Reinaldo Azevedo, já em casa nova, mira todas as baterias contra a Lava Jato

Fui um dos que se manifestaram contra o vazamento de conversas particulares entre “jornalista” e “fonte” sem ligação com as investigações criminais. Na verdade, acho que fui um dos primeiros, com um texto que teve bastante repercussão. Mesmo discordando de Reinaldo Azevedo de uns tempos para cá, quando ele “tucanou” de vez e passou a só criticar a Lava Jato – o fato é que princípios devem estar acima de interesses.

Mas logo começaram a surgir “teorias conspiratórias” de que tudo não passou de uma armação. Mais de duas mil conversas foram divulgadas? E só essa se tornou pública? E por um site obscuro como o BuzzFeed? E logo depois o STF tornou todas as gravações sigilosas novamente? E Reinaldo já estava na Rede TV no dia seguinte, com contrato e tudo?

Não preciso aderir a teses conspiratórias para condenar a postura do colunista tucano. Não importa que ele tenha sido vítima de fato de um erro ou um arbítrio – que devem ser condenados, como foram da extrema-esquerda, por oportunismo, à direita, por princípios. Isso não justifica ficar calado agora, que ele claramente tenta capitalizar em cima do ocorrido para bancar a vítima perseguida e descascar, ainda mais, a Lava Jato, seu novo inimigo número um.

Taiguara de Souza, Filipe Martins e Flavio Morgenstern, três formadores de opinião que respeito e admiro, têm batido na tecla de que há coisas estranhas no ar, e que tudo isso está servindo para minar a Lava Jato num momento em que ela já se encontrava debilitada. O Jornal Nacional deu amplo destaque ao “abuso de poder” contra Reinaldo, assim como inúmeros editoriais. Mesmo que seja corporativismo, é sinal de que a coisa foi tida como enorme e muitíssimo grave.

E o efeito prático tem sido não necessariamente o fortalecimento do estado de direito, mas o enfraquecimento da operação brasileira mais bem-sucedida no combate à corrupção. Realmente, Reinaldo já deixou claro qual será seu alvo no primeiro texto do novo blog, cuja chamada era esta:

 

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Taiguara Fernandes de Sousa pergunta, de forma legítima: “Sem distinções? O problema não é Janot, não é Fachin, mas a Lava Jato inteira?” Pois é. Pelo visto o jornalista considera a Lava Jato toda um inimigo a ser derrotado, um inimigo até maior do que o PT e a esquerda radical. Sergio Moro mais terrível do que Lula! Reinaldo Azevedo conseguiu novo emprego à jato. Mas pelo visto vai continuar com seus chiliques histéricos contra a maior chance que o Brasil já teve para combater a corrupção.

Flavio Morgenstern foi bem duro ao criticar toda a celeuma que mais parece uma farsa, ou que ao menos serve de pretexto para enterrar de vez a Lava Jato:

Em poucas horas após ter sido “calado pelo Estado policial de exceção” e de já ter ganhado um programa só dele na Rede TV, Reinaldo Azevedo já está de blog novo (que censura, hein?) no UOL, do grupo Folha. Sua audiência nunca foi tão alta quanto agora – e sua audiência vinha decaindo tanto que de “blog mais lido do Brasil” tinha trocado o discurso para “não vivo de clique”.

Seu post inaugural? “A LAVA JATO TENTOU ME CALAR”. Está disfarçando cada vez menos que quer que Fachin (por quem só tenho nojo) seja derrubado do STF para que a turma de Gilmar Mendes e (oh, ironia) Lewandowski e Toffoli assuma o comando da Lava-Jato. Se isso acontecer, não adianta nada ter Moro na primeira instância, a operação ACABOU, ninguém mais vai preso, o Brasil voltará a ser o que era quando era petista e Reinaldo surfava na onda tucana e do conglomerado de empresas que ele tanto defende.

Você acreditou que era briguinha de Estado contra indivíduo, de ditadura contra os “democratas”, de uma perseguição pessoal de Janot contra Reinaldo, que não havia mais sigilo de fonte no Brasil (não vi NENHUM jornalista sendo perguntado sobre suas fontes até agora)? Então, desculpe, você aplaudiu a narrativa que mais tem risco de jogar a Lava Jato inteira, todas as prisões, todas as investigações e tudo o que descobrimos que ajudou a minar a imagem da esquerda no país NO LIXO.

Em seu texto de despedida na Veja, além de se defender de coisas das quais nunca foi acusado por ninguém, com aquele vocabulário manjado que é imediatamente macaqueado quando dito (comparou uma investigação à corja de Aécio aos tanques em 1964), diz que a Lava Jato que é culpada por criar uma nova ditadura no Brasil. Você ajudou a espalhar a narrativa? Pois então voltemos à era da impunidade, onde você, gostosamente, paga para os poderosos terem o que têm.

O próximo passo, naturalmente, é subir a narrativa para instâncias internacionais. “O Brasil vive um golpe, qualquer investigação é ditadura, hoje vivemos um totalitarismo no Brasil pior do que o da Venezuela, porque os políticos, coitados, não podem mais roubar”.

Simplesmente corram para corrigir o erro. Nada é mais temerário agora do que comprar a narrativa mentirosa, forjada e estratégica para destruir a Lava Jato.

Filipe Martins foi na mesma linha:

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O blog do Reinaldo Azevedo já tem endereço novo e ele estreou falando mal da Operação Lava-Jato como um todo, sem fazer qualquer distinção, sem sequer mencionar especificamente o Janot e o Fachin. Sei que muita gente acredita que o episódio está recebendo uma atenção indevida, mas, a cada fato novo que nos chega, vai ficando mais claro que o Reinaldo está desempenhando um papel chave no esquema montado para melar a Lava-Jato e que sem compreender esse episódio à luz do seu contexto maior é impossível compreender os rumos que o país pode tomar daqui pra frente.

Mesmo os que acreditam que o Reinaldo foi vítima de uma sacanagem não podem negar, creio eu, que ele está se valendo do episódio para atacar a Operação como um todo, com a finalidade de proteger seus aliados (o termo mais adequado parece ser “superiores”) na classe política e no estamento burocrático. O próprio Reinaldo disse que está “intelectualmente realizado” porque isso mostrou a todos que ele está certo (sic) e fez com que a direita e a esquerda se unissem para denunciar a ação do Ministério Público que, segundo ele, é similar à dos militares em 1964 (sic).

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Eu confesso que estou nesse time: acho que ele foi vítima de alguma ilegalidade sim, mas que está se aproveitando para tentar ressurgir no debate público com isso, intensificando seus ataques à Lava Jato. Reinaldo não tem mais a mesma credibilidade de antes, e isso está claro. Que sua nova obsessão seja atacar a primeira operação conjunta que tem colocado políticos graúdos de vários partidos em cana ou perto disso, é algo que fala alto sobre seus verdadeiros objetivos.

Ninguém está acima da lei, críticas a eventuais excessos das autoridades são legítimas, diria até necessárias, e jornalistas devem ter suas fontes resguardadas, mesmo quando parece ser mais uma conversa de amigos do que qualquer outra coisa. Mas daí a partir para a conclusão de que o Estado de Direito foi para o saco (ele nunca foi forte no Brasil), e justamente por causa da Lava Jato, vai uma longa distância.

A Lava Jato, com seus defeitos, é a melhor esperança que os brasileiros tiveram em anos para purificar a podridão de Brasília, para atacar o câncer da corrupção sistêmica em nosso país, para colocar atrás das grades aqueles que, até ontem, juravam que a impunidade seria garantida e eterna. Transformar a Lava Jato em foco prioritário de ataque, a pior, fazer isso em nome do Estado de Direito e do liberalismo, isso é simplesmente ultrajante e inaceitável.

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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Presidente do Conselho do Instituto Liberal e membro-fundador do Instituto Millenium (IMIL). Rodrigo Constantino atua no setor financeiro desde 1997. Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), com MBA de Finanças pelo IBMEC. Constantino foi colunista da Veja e é colunista de importantes meios de comunicação brasileiros como os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Conquistou o Prêmio Libertas no XXII Fórum da Liberdade, realizado em 2009. Tem vários livros publicados, entre eles: "Privatize Já!" e "Esquerda Caviar".