O preço de confundir sentimento com política

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Eu também tenho coração. Também me inquietam a pobreza, o sofrimento que aparece nas esquinas e aquele que permanece invisível nas estatísticas. Também desejo prosperidade e dignidade para as outras pessoas. Mas há uma diferença decisiva entre desejar o bem e saber produzi-lo. A história está repleta de boas intenções que pavimentaram ruínas.

Sentimentos pertencem à esfera da humanidade; transformá-los no critério supremo de organização social é outra coisa. Quando a política converte “justiça social” em salvo-conduto moral, como se a pureza da intenção dispensasse o exame das consequências, os princípios virtuosos começam a se romper.

Moralidade não é fervor emocional, mas compromisso com princípios que resistem à conveniência. Quando desejos se sobrepõem à razão, ao conhecimento acumulado e às lições da experiência histórica, a moralidade vai se despedaçando.

Existe responsabilidade fiscal e existe voluntarismo. Existe criação de riqueza e existe redistribuição de escassez. Existe segurança jurídica e existe poder discricionário maquiado por linguagem benevolente. Confundir essas distinções pode soar compassivo no discurso, mas cobra um preço concreto na realidade.

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O equívoco central está em tratar riqueza como se fosse um estoque estático a ser moralmente repartido, quando, na verdade, ela é um fluxo delicado que depende de incentivos corretos, previsibilidade, investimento, produtividade e disciplina fiscal. Recursos não florescem ao som de discursos bem-intencionados; nascem de ambientes nos quais o risco é recompensado, o esforço é valorizado e as regras permanecem estáveis o suficiente para permitir planejamento de longo prazo.

Toda vez que o Estado se expande sob o argumento de reparar injustiças, novas regulações e novos tributos surgem como expressões de cuidado coletivo. Mas custos não desaparecem por serem moralmente justificados. Eles se acumulam, distorcem decisões, retraem investimentos e recaem silenciosamente sobre toda a sociedade, inclusive sobre aqueles que se prometeu proteger.

Não se trata de negar a compaixão, mas de submetê-la à responsabilidade. Civilizações prosperam quando valores precedem vontades, quando a razão disciplina paixões e quando o poder encontra limites claros. Externos nas instituições, internos na consciência moral.

Quando sentimentos governam, o certo e o errado deixam de ser referência objetiva e passam a ser apenas narrativa bom-mocista. Sociedades que transformam princípios em narrativa descobrem, inevitavelmente, que a realidade não se comove, não se impressiona e não concede quaisquer tipos de descontos. Ela responde na linguagem dos fatos, não na gramática dos desejos. Entrega a realidade como ela é, não como deveria ser segundo as vontades do momento.

A insistência em substituir princípios por sentimentos sempre termina ensinando, ao preço mais alto, que a realidade não se curva a decretos. Ela simplesmente é.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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