A AfD da Alemanha é um partido libertário?

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Segundo muitas pesquisas, a Alternativa para a Alemanha (AfD) é atualmente o partido mais forte do país. Mas qual é a sua posição na área econômica? Alice Weidel, co-presidente da AfD, apresentou seu partido como “libertário” em uma conversa com Elon Musk. No entanto, há forças significativas dentro do partido que são abertamente anticapitalistas, sobretudo nos redutos da AfD no leste da Alemanha.

“Se não derrotarmos o atual capitalismo financeiro, vamos arruinar este planeta maravilhoso” – essa frase é do líder da AfD na Turíngia, Björn Höcke. “Não estamos do lado dos ricos e gananciosos”, afirma Höcke em seus discursos, polemizando contra aqueles “que, de manhã, têm uma reunião em Tóquio, à tarde, chegam a Singapura para jogar golfe e, na noite seguinte, tomam seu latte macchiato em uma espreguiçadeira no terraço ensolarado de St. Moritz”. O conhecido político da AfD na Turíngia acredita que “os super-ricos estão tentando exercer um controle informal sobre o mundo”.

Assim como seu colega de partido Maximilian Krah, Höcke descreve investidores internacionais como “gafanhotos”, um termo que se originou no discurso da esquerda na Alemanha.

Benedikt Kaiser, o principal ideólogo dos anticapitalistas de direita dentro da AfD, publicou um livro programático intitulado Solidary Patriotism. The social question from the right (em português, Patriotismo Solidário. A questão social a partir da direita). Nele, cita extensamente autores de esquerda de forma positiva, de Karl Marx e Friedrich Engels a Thomas Piketty. Seus inimigos, por outro lado, são os “radicais de mercado”, os “neoliberais” e os “libertários”, como Ludwig von Mises, Milton Friedmann e Friedrich August von Hayek, todos retratados de maneira extremamente negativa.

As reivindicações populistas de política social de Kaiser são indistinguíveis das dos partidos de esquerda na Alemanha: ele quer o aumento do imposto de renda para os maiores rendimentos e a reintrodução do imposto sobre grandes fortunas.

Segundo esses anticapitalistas de direita, partes da economia deveriam ser nacionalizadas. Götz Kubitschek, também integrante do círculo de Höcke e um dos pioneiros da direita anticapitalista dentro da AfD, exige “que seja tarefa do Estado garantir os serviços básicos nas áreas de transporte, sistema bancário, comunicação, educação, saúde, energia, habitação, cultura e segurança como Estado, e não apenas por meio da criação de um marco regulatório para provedores privados, que estão interessados sobretudo nos pedaços mais rentáveis”. Kaiser, por sua vez, acredita que se deveria considerar a nacionalização de todos os setores da economia que são vitais para o desenvolvimento do país, como a indústria pesada, o setor químico e os transportes. Usinas de energia, sistemas de abastecimento de água e assim por diante, escreve ele, também não deveriam ser operados de forma privada.

No ano passado, Maximilian Krah foi o principal candidato da AfD nas eleições europeias. Em um “manifesto” intitulado Política a partir da direita, ele expôs seus objetivos políticos, inclusive na área econômica, e destacou o que descreve como uma tensão permanente entre a política de direita e o mercado sem restrições. O mercado, continua ele, não demonstra “qualquer consideração pela tradição, pela natureza ou pela identidade” e não tem “dignidade humana”. E é por isso, segundo Krah, que os partidos de direita deveriam se opor de forma resoluta ao “radicalismo de mercado”. Seu “manifesto” está repleto de termos tipicamente associados à crítica anticapitalista e ao anticonsumismo, por exemplo, quando ele ataca o “lixo e a sujeira da sociedade do descarte”.

Krah também é crítico da globalização. Restrições ao comércio são necessárias, afirma, porque “os produtos carregam mensagens políticas e culturais”. Como exemplo, Krah cita a Coca-Cola, que, segundo ele, representa o “modo de vida americano” e, assim, promove uma “transformação cultural”. A direita política, propõe ele, também não deveria hesitar em se opor à “migração das elites”, expressão com a qual se refere a membros de conselhos de empresas que não são de origem alemã.

Krah também mira o “capitalismo plutocrático”. Na sua visão, é necessário enfrentar o flagelo dos super-ricos, sobretudo quando a acumulação de riqueza — como no caso dos pioneiros da internet — ocorreu ao longo de uma única geração. Os objetivos desses super-ricos são “em sua maioria opacos e, no fim das contas, sinistros”, explica ele.

Em um novo livro sobre Höcke, o jornalista alemão Frederik Schindler observa que existem duas alas dentro da AfD: uma pró-livre mercado e outra contrária ao livre mercado. “No momento”, diz Schindler, “o conflito borbulha sob a superfície”. No entanto, o embate entre os anticapitalistas da AfD e os economistas de mercado voltará a explodir, no mais tardar, com a adoção de um novo programa básico, prevista para 2027. A AfD é contraditória na sua atuação na política do dia a dia, como mostra, por exemplo, seu atual programa tributário, que contém muitas propostas que libertários apoiariam sem hesitação. Ao mesmo tempo, com suas propostas de uma “aposentadoria estatal de 70%”, o partido consegue até superar os partidos de esquerda no grau de irrealismo de sua política econômica.

O sucesso eleitoral da AfD e seu bom desempenho nas pesquisas vêm, no momento, servindo para manter unidas essas forças opostas: de um lado, há Weidel, que se orgulha de sua relação com Elon Musk e chega a apresentar seu partido a ele como “libertário”; de outro, Höcke, com seus ataques veementes aos super-ricos e ao capitalismo; e, no plano local, a AfD do estado de Brandemburgo, protestando contra a fábrica da Tesla de Musk.

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Rainer Zitelmann

Rainer Zitelmann

É doutor em História e Sociologia. Ele é autor de 26 livros, lecionou na Universidade Livre de Berlim e foi chefe de seção de um grande jornal da Alemanha. No Brasil, publicou, em parceria com o IL, O Capitalismo não é o problema, é a solução e Em defesa do capitalismo - Desmascarando mitos.

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