Um fracasso de gerações (esquerdistas)

Em sua coluna de hoje no GLOBO, o jornalista José Casado fez um triste resumo do fracasso brasileiro pós-redemocratização, mostrando como se trata de uma obra de gerações, com infindáveis escândalos de corrupção e instabilidade política. Ele culpa, porém, todas as ideologias pelo retumbante fracasso de nosso experimento democrático recente, o que considero simplesmente absurdo. Diz ele:

Se há um componente peculiar na cena brasileira, é o fracasso das gerações que ascenderam na política no ocaso da ditadura militar, dominaram o poder a partir da Constituinte de 1987, e só admitiram a renovação partidária oligárquica (49% dos deputados federais eleitos em 2014 tinham berço em dinastias políticas, segundo a ONG Transparência Brasil).

Da gênese à agonia, o governo Temer contém uma síntese desse histórico fiasco geracional. Conservadores, liberais e ex-comunistas, todos se mostraram incapazes de reconstruir as bases institucionais do país em harmonia com o capitalismo contemporâneo. O legado está aí: uma pinguela em ruína em direção à absoluta incerteza.

Conservadores? Liberais? Quais?! A menos que alguém queira levar a sério a ideia ridícula de que o PMDB é um partido conservador, ou que o PSDB é um partido liberal, fica evidente que essa mistura ideológica não faz o menor sentido, e serve apenas para eximir o verdadeiro inimigo da culpa pelo estrago causado.

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E qual é esse inimigo então? Ora, o esquerdismo onipresente no país desde então, o estatismo hegemônico que domina a cena política desde a Constituição de 1988, escrita um ano antes da queda do Muro de Berlim, e eivada de conceitos socialistas. Tanto que o único parlamentar realmente mais liberal, Roberto Campos, colocou-se contra e a apelidou de “Constituição Besteirol”.

Os poucos espasmos liberais que tivemos nesse período, por meio dos tucanos social-democratas, foram justamente os responsáveis pelos avanços tímidos, em meio a tanto retrocesso. Plano Real, privatizações, banco central com autonomia e responsabilidade fiscal: eis os pilares que impediram uma desgraça ainda maior, e são todos bandeiras liberais. O que há de conservador ou liberal no resto?

Cotas raciais, assistencialismo, paternalismo, “capitalismo de compadres” por meio do BNDES, protecionismo comercial, subsídios, nacional-desenvolvimentismo, interferência excessiva no mercado, gastos públicos crescentes, centralismo burocrático: essas são as características marcantes de nosso sistema. E são bandeiras esquerdistas! Basta ver que o PSOL e o PT gostariam de insistir em todas elas.

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Não venham colocar o fracasso de nossa social-democracia estatizante na conta do liberalismo ou do conservadorismo, que isso não vai colar! Os que se mostraram incapazes de construir instituições republicanas foram justamente aqueles que lutam contra tais instituições liberais e conservadoras, ou seja, os esquerdistas, sejam eles os ultra-radicais do PT, os mais moderados do PSDB, ou os fisiológicos do PMDB.

Mas todos juntos em prol de um modelo centralizador e concentrador de poder e recursos no estado. Esse sim, é o verdadeiro inimigo a ser condenado. E quem combate esse troço são os conservadores e os liberais, aqueles que não deram o ar de sua graça no cenário político dos últimos 30 anos!

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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Presidente do Conselho do Instituto Liberal e membro-fundador do Instituto Millenium (IMIL). Rodrigo Constantino atua no setor financeiro desde 1997. Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), com MBA de Finanças pelo IBMEC. Constantino foi colunista da Veja e é colunista de importantes meios de comunicação brasileiros como os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Conquistou o Prêmio Libertas no XXII Fórum da Liberdade, realizado em 2009. Tem vários livros publicados, entre eles: "Privatize Já!" e "Esquerda Caviar".