“O Estado e a Revolução”, de Lênin
O Estado e a Revolução, escrito por Vladimir Lênin em 1917, é uma obra fundamental para compreender a concepção marxista do Estado e o projeto revolucionário que orientou a atuação bolchevique. Elaborado no contexto turbulento da Revolução Russa, o livro apresenta uma defesa incisiva da necessidade de destruir o Estado burguês e substituí-lo por um poder proletário capaz de conduzir a sociedade rumo ao comunismo. Lênin revisita Marx e Engels com o objetivo de esclarecer o papel do Estado na luta de classes, criticando tanto as instituições vigentes quanto correntes socialistas que buscavam reformas graduais. Sua mensagem é clara: enquanto o Estado permanecer nas mãos da classe dominante, não há possibilidade real de emancipação social.
A obra é organizada de forma sucinta e direta, combinando teoria política, leitura histórica e intervenção ideológica. O texto assume um tom abertamente combativo, refletindo o caráter urgente e prático do momento revolucionário. Apesar da forte carga doutrinária, Lênin conduz o leitor por uma argumentação estruturada, explicando conceitos complexos com exemplos históricos e passagens de Marx e Engels. O livro, no entanto, está longe de ser apenas uma análise acadêmica: ele funciona como um guia de ação, projetado para orientar militantes e justificar a ruptura revolucionária.
O núcleo da obra está na tese de que o Estado burguês é, por definição, um instrumento de repressão de uma classe sobre outra. Lênin argumenta que qualquer tentativa de reformar o Estado capitalista é ilusória, pois ele sempre operará para proteger os interesses da burguesia. Por isso, a revolução não é tratada como possibilidade, mas como condição necessária. Segundo o autor, o Estado burguês deve ser destruído e substituído pela ditadura do proletariado — um Estado transitório que teria como função eliminar a burguesia enquanto classe e reorganizar a economia sob controle coletivo. Nesse modelo, o Estado não atua para garantir direitos individuais, mas para impor o domínio político do proletariado e transformar as bases da sociedade. Apenas quando as classes deixassem de existir é que o Estado começaria a desaparecer.
Essa concepção se opõe radicalmente ao liberalismo, que entende o Estado como guardião de direitos e limites institucionais que restringem o poder político. Para Lênin, tais limites não passam de aparência: o Estado liberal é apenas uma forma sofisticada de dominação burguesa. Enquanto o liberalismo busca limitar o Estado, o projeto leninista exige sua concentração máxima durante a transição revolucionária. Trata-se de uma ruptura profunda entre duas formas de conceber poder, liberdade e organização social.
Ao observarmos o século XX, a distância entre teoria e prática torna-se evidente. Embora Lênin previsse que o Estado proletário “definharia” conforme as classes desaparecessem, a experiência histórica mostra que Estados inspirados em seu modelo se tornaram altamente centralizados. Na União Soviética e em outros regimes comunistas, o Estado não apenas permaneceu, como se expandiu de maneira intensa, acumulando poder em níveis incompatíveis com a ideia de emancipação. Em diversos casos, o resultado foi a formação de regimes autoritários que pouco refletiam o ideal teórico leninista.
Mesmo em debates contemporâneos, a obra ainda repercute — sobretudo de forma crítica. Discussões sobre centralização política, expansão estatal, burocracia e redistribuição frequentemente dialogam com ideias que Lênin apresentou para justificar a tomada revolucionária do poder. A experiência histórica, porém, sugere que a ampliação do poder estatal, ainda que motivada por ideais igualitários, pode resultar em concentração de autoridade, restrição de liberdades e distorções profundas.
Outro elemento central da obra é o processo de transição para a sociedade comunista. Lênin afirma que, após a supressão das classes, o Estado gradualmente perderia sua função repressiva e deixaria de existir. No entanto, a prática dos regimes revolucionários mostrou que o fortalecimento do partido único e o controle absoluto sobre a sociedade contradisseram diretamente a promessa de desaparecimento do Estado. Esse contraste revela uma das maiores tensões entre teoria e realidade no pensamento marxista-leninista.
Em síntese, O Estado e a Revolução permanece uma obra chave para entender o pensamento revolucionário do início do século XX e a visão marxista-leninista sobre Estado e poder político. Lênin combina teoria e estratégia para apresentar uma crítica radical ao Estado burguês e para defender a necessidade da revolução. Para o leitor atual, o livro funciona ao mesmo tempo como documento histórico e como alerta: embora proponha emancipação, o modelo depende de altos níveis de concentração de poder, historicamente associados a riscos, contradições e abusos. Trata-se, portanto, de uma obra influente — mas cuja leitura crítica é indispensável para compreender as implicações da centralização extrema do poder estatal.
*Maria Almeida é administradora e contadora formada pelo IBMEC BH, com experiência em consultoria estratégica — processos e finanças — e em gestão da experiência do cliente no mercado financeiro. Atualmente, é head comercial, associada II do IFL-BH e cursa Direito na Faculdade Milton Campos, ampliando sua formação na área jurídica.



