Se o comunismo morreu, o que é a Venezuela?

“O comunismo morreu”, dizem os ingênuos que são enganados pelos malandros comunistas, que acusam a direita de ser “paranoica”. Se o comunismo morreu, o que temos em Cuba, na Coreia do Norte e, agora, na Venezuela? É claro que é justamente o velho e terrível comunismo. Adaptado, é verdade. Mascarado às vezes, sem dúvida. Mas, […]

“O comunismo morreu”, dizem os ingênuos que são enganados pelos malandros comunistas, que acusam a direita de ser “paranoica”. Se o comunismo morreu, o que temos em Cuba, na Coreia do Norte e, agora, na Venezuela? É claro que é justamente o velho e terrível comunismo. Adaptado, é verdade. Mascarado às vezes, sem dúvida. Mas, na essência, é comunismo mesmo, o responsável pela desgraça desses países.

Com a decisão de Maduro de tentar uma Constituinte para fugir das eleições, que já são manipuladas, e levando em conta todo o aparato de repressão, censura, confisco de propriedade etc, fica claro que a Venezuela padece do mesmo mal que destroçou a vida de milhões de cubanos, coreanos, chineses, vietnamitas etc. E o mal tem nome: comunismo.

Ou, se preferir, socialismo, que é seu estágio mais realista, já que a utopia igualitária é somente isso: um fim utópico que serve para que os meios nefastos produzam escravidão e miséria, nada mais. Comunismo e socialismo, usados aqui como sinônimos na prática: eis o inimigo do povo venezuelano.

Mas lendo as notícias dos novos passos de Maduro rumo ao socialismo total, não vemos praticamente a palavra socialismo ser mencionada. É mais difícil do que encontrar uma agulha no palheiro. Nessa reportagem do GLOBO, por exemplo, a única vez que a palavra aparece, em meio às quase 800 palavras, foi quando o nome oficial do partido foi citado, o que não tinha muito como o jornalista disfarçar.

O relato até mostra o caos venezuelano, apesar de dar “os dois lados” (qual seria o lado de um tirano?), mas não diz qual é a causa da confusão:

Enfrentando um aumento dos protestos populares e da pressão internacional contra seu governo, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, aproveitou a “megamarcha” organizada pelo chavismo para celebrar o Dia do Trabalho e anunciou a convocação de uma nova Assembleia Constituinte “escolhida pelo povo e pela classe trabalhadora”. O órgão deve ser eleito em parte por membros dos Conselhos Comunais — entidades locais de poder popular criados pelo regime pelo país. Segundo Maduro, o objetivo da medida é reformar o Estado e a Assembleia Nacional (AN) — atualmente controlada pela oposição — a qual classificou como “podre”. O anúncio foi imediatamente rejeitado pelo oposição — que acusou Maduro de promover um golpe de Estado — e contestado por juristas, mergulhando o país num grau ainda maior de confusão e incerteza.

— Convoco o Poder Constituinte Originário para que seja o povo, com sua soberania, que imponha a paz — afirmou o presidente à multidão em Caracas. — Vocês são testemunhas de que convoquei setores da direita a um diálogo político. Dezesseis semanas procurando chegar a acordos de paz por meio da palavra, mas eles se negaram. Hoje o cenário está claro: eles não vão parar com seu plano fascista, e cabe a nós derrotá-los com as leis, com a Constituição e com a união cívico-militar.

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[…]

Maduro designou o ministro do Poder Popular para a Educação, Elías Jaua, como presidente da Comissão Presidencial para a Consulta de Bases, e afirmou que nomes do alto escalão do chavismo também integrarão o órgão. Para o advogado constitucionalista Pedro Alfonso Del Pino, a medida de Maduro deixa o país “à beira da ditadura”.

— O mais importante não é somente se o governo convocará a Constituinte ou não, mas sim se haverá votação — afirmou Del Pino ao canal Vivo Play. — Uma AN que não surja do sufrágio direto e substitua o Parlamento atual seria uma fraude.

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Maduro prometeu assinar, horas após o discurso, um decreto sobre a nova Constituinte. O deputado Julio Borges, presidente da AN, afirmou que Maduro havia “consumado seu contínuo golpe de Estado contra a Constituição e a democracia”, acusou o presidente de “propor uma fraude para fugir do voto universal, direto e secreto do povo” e convocou Forças Armadas e poderes públicos a se pronunciarem em defesa dos valores constitucionais.

[…]

O professor Luis Pedro España, da Universidade Católica Andrés Bello, foi ainda mais duro:

— Esta é uma invenção de Maduro, um golpe de Estado ainda mais grave. Querem substituir o voto direto por um sistema de voto nas comunas, uma loucura — disse ele. — O conflito vai piorar, porque temos um governo que não está disposto a negociar nada e uma sociedade farta, que não aceita nada deste governo que considera ilegítimo. O desfecho desta crise passou a ser ainda mais imprevisível.

A Venezuela enfrenta uma crise econômica, com escassez de bens e uma inflação que pode chegar a 2.200%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Em abril, 29 pessoas morreram em protestos contra o governo, e a pressão internacional sobre o país aumentou, levando o governo a se desligar da Organização dos Estados Americanos (OEA). A proposta do Papa Francisco de mediar diálogos “com condições claras” entre governo e oposição recebeu o apoio de oito países latino-americanos, entre eles, o Brasil.

O leitor desavisado não consegue fazer o elo entre a morte da democracia e o “socialismo do século XXI”. Ao contrário: fica achando que a democracia morreu do nada, sem um motivo, sem o crescente controle de todo o estado e toda a economia por um só partido, em nome do socialismo. E ainda sai achando que a “conversa entre os dois lados” é a melhor saída, com o aval do papa Francisco, o mais esquerdista dos últimos tempos. Se a “direita” ao menos conversasse com Maduro…

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É muita desinformação. Um trabalho sério de jornalismo deveria mostrar, sem deixar margem a dúvidas, que o socialismo foi o meio pelo qual a democracia acabou asfixiada, a população perseguida, o Congresso destruído, a imprensa estatizada, as armas dos cidadãos confiscadas, a economia mergulhada na hiperinflação e no caos. Ou seja, os jornalistas tinham que explicar como o socialismo, uma vez mais, levou ao terror, à miséria, à ditadura. Como em todos os outros casos e experimentos.

Mas, em vez disso, as reportagens omitem o termo socialismo e terminam dando ênfase à retórica sensacionalista do papa, apoiada pelos governos latino-americanos, conclamando “as duas partes” do “conflito” a um “diálogo”. É como propor que o sequestrado converse com carinho com o sequestrador, para quem sabe assim as partes chegarem a um acordo mutuamente benéfico: você não me mata, se eu te entregar tudo o que tenho, ou seja, quase nada depois de anos de espoliação socialista.

Não é fofo?

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