Soberania para ditadores
A Venezuela conviveu por mais de uma década com aquilo que os covardes chamam de “processo político complexo” e que qualquer ser humano minimamente honesto reconhece como ditadura, autoritarismo, assassinatos em massa, tortura, perseguição política, censura e miséria. Nada disso é segredo. Nada disso é interpretação. É fato bruto, documentado, vivido, sobretudo pelos venezuelanos, esses personagens invisíveis sempre que a esquerda resolve discursar sobre princípios elevados.
Não há nenhuma novidade nisso. Essa turma de doentes ideológicos acredita, com convicção quase religiosa, ser cognitivamente mais esclarecida e moralmente superior, razão pela qual se sente autorizada a relativizar cadáveres em nome de abstrações.
Tenho olhos, tenho ouvidos e, confesso, tenho estômago fraco para escutar sectários ideológicos, marxistas assumidos, outros enrustidos, militantes disfarçados de jornalistas e apedeutas com diploma, invocarem, com ar grave e indignação performática, palavras como soberania e direito internacional para condenar a captura de um ditador sanguinário. A cena é grotesca. Dá vontade de vomitar não pela discordância, mas pela hipocrisia moral escancarada.
E o povo venezuelano? Um detalhe inconveniente. Um ruído estatístico. Um efeito colateral aceitável. A realidade, porém, insiste em falar por si. Um país que já foi rico graças às suas reservas de petróleo, com cerca de 29 milhões de habitantes, viu mais de um terço de sua população abandonar a própria terra. Não foi turismo ideológico. Foi fuga. Da fome, do medo, da ausência absoluta de horizonte. Países não se esvaziam assim quando estão “exercendo soberania”.
A Venezuela transformou-se num antro de corrupção, violência e miséria. Ainda assim, há quem fale em soberania para proteger um ditador que frauda eleições, se mantém no poder pela força, corrompe instituições e assassina o próprio povo, seja com balas, seja com escassez, seja com a supressão sistemática das liberdades. Um narcotraficante, cercado por uma elite militar apodrecida, sustentado por um Estado pesado, intervencionista e criminoso. Para essa turma, o problema nunca é o tirano. É sempre “o outro”. O inimigo externo. A velha desculpa retirada da cartilha da ideologia do fracasso.
Confesso: dormi e acordei no mesmo mood. Indignação lúcida, desprezo intelectual intacto. Vejo algo que muitos preferem negar: que os venezuelanos vibraram de verdade com a possibilidade do fim da tirania bolivariana, essa farsa travestida de redenção social. Vibraram porque esperança, quando reprimida por tempo demais, explode. Vibraram porque sabem, na carne, o que significa viver sob um regime que destrói tudo o que toca.
Não sou ingênuo. Nada será fácil. Os bolivarianos “do bem” são muitos, e grande parte deles veste farda. A força armada bolivariana não é um detalhe institucional; é um pilar do regime. A saída exigirá negociação, reconstrução e, sobretudo, um novo governo venezuelano, não tutelado, não fantoche, com coragem real para arrumar a casa devastada. Tarefa hercúlea.
Trump, goste-se dele ou não, fez o que a diplomacia costuma evitar: enviou uma mensagem clara. Regimes de esquerda autoritários nas Américas não são intocáveis. Isso explica a histeria moral seletiva dos defensores de ditadores de estimação. Não por acaso, Lula — amigo histórico e defensor público do tirano bolivariano Nicolás Maduro — chegou a se oferecer como interlocutor e negociador. Foi prontamente descartado. Lula nunca quis uma Venezuela verdadeiramente democrática. Evidente que Trump não precisava de mediadores comprometidos com a tirania.
Viajei muito pela Venezuela. Convivi com venezuelanos. Não falo por abstração nem por meio de chavões. Falo de pessoas reais, inteligentes, trabalhadoras, esmagadas por um Estado corrupto. Como eu gostaria que os ares da liberdade individual e econômica voltassem a pairar sobre aquela nação maravilhosa!
Se existe agora um fio de esperança, ele não nasce da diplomacia, nem da democracia retórica, nem das palavras bom-mocistas de militantes travestidos de analistas e cientistas políticos. É preciso recusar que a tirania seja tratada como princípio. Que o socialismo fracassado e sangrento ceda lugar ao trabalho, à produção, à prosperidade.
Que fique claro que quem chora a queda de um tirano mais do que os crimes que ele cometeu não defende soberania alguma. Defende apenas o próprio fanatismo, esse vício moral que transforma tiranos em causas, cadáveres em estatística e a barbárie em virtude política.



