Um líder radical é o melhor combustível para a oposição

Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Duas figuras de espectros políticos diferentes, com diversas diferenças, mas muitas semelhanças. Ambos foram os maiores líderes populares de suas épocas. Ambos arrebataram milhões de seguidores. Ambos foram alçados ao status de “salvador da pátria”. E, principalmente, ambos reacenderam a chama de seus opositores.

Durante uma década, Lula foi um líder com um alto índice de popularidade. Sua força era tanta que, no auge, ele chegou a quase 90% de aprovação. O carisma era tanto que, mesmo com o escândalo do Mensalão, ele manteve uma popularidade de 75%, e conseguiu eleger Dilma Rousseff. Durante anos, muitas pessoas aguardavam ansiosamente o seu retorno ao Planalto. A sensação era de que a onda petista não iria ter fim.

Todavia, toda história tem um fim. O petismo começou a acabar a partir do momento em que ele começou a “esticar a corda”. O PT sempre manteve a narrativa do “nós contra eles”, entretanto esta narrativa passou a trazer problemas reais a partir do momento em que esse discurso foi intensificado. Não tem como esquecer o discurso de Marilena Chauí, em que ela dizia em alto e bom som que “odiava a classe média”. Ao invés de unir o povo, o PT e asseclas passaram a fazer de tudo para acirrar a narrativa de “nós contra eles”, usando o famoso esquema de “dividir para conquistar”.

No entanto, acima de tudo, o que fez o PT, e consequentemente a esquerda brasileira, perder o seu protagonismo foi a agressividade com que tratavam a oposição. Um jornalista publicava uma notícia contra o PT, logo surgia o risco de sofrer pesadas represálias, que podiam ser xingamentos, mas que podiam ser mais graves, como ter o local de trabalho vandalizado ou sofrer ameaças de morte por exercer o seu trabalho. Cidadãos comuns também eram (e são até hoje) acuados por militantes esquerdistas. Quem convive em ambientes universitários conhece muito bem a “tolerância” canhota.

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A terceira lei de Newton serve muito bem para definir uma regra política: “Toda ação gera uma reação”. A megalomania da esquerda deu a força necessária para o ressurgimento da direita no debate público. Sim, a direita que adormeceu durante trinta anos devido à catástrofe do regime militar ressurgiu das cinzas, enquanto a esquerda, pouco a pouco, definhava. O que moveu as manifestações que pararam o Brasil em 2015 foi o antipetismo crescente nas pessoas, que estavam cansadas do fato de o PT governar apenas para si mesmo, ignorando os verdadeiros anseios da população, da corrupção desenfreada, do desemprego latente, corroendo a renda dos cidadãos.

O PT selou a própria pá de cal esticando a corda. Quanto mais protestos surgiam, mais tendências autoritárias surgiam no governo Dilma. O ápice chegou no momento em que a presidente tentou implantar o estado de sítio em “nome da segurança nacional”. Não fosse a coragem do então chefe das Forças Armadas, general Villas-Bôas, provavelmente estaríamos vivendo em um regime semelhante ao da Venezuela. Além disso, Dilma tentou uma última cartada tentando nomear Lula como ministro-chefe da Casa Civil, com o objetivo de blindá-lo da Lava-Jato. Lula, que já estava sendo bastante contestado por diversos setores da sociedade, trouxe a falência moral do PT no comando do país.

“Esticar a corda”. O mesmo fator que fez o antipetismo se fortalecer é o mesmo fator que faz o antibolsonarismo crescer cada vez mais. O que diferencia a era petista da era bolsonarista é a velocidade na qual a corda é esticada: enquanto Lula e o PT levaram anos para o esticamento, e só o fizeram quando a permanência deles no Planalto passou a ser ameaçada, Bolsonaro e asseclas já o fazem desde os primeiros dias de governo, e de maneira calculada.

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Quando tomou posse, Jair tinha em mãos a confiança do mercado, o apoio da direita brasileira e tinha o apoio do Congresso. A Câmara dos Deputados teve a maior renovação em anos e os deputados estavam bastante entusiasmados com o governo que chegava. Aparentemente, Bolsonaro tinha apoio suficiente para não só aprovar a Reforma da Previdência, mas também quase todos os projetos que quisesse. Ele tinha tudo para ser um dos melhores presidentes da história do país.

Poderia, caso ele quisesse. Atualmente, estamos no quinto mês do governo e a situação está absolutamente caótica. O pior de tudo é que o caos foi gerado pelo próprio governo. Existe a oposição de esquerda no Congresso, mas a esquerda atualmente encontra-se fragilizada e desacreditada e, apesar de os congressistas canhotos atrapalharem a aprovação da reforma, a maior oposição ao governo Bolsonaro é o próprio Jair.

O PSL, partido de Bolsonaro, apoiou Rodrigo Maia para a presidência da Câmara, com a expectativa de que a Reforma da Previdência pudesse ser aprovada sem maiores problemas. Era para ser um caso de relação “arroz com feijão”, se o governo não tivesse atrapalhado a relação. Bolsonaro se mostrou um presidenciável não confiável, ao desmentir notícias verdadeiras só para tentar desmoralizar a imprensa, ao minar publicamente a credibilidade dos próprios aliados, e também quando forja um conflito com o Congresso Nacional para fortalecer a sua narrativa.

Todos esses atos irresponsáveis trouxeram consequências. O país está parado. A economia está regredindo, o dólar já bateu a casa dos R$4,00 e o desemprego está aumentando. Enquanto isso, a militância bolsonarista coloca toda a culpa no Congresso e no “Centrão” e tenta fazer com que a população se volte contra o legislativo. Influenciadores já falam abertamente em fechamento do Congresso e do STF.

Retorno à terceira Lei de Newton: “Toda ação gera uma reação”. Ou, como disse Rodrigo Constantino: “Quem planta vento colhe tempestade, e quem alimenta corvos terá os olhos arrancados”. A escalada autocrática do movimento bolsonarista já traz grandes consequências. A cada dia que passa, a repulsa a esse movimento fica cada vez maior e esta repulsa transcende todos os espectros políticos: a esquerda, o centro, setores da direita e setores libertários já buscam distância do bolsonarismo (principalmente da ala olavista). O Congresso está a poucos passos de entrar em guerra contra o governo. A confiança do mercado decai consideravelmente. E a chama da esquerda reacende.

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No dia 15/05, aconteceram manifestações no país inteiro contra o contingenciamento de verbas para as universidades federais, proposto pelo ministro da educação Abraham Weintraub. Nas manifestações tivemos o clássico “Lula Livre”, bandeiras e balões de sindicatos pouco ou nada ligados à educação nos protestos, o que são cenas normais para manifestações de esquerda. Todavia, um fato chamou a atenção: pela primeira vez em anos, as manifestações esquerdistas pararam o país. Em várias cidades, o número de manifestantes chegou a dezenas de milhares de pessoas. A sequência de erros na comunicação do governo, bem como a adesão a um tema popular (educação), fez com que a esquerda, depois de vários anos, reconduzisse as massas populares às ruas.

Um líder radical pode ser o impulso para a agenda ideológica que defende, mas também pode ser o maior combustível para a oposição. O antipetismo fez reacender a chama da direita brasileira. O antibolsonarismo está reacendendo a chama da esquerda brasileira. Lula e Bolsonaro são dois lados de uma mesma moeda.

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