Produtividade, riqueza e qualidade da educação no Brasil

Print Friendly, PDF & Email

Desde o início dos tempos, quando em decorrência do pecado original, o homem é destituído da glória de Deus e lançado fora do Jardim do Éden, sua sobrevivência passa a depender de esforço próprio para transformar o mundo. Daquele momento em diante, seria preciso lavrar a terra, criar animais e se abrigar dos riscos iminentes se quisesse driblar a escassez e subsistir aos desafios da existência. A pobreza transforma-se na condição natural do ser e somente seu empenho diário seria capaz de lhe trazer algum conforto, ainda que temporário, em face da fugacidade de suas pequenas conquistas. É assim que, geração após geração, batalhar para alcançar maior grau de satisfação e usar de habilidades e talentos para modificar o ambiente, e ainda transmitir conhecimento aos descendentes, converte-se em uma práxis crucial para a continuidade da espécie humana. Sem esse conjunto de atividades permanentes e indispensáveis para transformar, criar ou modificar o meio, denominadas de produção (do latim productio, que significa fazer aparecer), não é possível experienciar sequer um precário bem-estar que remeta à bonança outrora vivida no paraíso. Não é sem motivo, portanto, que a riqueza dos povos é medida por sua capacidade de produzir. Em geral, nos países considerados ricos, a produção é suficiente para uma vida confortável e de autênticas perspectivas de progresso. Em muitos países, porém, a produção fica aquém do nível mínimo necessário para mitigar as agruras do existir. Nesse caso, a penúria é implacável, embora passível de reversão, quando suas causas são corretamente endereçadas e neutralizadas.

A partir da compreensão da importância da produção para a vida, convencionou-se utilizar o Produto Interno Bruto (PIB) como métrica para aferir a riqueza das nações, apesar de suas limitações e das críticas merecidas que tem recebido. Antes disso, porém, era preciso entender por que alguns grupos logravam mais sucesso que outros ao produzir. O fato é que as vicissitudes da vida e as incertezas em relação ao futuro ensinaram ao homem duas lições muito duras. Primeiro que, conforme postulado por Mises, toda ação humana é deliberada e necessária para superar uma situação insatisfatória. Isso quer dizer que, sem protagonizar a história de sua própria vida e assumir as responsabilidades de suas ações, o homem pouco se diferencia dos animais, abdicando, portanto, de sua capacidade inata de compreender o que se passa no ambiente e de transformá-lo, conforme sua necessidade. Segundo, que não importa os fins que se deseja alcançar, é absolutamente certo que os recursos sempre serão escassos. Logo, buscar a eficiência na produção e empenhar-se na modernização dos processos produtivos são ações essenciais e recorrentes para suplantar a carestia e ter uma vida mais tranquila.

A observação da natureza, a interação de grupos dotados com diferentes capacidades e experiências e a transmissão do conhecimento no decorrer dos séculos permitiram o aprimoramento das técnicas de produção e a criação de artefatos e instrumentos que pudessem facilitá-la. A evolução acontecia de forma tímida, embora constante, até que diversas transformações sociais, culturais e políticas, a partir da Idade Média, aceleram o desenvolvimento dos fatores de produção, especialmente o trabalho e o capital. As corporações de ofício se encarregavam de transmitir conhecimento aos jovens aprendizes, delineando seu futuro ao capacitá-los para a produção – a despeito de seu engajamento pelo monopólio profissional e de sua ação política protecionista. A integração comercial da Europa com o Novo Mundo e o livre comércio entre cidades impulsionam a acumulação de capital e os investimentos em experimentos científicos, que culminam no processo de industrialização da produção. A mecanização das atividades, a padronização de procedimentos, a divisão de tarefas e a capacitação da mão de obra nos processos produtivos permitem abreviar o tempo de produção, reduzir seus custos e multiplicar o volume produzido. O fantasma da escassez malthusiana, enfim, parece definitivamente afastado.

A criação da moeda para favorecer as transações comerciais e sua utilização como reserva de valor estabelecem um novo patamar de desenvolvimento. A simples existência desse meio de troca confiável, divisível e transportável faz explodir a eficiência das relações voluntárias, levando a sociedade a substituir rapidamente o escambo pela negociação monetária, de fácil aceitação e elevada liquidez. Surgem, então, mercados cada vez mais diversificados e sofisticados, onde compradores e vendedores, individualmente, atribuem valor aos bens negociados, conforme a utilidade que estes lhes representam. Dessa forma, pode-se dizer que a livre formação de preços se transforma na essência dos mercados, pois reflete o resultado da interação natural e voluntária de bilhões de pessoas ao redor do planeta, conforme explica Hayek. Em outras palavras, os preços dos bens transmitem informações relevantes para que os empresários possam analisar a viabilidade de aumentar ou até mesmo abandonar a produção de determinados produtos. Semelhantemente, do ponto de vista dos consumidores, é o preço que os encoraja a comprar ou substituir bens que lhes possam ser úteis. Sendo assim, qualquer intervenção estatal no sistema de preços, por mais banal que possa parecer, levará a decisões equivocadas que, mais cedo ou mais tarde, resultam em desperdícios de recursos, produção desconectada do mercado ou necessidades insatisfeitas.

Deseja receber nossos conteúdos por e-mail?

* indica obrigatório

Aliás, um dos maiores erros da organização econômica centralizada, baseada na propriedade coletiva dos meios de produção, é não aceitar a lógica econômica do sistema de preços, como se fosse possível aos burocratas do Estado determinar, com mais precisão que os próprios consumidores, o valor de cada um dos milhões de produtos e serviços existentes e a existir. Tamanha presunção chega a ser risível de tão inocente. Infelizmente, porém, a contumaz insistência em suprimir o livre mercado, o desprezo à meritocracia e o incentivo à luta de classes, típicos do socialismo, sempre traz resultados catastróficos. É apenas uma questão de tempo para que essa receita perversa transforme economias potencialmente muito ricas em terra arrasada, aniquilando qualquer possibilidade de fartura e de êxito futuro. Registros históricos mostram que a obsessão por esse tipo de organização econômica, com muita frequência, resulta em populações inteiras dizimadas ou segregadas por recusar ou se contrapor à ideologia dominante. Tudo em nome da utópica, antinatural e inexequível igualdade material a qualquer preço.

Por outro lado, a propriedade privada, a liberdade de negociação e o sistema de preços propiciam a especialização da mão de obra, a divisão do trabalho e a otimização da alocação de recursos. Se a mão de obra é profissional e o trabalho é dividido conforme a competência em cada etapa do processo produtivo, é natural que a produção seja de maior qualidade, mais veloz e de menor custo. A qualidade superior e o custo reduzido é exatamente o que faz de um produto competitivo. Por satisfazer o consumidor e superar a concorrência, há geração de valor para os stakeholders em torno do empreendimento produtivo. No final, toda a sociedade se beneficia. A começar pela cadeia de produção que interliga diversas empresas e estimula as parcerias, as inovações e a geração de empregos. O melhor aproveitamento dos escassos recursos necessários à produção resulta em lucros e estes alimentam a formação de poupança. A disponibilidade dos recursos poupados subsidia investimentos em capital e tecnologia. Modernas máquinas e equipamentos são criados para reduzir esforços, acelerar a produção e facilitar o transporte. A atmosfera favorável aos negócios aguça a visão empreendedora e desperta a capacidade criativa de inventores. Ou seja, toda uma cadeia de criação de valor é acionada. A produtividade passa a crescer em saltos e a prosperidade se espraia na intricada teia de relações econômicas entre inventores, produtores, parceiros e consumidores.

Os lucros decorrentes da excelência em atender à demanda e a possibilidade de crescimento inflamam a cobiça por fatias de mercado; e não há nenhum problema nisso. Afinal, quanto maior a competição pelo dinheiro dos consumidores, maior a disposição em aperfeiçoar os atributos do produto e reduzir o seu preço. Assim, surgem constantes inovações e a destruição criativa prevista por Schumpeter ganha espaço, levando a economia ao ciclo virtuoso do desenvolvimento. Entretanto, todo esse ecossistema que leva à prosperidade de uma nação depende das condições institucionais e do capital humano disponível. O planejamento de longo prazo que destrava os investimentos produtivos e fundamenta o ciclo econômico virtuoso ocorre apenas em uma conjuntura de riscos moderados e conhecidos, naturais do ambiente de negócios. Para tanto, é preciso um arcabouço jurídico de regras simples e claras e um sistema judiciário eficiente, que faça respeitar o direito de propriedade. Um Estado enxuto com reduzida ingerência nas atividades econômicas espontâneas completa o cenário ideal para o progresso.

No que diz respeito à formação do capital humano, é essencial que a educação acompanhe a evolução da tecnologia e das relações de trabalho. No contexto da produção modular e automatizada, das decisões descentralizadas e de sistemas ciber-físicos que interagem em tempo real com humanos, típicos da indústria 4.0, não faz sentido continuar formando profissionais para executar tarefas repetitivas e desprovidas da capacidade de discernimento do homo sapiens. Não é sensato insistir na aprovação automática de estudantes no ensino fundamental e médio, como se não houvesse qualquer relação entre o saber e a progressão de série, e como se fosse possível encastelar o discente em ambiente isento de falhas, erros e frustrações. Também é irracional exigir maiores investimentos estatais na educação. Antes de tudo porque colocar mais dinheiro público no que não produz resultado satisfatório é insano. Logo, professores e sindicatos que exigem maiores salários sem consentir com uma avaliação séria do resultado de seus trabalhos e da aplicação da meritocracia não têm probidade para pregar a qualidade da educação. Tampouco é coerente apregoar a valorização da educação sem os princípios de disciplina, ordem e respeito ao professor e ao conteúdo ensinado. Por isso, o envolvimento da família, em especial nas séries iniciais, é indispensável. O serviço de educação precisa ser avaliado pelo usuário pagante e submetido à concorrência, como qualquer outro produto ou serviço, se quiser ser aprimorado ao longo do tempo. Sendo assim, faz cada vez menos sentido manter o ensino estatal padronizado e obrigatório para todos. Aqui, mais uma vez, a falta de liberdade e de responsabilidade individual contribui para a baixa qualidade dos resultados obtidos no ensino brasileiro.

Sem dúvidas que a preparação da mão de obra para as competências profissionais demandadas no século XXI exigirão maior flexibilidade de conteúdo, menos ideologização e mais pragmatismo na solução de problemas reais. É incoerente esperar evolução material da sociedade sem uma mão de obra treinada para a realidade do mercado de trabalho, que é competitiva e meritocrática, mas ao mesmo tempo colaborativa. Não é possível pensar a construção do conhecimento sem disciplina e sem o mínimo de dedicação do aprendiz, como sugere a pedagogia freiriana, impregnada de coitadismo e doutrinação. Ademais, é urgente que os brasileiros entendam de uma vez por todas que sem esforço não há recompensa. A postura irresponsável e infantil de esperar tudo do Estado, até aqui, só gerou frustração. Não existe país do futuro com educação atrasada, instituições frágeis e protagonismo estatal. Uma rápida observação na lista dos países mais desenvolvidos possibilita constatar que a vida é mais aprazível para os povos mais educados e independentes da onipresença do Estado. Entre todas as nações, a realidade mostra que enquanto a saúde, a educação, a previdência e diversos outros aspectos da vida cotidiana forem legados ao controle do poder público, menores são as oportunidades de bem-estar e de plenitude de vida das populações.

Faça uma doação para o Instituto Liberal. Realize um PIX com o valor que desejar. Você poderá copiar a chave PIX ou escanear o QR Code abaixo:

Copie a chave PIX do IL:

28.014.876/0001-06

Escaneie o QR Code abaixo:

Vinícius Montgomery de Miranda

Vinícius Montgomery de Miranda

Graduado e Mestre pela Universidade Federal de Itajubá, MBA em Gestão Financeira pela UNITAU. Consultor de Empresas e Professor de Economia e Finanças.

Pular para o conteúdo