A mentalidade anticapitalista e a resistência empresarial
“O que caracteriza o capitalismo é produzir bens em massa para o consumo da massa, provocando, desta forma, uma tendência à elevação do nível de vida em geral e ao enriquecimento progressivo dos grupos majoritários. O capitalismo ‘desproletariza’ os trabalhadores, ‘aburguesando-os’, com base em bens e serviços.” (Ludwig von Mises, A Mentalidade Anticapitalista)
É interessante e oportuno fazer uma breve referência a duas publicações interessantes: a primeira é sobre uma das obras do economista Ludwig von Mises, intitulada A Mentalidade Anticapitalista, e a segunda é o ensaio do professor Carlos Rodríguez Braun intitulado Manual de Resistência Empresarial, publicado pelo Instituto Juan de Mariana.
As referidas obras são vitais para entender a magnitude dos atuais debates sobre a conveniência ou não de uma ordem global baseada nos princípios mais elementais do livre mercado, frente à proliferação e consolidação de regimes políticos autoritários e “democráticos” com diferentes inspirações ideológicas e religiosas, que se caracterizaram por ter discursos populistas e praticar, paradoxalmente, um capitalismo de estado, o qual teve como um de seus fundamentos políticos e ideológicos a exacerbação da mentalidade anticapitalista e empresarial.
A cultura anticapitalista no ideário social da humanidade
Na obra de Ludwig von Mises mencionada anteriormente, existem várias e irrefutáveis referências e análises de tipo cultural e social que corroboram como a mentalidade anticapitalista ao longo da história moderna teve um componente altamente sociocultural.
Entre as resenhas feitas por Mises, destaca-se a velha percepção da época da sociedade feudal europeia de assemelhar os empresários e capitalistas aos aristocratas da sociedade feudal. Algo que, sob a perspectiva do liberalismo econômico, carece de fundamento, como o próprio Mises assinalou ao afirmar que a riqueza dos aristocratas não foi o produto de sua participação no mercado, pois a riqueza destes não derivava do fato de terem fornecido bens aos consumidores, mas sim procedia do saque e de privilégios outorgados pelos senhores feudais a eles.
Outra das passagens históricas destacadas por Mises é a referente aos romancistas europeus, especialmente os franceses, que contribuíram através de suas obras para distorcer e criar uma cultura anticapitalista nas grandes massas europeias, sendo uma das figuras mais destacadas desta escola de literatura “social” Émile Zola. Para este, o capitalismo era o pior dos males e a implantação do socialismo era inevitável e altamente recomendável.
A preponderância alcançada por esses romancistas, segundo Mises, conseguiu seduzir o público europeu com as ideias socialistas tanto em seus romances quanto nas comédias, as quais manifestam situações pouco satisfatórias que seriam o resultado inevitável do capitalismo, onde se destacavam a miséria das classes exploradas, suas privações corporais, a ignorância e a sujeira em que viviam, por um lado, e por outro, fustigavam-se o luxo e a corrupção moral das classes exploradoras. Na opinião desta corrente literária, tudo que era mau e ridículo era de origem burguesa; tudo que era bom e sublime era do proletariado.
Como corolário final de suas referências sobre a mentalidade anticapitalista daquelas épocas, Mises sustenta que os romancistas em questão pressupunham que os credos em que baseavam sua interpretação dos fatos sociais e econômicos constituíam verdades inquestionáveis e irrefutáveis, achando-se seguros de que seus leitores compartilhavam essas convicções.
Outra passagem da história a que Mises faz referência é a da sociedade dos EUA das primeiras décadas do século XX, na qual descreve a percepção social que se tinha dos empresários capitalistas. Segundo ele, para o escritor “esquerdista”, o homem de negócios em sua vida privada era um bárbaro, um jogador, um bêbado, que passava todos os dias na luxúria e na diversão. É desta maneira que grande parte da literatura americana descreve o empresário estadunidense.
O fanatismo da gente de pena
Nessa parte de sua obra, Mises realiza uma análise que é extremamente relevante para entender a complexa mistura da mentalidade anticapitalista prevalecente hoje em dia em escala global em diferentes magnitudes – sejam de corte esquerdista com fortes tendências populistas e intervencionistas até os governos que têm sido catalogados como populistas de direita com enfoques mercantilistas e protecionistas do comércio internacional.
O mais relevante é a semelhança existente entre a época que Mises descreve e a atual no que se refere ao fanatismo da “gente de pena” (escritores/intelectuais), tal como ele os cataloga, fanatismo esse que se caracterizou por ser intolerante frente aos que moldam a opinião pública e que questionam suas políticas, por um lado, e, por outro, por estabelecer uma complexa rede comunicacional de maquinações para sufocar a voz dos dissidentes.
Da mesma forma, Mises destaca a mistura quase ideológica entre comunistas, socialistas e intervencionistas, os quais possuem dogmas fundamentais que compartilham e sobre os quais coincidem completamente. O que se poderia afirmar hoje em dia é que essa mistura de ideologias e pseudoideologias analisadas por Mises tem uma ampla aceitação dentro das mentalidades mais anticapitalistas em escala global.
Dentro desse contexto de amálgama de ideários, segundo Mises, encontra-se um conjunto de supostos segundo os quais: a pobreza é consequência de perversas instituições sociais; a propriedade e a empresa privada foram o pecado original que privou a humanidade da ditosa vida no Éden; o capitalismo somente favorece o interesse egoísta de exploradores sem entranhas e condena a honrada massa a uma degradação e pobreza progressivas. Frente a tais aberrações do capitalismo, segundo as “penas fanáticas”, ao dizer de Mises, é preciso que essa grande deidade, chamada Estado, intervenha e elimine todos esses vícios capitalistas.
A resistência empresarial
No ensaio do professor Carlos Rodríguez Braun intitulado Manual de Resistência Empresarial, o qual circunscreve sua análise ao âmbito sociopolítico e econômico da Espanha, reafirmam-se muitos dos falsos ideários populares sobre a mentalidade anticapitalista que Mises analisou em sua já citada obra, e os quais seria repetitivo voltar a mencionar.
No entanto, o citado catedrático faz uma análise interessante a respeito da mentalidade anticapitalista que prevaleceu na sociedade espanhola há décadas e as mudanças que, segundo ele, começaram a ser observadas em relação à atitude antiempresarial no ideário social espanhol. Destaca, da mesma forma, os esforços por parte do setor privado para resistir às correntes anticapitalistas.
O citado catedrático destaca em sua análise as trocas de soma positiva entre os empresários e o resto da sociedade, nas quais ambas as partes ganham. Da mesma forma, esse autor faz uma importante anotação sobre os riscos que o empresário assume ao realizar um investimento e a probabilidade de perder tudo no pior dos cenários.
Outro dos aspectos enfatizados pelo citado catedrático é o falso ideário social e político sobre a percepção de que todas as empresas são iguais, assinalando, a esse respeito, que as medidas adotadas pelos governos deveriam levar em conta as forças e fraquezas das empresas em função de suas potencialidades e tamanho.
A evolução esperançosa
Dentro desse contexto, começou a surgir o que o citado autor chamou de evolução esperançosa. Segundo ele, a atitude dos políticos frente ao aumento dos impostos na Espanha passou de positiva para negativa pelos custos políticos que estes trazem associados.
Outro dos elementos que vem evoluindo positivamente não apenas no marco da sociedade espanhola, mas europeia, destacados por Carlos Rodríguez Braun, tem sido a conscientização no ideário social de alguns países sobre a necessidade do controle do gasto público sob a noção da responsabilidade fiscal por parte dos governos, destacando-se a sensatez fiscal dos alemães, franceses e ingleses, principalmente.
Por último, o citado catedrático faz uma importante referência à mudança de mentalidade no ideário social espanhol em relação aos empresários, colocando como exemplo o caso do empresário espanhol Amancio Ortega, que se tornou um exemplo de que a sociedade espanhola não valoriza positivamente que os políticos critiquem certos símbolos do mundo empresarial espanhol. Ela compreende melhor a importância das empresas, assim como o mérito do empreendedor e a relevância da liberdade econômica para o progresso do país.
Conclusões
Se é verdade que ainda persistem no ideário social em escala global muitas das ideias com mentalidade anticapitalista analisadas por Ludwig von Mises em sua referenciada obra e que as mesmas têm sido utilizadas como arma política contra os princípios que sustentam o livre mercado e o capitalismo liberal, também é verdade que, em algumas sociedades, como as assinaladas pelo professor Carlos Rodríguez, começaram a se produzir certos níveis de conscientização sobre a importância de preservar e apoiar as liberdades econômicas, bem como o papel positivo do empresário como o motor fundamental do desenvolvimento econômico das nações em escala global.
É importante destacar que, dentro dessa mentalidade anticapitalista, existiram importantes grupos empresariais que, à sombra do estado paternalista e corrupto, beneficiaram-se desses esquemas de uma maneira irônica; pois esse mesmo discurso anticapitalista e empresarial que sataniza os empresários, acabou criando uma casta especial dos mesmos que não devem seu sucesso empresarial ao mercado, mas sim às vinculações políticas pouco transparentes com os respectivos governos que incitam a mentalidade anticapitalista, paradoxalmente.
Frente a esse cenário, uma das tarefas talvez mais difíceis a ser enfrentadas por aqueles que defendem o livre mercado e a concorrência sem a intervenção estatal, que os distorce, é a de destacar a distinção que existe entre os empresários que dependem de sua capacidade de sobrevivência econômica e do papel eficiente que desempenham nos mercados e aqueles que vivem do capitalismo de Estado e do protecionismo que este lhes proporcionou. Estes últimos, com suas práticas, acabaram sendo uma das piores referências utilizadas por aqueles que advogaram pela mentalidade anticapitalista ao longo da história moderna e contemporânea da humanidade.
Bibliografia
Ludwig von Mises (1956), A Mentalidade Anticapitalista, União Editorial.
Carlos Rodríguez Braun (2025), Manual de Resistência Empresarial, Instituto Juan de Mariana https://juandemariana.org/manual-de-resistencia-empresarial/
*George Youkhadar é advogado e cientista político com ênfase em Relações Internacionais (UCV). Possui pós-graduações em Negociações Econômicas Internacionais (IAEDPG), MBA e Mestrado em Finanças pela Universidade do Chile.



