O poder como ele é – e não como gostaríamos que fosse

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Ao longo da história da humanidade, o arranjo de poder político mudou muito. Vários modelos de poder nasceram, conviveram e sofreram metamorfoses. Todos os gatilhos que levaram às mudanças circunstanciais de um modelo político a outro equivaliam em gerar degenerações, conforme a teoria política clássica: a realeza que virou tirania, a aristocracia que se tornou oligarquia, nem mesmo a democracia fugiu da regra – dela, sobreveio a demagogia.

Em uma trajetória de transição de modelos tão imperfeitos, destacaram-se a Monarquia e a República, que se revezaram ao longo de séculos. Com adaptações das mais variadas formas possíveis, a sociedade sempre buscava lapidar maneiras que favorecessem a coexistência entre a centralização de padrões para facilitar mensurabilidade (moeda, medidas, leis) e barreiras de segurança para que essa centralização não significasse poder supremo a uma só instituição ou pessoa.

Foi Nicolau Maquiavel quem, rompendo com uma escrita filosófica, moral e romântica, descreveu de maneira estratégica e crua como esses poderes funcionavam em sua época. Mais que isso, foi capaz de escrever, quase que como num manual analisando comportamentos, decisões, bastidores, ambições e métodos de manutenção do poder. Vamos nos ater a O Príncipe, obra que inspirou a expressão “maquiavélico”, sinônimo de ardiloso, malicioso.

Não à toa, pois Nicolau Maquiavel não escreveu como um moralista, tampouco como um observador completamente neutro. Ao mesmo tempo em que descreve como o poder se forma e se mantém, ele também sugere caminhos estratégicos para quem deseja conquistá-lo ou preservá-lo.

Um exemplo bastante representativo de seu estilo prescritivo aparece quando cita a ascensão de Agátocles em Siracusa. Após convocar os principais líderes da cidade para uma assembleia política, Agátocles ordenou que seus soldados executassem todos os ali presentes, eliminando assim, de uma só vez, possíveis opositores e assumindo o poder para si.

Maquiavel não celebra o ato, mas analisa sua lógica: crueldades concentradas no início podem estabilizar um governo, enquanto violências repetidas ao longo do tempo tendem a gerar ódio e desordem. O livro ficou caracterizado assim, como uma lista de instruções sobre o que fazer e não fazer para que principados pudessem conquistar e se perpetuar no comando. Menos preocupado em julgar intenções, Maquiavel se ateve em indicar quais decisões produzem estabilidade em ambientes instáveis.

É justamente nesse ponto que Maquiavel traz uma das distinções mais sofisticadas da obra: virtu e fortuna, forças que operam a política. Fortuna é o acaso, o contexto, o vento que sopra a favor ou contra. Virtu é a capacidade do governante de agir diante desse vento com inteligência estratégica. Quem depende exclusivamente da fortuna cai quando ela muda. Quem desenvolve virtu é capaz de moldar circunstâncias, antecipar riscos e construir sustentação própria.

Outros exemplos como Moisés, Ciro, e tantos outros são citados na obra, demonstrando que fundadores de novas ordens não aguardavam condições ideais. Criavam -nas. Ao mencionar César Bórgia, no trecho onde executou publicamente Ramiro, seu braço direito, Maquiavel demonstra que decisões duras, quando estrategicamente calculadas, podem gerar estabilidade. O autor mais uma vez elucida que a crueldade, por mais dura que seja, colocava um ponto final nas situações, enquanto uma liderança desorganizada era um prato cheio para o temor, ódio e instabilidade de um principado.

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Aqui emerge um dos trechos mais debatidos da obra: é melhor ser amado ou temido? Ele destaca: melhor ser temido, se não puder ser ambos. Contudo, que se evite o ódio. O ódio nasce quando o governante atinge a propriedade e a honra de seus governados, o seja, a estabilidade não se constrói apenas com força, mas com previsibilidade. O poder pode sobreviver à impopularidade, mas dificilmente sobrevive à ausência de confiança.

Essa lógica não pertence apenas às monarquias do século XVI. Ela existe em qualquer estrutura de poder. Quando regras mudam de forma constante, quando decisões são tomadas sob impulso político imediato, quando intervenções tentam corrigir desequilíbrios complexos por meio de uma única variável, cria-se instabilidade. Medidas duras diluídas no tempo geram desgaste contínuo e raramente resolvem o problema estrutural. Reformas pela metade produzem custo integral e benefício parcial. A tentativa de agradar a todos pode resultar em perda de autoridade.

Indo além, Nicolau Maquiavel alerta para o perigo das “tropas mercenárias”. Soldados que lutam apenas por pagamento não sustentam batalhas difíceis. A governabilidade que se baseia
em concessões exige renovação constante dessas concessões, fragilizando o núcleo de quem tomou as decisões e tornando-o dependente de novas intervenções e exceções. Quem não se lembra do “orçamento secreto”? Na prática, o Executivo passou a depender da liberação volumosa e pouco transparente de recursos para parlamentares específicos em troca de apoio político em votações no Congresso. Não era uma política pública estruturante, mas uma engrenagem de sustentação.

Embora separadas por séculos, as duas situações compartilham a mesma lógica: relações baseadas em recompensa imediata geram lealdades frágeis. Assim como nas tropas mercenárias descritas por Maquiavel, o vínculo que sustenta o acordo não é institucional e sim transacional. O apoio existe enquanto os incentivos existem: eles lutam enquanto recebem, e, se o pagamento ou o pagador mudam, a lealdade também muda.

Apesar de escrito em um contexto italiano, O Príncipe permanece atual porque trata da lógica do poder, não de sua circunstância histórica. É, sim, difícil concordar com a os aspectos morais da obra. O trabalho exige maturidade analítica. A obra não pergunta se uma decisão parece justa, mas se ela fortalece ou enfraquece a estrutura que se pretende sustentar. Talvez por isso Maquiavel seja, ao mesmo tempo, tão criticado, mas também tão inevitável sob o ponto de vista de leitura e entendimento. Ele não romantiza a política. Ele a expõe. Mostra que todo arranjo institucional carrega incentivos próprios e que ignorá-los não os elimina. Pelo contrário, os torna mais perigosos.

Governos mudam. Modelos se revezam. Monarquias cedem espaço a repúblicas, que, por sua vez, enfrentam suas próprias distorções, mas os mecanismos de poder, como ambição, medo, interesse próprio, calculismo, enfim, continuam operando. A forma muda. A natureza, não. Compreendê-los não significa aceitá-los moralmente, mas ignorá-los é abrir mão da lucidez sobre como decisões realmente acontecem e se desdobram.

*Alisson Goulart é fundador da Lev Academy e ex-Diretor de Produtos e Inovação na Paschoalotto. Administrador pela UFSCar, atua como mentor de startups e colunista especializado em estratégia, produtos, inovação e finanças para startups.

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