A politização de tudo: o caso Havaianas

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Que a vida política brasileira está uma bagunça, não é novidade para ninguém. Descondenado solto por malabarismos jurídicos e alçado ao cargo de presidente da república, ex-presidente preso, alvo do ódio do establishment – leia-se: mídia tradicional; intelectuais inteligentinhos; faria limers, políticos do sistema; judiciário aparelhado etc. A coisa realmente não está fácil.

Diante do aprofundamento da polarização política nos últimos tempos, dos diversos cancelamentos e boicotes em razão de lacrações, surgiu a mais nova “lacrada”, agora, em nível “rasteiro”. A Havaianas, famosa por seus chinelos de borracha, tem sofrido intensos ataques publicizados nas redes sociais por conta da recente propaganda feita pela atriz Fernanda Torres, que inicia dizendo: “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito […].” Descontada a ideia de que “quem lacra, não lucra”, passemos a entender melhor o que está por trás dessa e de outras ações econômicas e sociais, marcadas pelos pressupostos ideológicos que as fundamentam.

O grande filósofo e padre jesuíta Lima Vaz, a exemplo de outros autores, escreveu sobre tal pressuposto ainda na década de 90. Lima Vaz compreendeu uma confusão de ordem semântica já instalada em sua época, acerca de alguns termos, especialmente os termos mística e política. Em resumo, a mística refere-se à relação que o indivíduo possui com o outro Absoluto na forma da transcendência. Já a política refere-se à relação que se tem com o outro como pessoa na forma da imanência. A confusão se dá quando a política reclama para si aspectos de absolutização, próprios da experiência mística e religiosa em geral. Em outras palavras, é como se, na política, as ideias de sagrado e de profano passassem a fazer parte da práxis e do imaginário dos cidadãos que veem na política alguma espécie de redenção intramundana.

A característica mais basilar da humanidade, proposta pelos mais variados filósofos e teólogos em todos os tempos, qual seja, a de se voltar naturalmente para alguma forma de crença no Absoluto, foi transportada para a política. Hoje, muitos dizem não ter nenhuma religião, isto é, se dizem ateus, mas creem da mesma forma e intensidade (às vezes até mais) em suas ideologias políticas como uma espécie de religião salvífica das mazelas e angústias humanas. É o que podemos chamar de humanismo ateu.

Foi a partir desse suposto humanismo, operado pela pretensa sacralização de ideologias que propunham a “salvação” da humanidade, que, do século XX em diante, o mundo tem presenciado o que há de pior quanto a guerras e violências político-ideológicas, culminando em massacres jamais vistos em toda a história.

O avanço da politização de tudo, como tentativa de melhoria da vida comum, desde relações familiares até negociações complexas no campo geopolítico, acabou por criar o seu inverso. Relacionamentos e ambientes hostis têm sido a tônica dos nossos dias, de modo que até mesmo os flertes pessoais ou em aplicativos de relacionamento são pautados, antes de tudo, pela ideologia política de seus adeptos.

É assim que chegamos neste estado caótico em que o simples uso de um chinelo comercializado no Brasil há décadas torna-se quase uma questão ética, ou seja, uma questão de certo e errado que pode, inclusive, acabar em violências e tragédias entre cidadãos de uma mesma localidade e, até mesmo, entre familiares.

Está certo que Aristóteles, no século IV a.C., em sua obra Política, dizia que o homem é um ser vivo político (zoon politikon), se preferir, um animal político. Entretanto, a ideia defendida por Aristóteles sobre os que vivem fora da cidade (da pólis) como seres isolados da política – como um deus ou uma besta – parece ter sido assimilada em sentido contrário em nosso tempo. Muitos têm deixado a política pautar seus pensamentos e ações ordinárias, se entendendo, por um lado, como um deus que não deve satisfação a ninguém e, por outro, como uma besta que não mede as consequências de suas ações.

Em ambos os casos, essa ideia de animal político tem sido assimilada da pior maneira possível, sem qualquer ligação com a correta compreensão aristotélica do termo. Portanto, postula-se que essa politização de tudo, somada à compreensão inconsciente e equivocada do homem como animal político, aponta para o caos social em que vivemos.

Até onde isso vai dar? Não sabemos. A única certeza que temos é que outra ação esdrúxula de lacração e de consequente boicote já está no forno em vias de “estourar” em rede nacional. Isso se já não tiver estourado enquanto o autor lê esse texto.

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Jocinei Godoy

Jocinei Godoy

Mestrando em Ciências da Religião pela PUC-Campinas-SP. Formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Independente de Campinas-SP e em Filosofia pela PUC-Campinas-SP.

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