolas de samba do Rio de Janeiro são manifestações populares que surgiram espontaneamente na sociedade carioca dos anos 20. Suas estruturas básicas são resultado da confluência de elementos de diversas outras manifestações anteriores, como os ranchos e as grandes sociedades. A competição entre as agremiações, que atrai atenções nacionais e internacionais todos os anos, nasceu em 1932 através da iniciativa privada, fomentada pelo jornal Mundo Sportivo.

É antiga, no entanto, a vinculação do espetáculo com os recursos do Estado. Data da gestão do prefeito Pedro Ernesto, que, na época, era um aliado fiel de Getúlio Vargas antes de entrar em desgraça com o caudilho gaúcho. Em 1935, o prefeito oficializou os desfiles competitivos como parte do calendário da cidade e estabeleceu a concessão de subsídios para as escolas. É preciso lembrar que as manifestações do samba haviam sofrido severas repressões. Os sambistas enxergaram na oficialização um caminho para escapar definitivamente desses contratempos. Ao contrário do que muitas vezes se diz, foram as próprias escolas que estabeleceram, à época, uma regra, que não mais existe, de abordar exclusivamente temas nacionais, tornando-se simpáticas à atmosfera vigente de ascensão do nacionalismo. O patrocínio passou a ser dividido entre a prefeitura e a imprensa.

O espetáculo atravessou muitas fases de lá para cá. Especialmente nos anos 70, a aproximação com o jogo do bicho, em busca de diversificar seus investimentos, demarcar território e “limpar” sua imagem junto às comunidades, estimulou a verticalização dos carros alegóricos e o aumento da opulência. O desfile ficou crescentemente mais caro. A partir de determinado momento, com relativa redução do investimento dos bicheiros depois de operações policiais, os aportes estatais aumentaram substancialmente. Hoje, as escolas de samba, especialmente as da divisão de elite, dispõem de verbas de todas as esferas do Estado (nacional, estadual e municipal), aportes das emissoras de televisão, eventuais patrocinadores (que, infelizmente, incluem, além dos bicheiros, também, em alguns casos, a milícia e o tráfico de drogas) e a renda com produtos, venda de ingressos, atividades nas quadras e shows.

Deseja receber nossos conteúdos por e-mail?

* indica obrigatório

Como folião e sambista, sinto-me confortável em dizer que esse modelo de dependência estatal deveria ser fundamentalmente revisto. O espetáculo e as agremiações deveriam perseguir a sustentabilidade financeira, o que não seria nada impossível diante da representatividade e do impacto da festa. Tal autonomia poderia fornecer ainda, de um lado, o incentivo a um modelo de gestão mais transparente, que teria maior tendência a reduzir ou afastar a influência da contravenção e do crime e trazer maior previsibilidade para a organização e preparação dos cortejos, sujeitos hoje a atrasos de repasses governamentais, e, de outro, um ganho de reputação — afinal, enquanto recursos do pagador de impostos forem utilizados, mesmo daqueles que não gostam de Carnaval e têm o direito de não gostar, as críticas constantes que uma parcela da sociedade endereça às escolas de samba terão maior legitimidade. Infelizmente, muitos interesses ainda impedem que essa transformação aconteça.

O que a Acadêmicos de Niterói está fazendo, porém, é muito particular. Apesar de as escolas de samba terem sempre repercutido o universo social e político em alguma medida — desde os enredos em sintonia com as demandas nacionalistas dos anos Vargas e no período populista, passando por enredos de críticas sociais típicos de agremiações como São Clemente e Caprichosos de Pilares e temas de apoio aos governos militares (como “O Grande Decênio” da Beija-Flor em 1975, exaltando os feitos dos primeiros dez anos de regime) até alguns temas alinhados às teses identitárias da esquerda contemporânea —, a estreante no Grupo Especial está se preparando para fazer uma louvação ao presidente da República a meses de um pleito em que ele pretende usar toda a máquina à sua disposição para atingir o intento de permanecer no Planalto. Isso nunca se viu.

 

O CNPJ da agremiação foi fundado em 2018. Em 2022, a antiga Acadêmicos do Sossego, escola tradicional fundada em 1969, anunciou que deixaria de desfilar no Rio e cedeu sua vaga na Série Ouro (segunda divisão) para a Niterói. Toda a equipe da Sossego foi mantida. O acontecimento gerou grande polêmica na época mesmo entre os sambistas, suscitando suspeitas de uma reedição do “golpe do CNPJ” para afastar o fantasma de dívidas antigas. Até hoje, os fatos não foram devidamente esclarecidos.

Niterói conquistou o título da Série Ouro em 2025 abordando a história das festas juninas, o que lhe garantiu a vaga inédita na elite. Além de novata, ela é politicamente rival das escolas da liga principal. Sem grande ambição de ser competitiva, Niterói prefere usar o Carnaval de 2026 para atrair mídia, apoio e verba. Anunciou em 9 de julho do ano passado que seu enredo abordaria momentos marcantes da vida do primeiro operário sem diploma a chegar à Presidência do Brasil. Com certeza, pesou a favor da iniciativa o fato de que o presidente de honra da agremiação, Anderson Pipico, é vereador petista.

A sinopse defende que Lula combateu a fome e promoveu a distribuição de renda e acusa a “elite” (quem não gosta do larápio) de ter nojo desse sucesso. O samba diz que “o amor venceu o medo”, canta “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, elogia a postura de Lula contra Trump neste mandato (“sem temer tarifas e sanções, assim que se firma a soberania”), divulga o número treze do PT, e o mais patético: clama “sem mitos falsos, sem anistia”, claramente afrontando os presos políticos do 8 de janeiro. Foi divulgado ainda que Jair Bolsonaro será retratado no desfile como um palhaço cercado de jacarés. O que ataques gratuitos ao governo Bolsonaro têm a ver com o enredo sobre Lula?

Resta evidente que, em um gesto concebido propositadamente para “causar”, a Niterói usa o nosso dinheiro para nos ofender e militar pelo presidente Lula em pleno ano eleitoral. Infelizmente, por mais meritória que seja a reclamação e mesmo que tenhamos a improvável felicidade de ver a “justiça” brasileira acolher a voz do bom senso e impor alguma sanção, a escola já atingiu seu principal objetivo. Já “causou”.

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.

Faça uma doação para o Instituto Liberal. Realize um PIX com o valor que desejar. Você poderá copiar a chave PIX ou escanear o QR Code abaixo:

Copie a chave PIX do IL:

28.014.876/0001-06

Escaneie o QR Code abaixo:

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, conselheiro de diversas organizações liberais brasileiras, membro refundador da Sociedade Tocqueville, sócio honorário do Instituto Libercracia, fundador e ex-editor do site Boletim da Liberdade e autor, co-autor e/ou organizador de 11 livros.

Deixe uma resposta

Pular para o conteúdo