Por que elegemos os piores?
“A diferença entre os homens e os animais é que os animais nunca escolhem os piores para governá-los.” (Atribuída a Winston Churchill)
Há que se fazer justiça aos homens: a eleição de um, na selva, é um processo simples. A escolha é limitada a critérios físicos — força, resistência, aptidão — e esses sinais são imediatamente visíveis. Já entre os homens, o processo se complica pela presença do componente psicológico, muito mais fácil de camuflar.
A frase em epígrafe é, ao que tudo indica, atribuída a Churchill. Mas, se ele não a formulou, faltou-lhe apenas oportunidade. A ideia é perfeitamente compatível com a sua visão crítica da política e com a verve irônica tão característica do humor inglês. A genialidade de Churchill está, sobretudo, na sua extraordinária capacidade de analisar a psicologia humana— uma condição que, infelizmente, falta à maioria dos eleitores. Em geral, deixamo-nos impressionar pelas aparências; julgamos discursos, poses e gestos, quando deveríamos examinar caráter, integridade e motivação.
Se tivéssemos a acuidade psicológica de um Churchill para identificar os traços de personalidade dos candidatos, faríamos como os animais: não escolheríamos os piores para nos governar — como frequentemente temos feito. É preciso reconhecer que o eleitor enfrenta uma dificuldade real ao tentar diagnosticar o caráter dos candidatos. No esforço pela conquista do voto, eles escondem suas fraquezas com perícia. Seus discursos são sempre altruístas, generosos, bem-intencionados. Na retórica, todos são estadistas; na prática, poucos resistem ao teste da vida real.
Com frequência, quem sobrevive na selva política é o indivíduo menos comprometido com a ética e a moral. Na disputa eleitoral, candidatos com falhas de caráter dispõem de um arsenal mais vasto: manipulação, dissimulação, promessas impossíveis, ataques pessoais. Trata-se de uma competição desigual entre integridade e malícia. Nenhum ser humano é puro — nem física nem psicologicamente. Somos combinações complexas de virtudes e fraquezas, com características dominantes e secundárias. Mas, neste texto, interessam-nos especialmente os candidatos de má formação de caráter: narcisistas, amorais, imorais — cada qual com sua própria “dosagem” de falta de escrúpulos.
Como identificá-los?
1. Pela moral instrumental
Indivíduos inescrupulosos operam segundo uma moralidade funcional:
• o certo é o que funciona;
• o errado é o que falha.
Não possuem um sistema ético interno; possuem um cálculo de custo-benefício. Podemos defini-los como:
• amorais, porque não reconhecem valor intrínseco nas ações;
• egocêntricos, porque tudo é decidido em função de si mesmos;
• pragmatistas extremos, porque a eficácia substitui a moral.
2. Pelo narcisismo
O narcisista acredita que merece privilégios e não deve satisfações. A opinião alheia só o preocupa quando ameaça sua imagem — nunca por convicção moral.
3. Pela falta de escrúpulos no exercício do poder
Quando eleitos, esses indivíduos revelam-se rapidamente:
• decidem em função de interesses pessoais;
• tratam o Estado como extensão de seus próprios negócios;
• não têm pudor em se beneficiar do cargo;
• atribuem sempre a terceiros a responsabilidade por seus erros.
Em suas narrativas, aparecem invariavelmente como:
• vítimas injustiçadas;
• heróis incompreendidos;
• ou gênios sabotados.
Nunca admitem responsabilidade; a culpa é sempre dos outros.
4. Pelo limite da ciência e da psicologia
Ainda que os profissionais contem com teorias psicológicas capazes de mapear falhas permanentes de caráter, não é acessível às massas um método infalível para distinguir impostores de estadistas antes da posse. Os candidatos jamais expõem suas fraquezas.
5. Pelo único filtro eficaz: o tempo
A verdadeira defesa do sistema democrático é o tempo. É no exercício do poder que o caráter se revela por completo. E é nas eleições que o cidadão pode — e deve — corrigir o erro, removendo do poder aqueles cuja deformação de caráter se tornou evidente. Só assim deixaremos de ser governados pelos piores.
A tragédia acontece quando a moral do eleitor é igual a dos piores candidatos.



