O mecanismo do bode expiatório no Brasil
Reler René Girard no Brasil de 2026 não é um exercício acadêmico. Evidente que não. É testemunhar a autópsia de um rito de sangue.
Girard ensinou que sociedades em crise buscam a paz através de um sacrifício coletivo. Durante anos, o “bolsonarismo” foi o lugar onde o consórcio entre o lulopetismo e a cúpula do Judiciário operou uma perseguição constitucional. Sob o pretexto de “salvar a democracia”, ergueram uma catedral de exceção, em que o arbítrio era santificado pela urgência de exterminar o “mal absoluto”.
Para que o feitiço funcionasse, era necessário um braço litúrgico. Claro, a Rede Globo. Ao invadir o santuário dos lares brasileiros, a emissora vendeu a “Mentira Romântica” de Girard, distorcendo a realidade para os desavisados.
O jornalismo, com “J” maiúsculo, foi executado e substituído por uma pregação ideológica que fabricou a ficção de um “golpe permanente” para justificar a divinização de Alexandre de Moraes. Mas o mecanismo do bode expiatório exige a fé cega na pureza do sacrificador – e essa fé apodreceu.
O espetáculo mais emblemático dessa decomposição ocorreu no Estúdio I. Ali, Andréia Sadi, arquétipo da militância travestida de notícia, foi tragada pela força centrífuga dos fatos. Enfeitiçada por anos de uma dissonância cognitiva “progressista”, ela se viu nua, obrigada a gaguejar a verdade que sua própria emissora tentava asfixiar.
A mudança de tom não é ética; é o pânico do sobrevivente que percebe que o barco do “sistema” está fazendo água. Quando Demétrio Magnoli afirma que a nota de Moraes foi “incinerada” pelos fatos, o mito desmorona. O escândalo do Banco Master e as mensagens com Daniel Vorcaro revelam o que Girard chama de “crise de indiferenciação”, em que o perseguidor tornou-se o espelho fiel do crime que jurou combater. O “salvador” da ordem é agora o epicentro da podridão.
Aqueles que reivindicaram o status de vítimas para se tornarem os novos vitimizadores agora encaram a própria face monstruosa. A Globo recua porque o ídolo de barro está rachando sob o peso da própria soberba. Como Girard advertiu, a violência que veste o traje da justiça absoluta é a mais perigosa, mas é também a que mais rápido se desintegra quando o sangue no altar deixa de purificar e passa apenas a sujar as mãos de quem o derrama.
A farsa acabou. O que nos resta é a visão obscena de um tribunal que, de tanto caçar monstros para salvar a democracia, acabou por devorá-la no jantar, servida por uma imprensa que agora tenta limpar o batom do rosto enquanto o cadáver do Estado de Direito esfria na sala de estar.



