Por que a China foi a grande vencedora no acordo entre EUA e Coreia do Norte

“A China celebra e dá seu apoio”, declarou o ministro (chinês) ao ser questionado se o país sentia estar marginalizado pela aproximação entre Washington e Pyongyang. “É um objetivo que esperávamos e pelo qual trabalhamos”, disse. Wang defendeu uma “desnuclearização total”, tal como exige os EUA. – Trecho extraído de reportagem do site G1. A […]

“A China celebra e dá seu apoio”, declarou o ministro (chinês) ao ser questionado se o país sentia estar marginalizado pela aproximação entre Washington e Pyongyang. “É um objetivo que esperávamos e pelo qual trabalhamos”, disse. Wang defendeu uma “desnuclearização total”, tal como exige os EUA. – Trecho extraído de reportagem do site G1.

A pergunta do repórter, tentando tensionar eventual desconforto em virtude do acordo entre EUA e Coreia do Norte, deve ter sido difícil de ter sido respondida pelo Ministro Wang, da China, sem que este caísse em gargalhada.

A desnuclearização da Coreia do Norte joga a China em um novo nível no tabuleiro da geopolítica internacional.

De fato, a Coreia do Norte e a China mantêm relações muito próximas desde antes da Guerra da Coreia, afinal, comunistas coreanos ajudaram a combater os nacionalistas de Chiang Kai-Shek e dar a vitória na Guerra Civil Chinesa aos comunistas, e mais especificamente a Mao Tse-Tung. A intervenção chinesa na Guerra da Coreia, no momento em que as forças sul-coreanas, com apoio americano, avançavam dentro do território norte-coreano, foi apenas uma retribuição de favor.

Ainda assim, dentro de um cenário maior de Guerra Fria, a Coreia do Norte sempre soubera se portar a partir de uma postura de independência e altivez frente aos dois grandes países que lhe avizinhavam: a própria China e também a antiga União Soviética. Embora parceiro dessas duas forças, mantinha voz e lógica política própria, apesar de uma leve tendência de alinhamento maior com Pequim do que com Moscou, e sempre confiante na capacidade de proteção da sua soberania em virtude das vizinhas parceiras.

Com a queda do comunismo e a Nova Ordem Mundial, a Coreia do Norte se viu em um cenário geopolítico de supremacia americana (a “Pax Americana”) e imediatamente investiu pesadamente em um programa nuclear secreto, pois seus parceiros de Guerra Fria já não eram mais confiáveis. Esse programa gerou uma série de testes bem-sucedidos e a certeza para o mundo que, pelo menos desde 2006, a Coreia do Norte já possuía capacidade de produção de bombardeio nuclear. A não-derrubada do regime norte-coreano, na década de 90, foi uma oportunidade perdida para os EUA.

A recente mudança de tom da Coreia do Norte em relação à sua desnuclearização tem pouco a ver com o aumento da retórica de força dos EUA, liderados pelo seu Presidente, Donald Trump. A Coreia do Norte não precisaria bombardear ninguém para causar danos ao mundo. Explodir todo o seu arsenal nuclear na atmosfera já seria o suficiente para uma catástrofe ambiental sem precedentes. E os EUA nunca teriam velocidade suficiente para derrubar o regime de Kim em um ataque militar antes que ele lançasse seu arsenal no mundo.

A decisão da desnuclearização da Coreia do Norte, com apoio total da China (como afirmado pelo próprio ministro chinês), tem muito mais a ver com a ascensão chinesa como real nova grande potência mundial.

Em 1990, no período de inauguração da Nova Ordem Mundial, não mais bipolarizada entre EUA e URSS, mas sim multipolar e com a “Pax Americana”, a China era apenas a 11a economia do mundo (atrás do Brasil!) e, em virtude de uma agressiva liberação da sua economia através das ZEEs, entre outras ações, foi crescendo extraordinariamente sua economia, em especial na década de 2000, quando saiu da sétima para segunda posição no ranking das maiores economias, com PIB estimado de 12 trilhões de dólares (atrás apenas dos 19 trilhões de dólares de PIB americano, e com viés de ultrapassagem em breve).

Nesse período, a política externa chinesa sempre foi marcada pela cooperação com os organismos internacionais, em especial a ONU em suas missões de paz, e em um leve e constante isolacionismo militar. Ao mesmo tempo, sempre se engajou em uma forte geopolítica de expansão econômica, através de grandes investimentos em todo o mundo, se engajando em trocas econômicas a partir do que seus parceiros tinham de melhor (trocas tecnológicas com EUA, Europa, Japão e Austrália; compra de commodities na América Latina, África e sudeste asiático; compra de recursos energéticos junto aos países árabes).

Movimentação estratégica geopolítica mais agressiva da China foi também no campo econômico, ao investir em títulos da dívida pública de uma Europa afundada nas dívidas do seu welfare state (estado de bem-estar social) e dos EUA, afundados nas dívidas de seu warfare state (estado de guerra constante para promoção da paz mundial). Criou um laço positivo de dependência das grandes nações mundiais frente à sua política externa pacífica e chegou a uma grandeza que lhe permitiu um novo movimento.

O acordo de desmilitarização entre Coreia do Norte e EUA só pôde ocorrer porque a China, parceira de setenta anos dos primeiros, avalizou o acordo previamente, garantindo à Coreia do Norte a sua integridade territorial e soberania em caso de mudança de ideia dos EUA. A Coreia está entregando suas armas porque sabe que a China hoje já está em um patamar militar e econômico suficientemente forte e parelho para impedir qualquer tentativa de desestabilização de seu regime “juche” pelos EUA. Kim não tem o menor motivo para confiar em Trump ou nos EUA. Kim confia na China.

Falando em bom português: a partir da desnuclearização da Coreia do Norte, os EUA só não derrubam Kim porque a China não deixaria e teria poder para peitar a máquina de guerra americana. Não é que a China não protegia a Coreia do Norte antes, mas agora SÓ ELA a respalda, pois a Coreia já não poderá proteger a si própria.

Na prática, esse é o grande caso em que a China deixa sua “leve neutralidade militar” e se torna uma participante ativa da geopolítica militar internacional ao garantir a existência de um regime político alheio aos seus interesses diretos (não estou considerando, para fins internacionais, a questão de Taipé, pois a China enxerga esse país como província rebelde, logo, como assunto doméstico), indo para além da sua política internacional prévia de expansão de influência apenas por processo econômico. Repito, a desnuclearização total norte-coreana é a terceirização da proteção nacional do país para a China.

Com o aval de um país muito mais poderoso que a própria Coreia e rival real dos EUA, o cenário para Kim ficou muito fácil. Ele tivera duas opções:

Opção um – continuar em uma guerra fria com os EUA, um país muito mais poderoso, recebendo sanções internacionais duríssimas e ainda sendo um estorvo político incômodo para a China, além de gastar um dinheiro que não tem para manter um programa nuclear custoso e pouco efetivo; ou

Opção dois – chegar a um acordo de paz com os EUA e a Coreia do Sul, tendo acesso a mercados e tecnologias, acabando com as sanções internacionais e ainda passando, provavelmente, a receber muito mais ajuda internacional, deixando de gastar com seu programa nuclear e fiando sua defesa internacional para um país vizinho que agora tem a mesma força militar e econômica dos EUA, a China.

Sem dúvida que a manutenção da política norte-coreana na “opção um” era uma burrice. A “opção dois” é muito melhor e, se Kim não for burro, ele terá a coragem para mudar sua opção original e seguir com a nova até o final.

Para que essa mudança ocorresse, bastava apenas combinar com os chineses. Parece que esse tempo chegou. Mas só chegou porque a China agora se sente segura para declarar ao mundo o que já ressoava há muito tempo na comunidade internacional, e que parece ser a criação de uma “novíssima” Nova Ordem Mundial: a paz mundial agora é uma “Pax Sino-Americana”.

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