Encontro com a realidade

Há muito tempo que, através de meus textos, venho falando do hiato que há entre as pautas das classes artísticas, intelectuais e midiáticas, e o povo pagador de boletos. Nesse vão que há entre a realidade e aqueles que ganham salários frondosos para pensar sociedades perfeitas, conjecturar comunidades de homens de pantufas – nesse vão estão toneladas e mais toneladas de coisas que realmente importam ao afegão médio. Coisas que, para os idealistas acadêmicos e os justiceiros sociais, são pautas apenas quando ofendem os seus dogmas ideológicos; cuspir em mulheres é algo repugnante somente se o cuspidor não for José de Abreu, por exemplo.

O pai de família que acorda às 4 da manhã para colocar diariamente um litro de leite e 5 pãezinhos em sua casa alugada não tem tempo e nem interesse em saber se seu vizinho Gustavo se sente como Raquel; ele não quer saber das pautas histéricas, sentimentalescas e lacradoras da Fátima Bernardes. Ele só quer saber se ele conseguirá uma promoção na indústria, se conseguirá pagar a conta de água atrasada e se sua filha adolescente não morrerá ao voltar da escola.

O pai de família geralmente não se escandaliza quando uma ministra diz que meninos usam azul e meninas rosa; aqueles que problematizam tais questões e fazem de tais declarações um espaço infindável de lacrações, são os sustentados pelo patriarcado rico ou pelo Estado obeso. O pai e a mãe de família têm que educar suas crianças, colocar comida em suas bocas, pagar impostos abusivos e fazer horas extras para conseguir pagar boletos diversos; eles definitivamente não têm tempo para pedagogias do oprimido e nem problematizações academicistas. Por isso que ao homem comum sobra a realidade e aos desocupados as sociedades perfeitas.

Este fator simples, óbvio, que não requer nenhuma mente genial da análise social para expô-las, explica o fiasco sensacional — digno de aplausos — da lacração de Daniela Mercury e Caetano Veloso, uma máquina de deslikes no You Tube; da queda vertiginosa da audiência do programa da Fátima Bernardes; e do cancelamento do programa mais inapto em cultura e relevância humana do século XXI: Amor & Sexo. O que humildemente o povo está dizendo à Globo, ao derrubar a sua audiência, é que a emissora não precisa de um Encontro com Fátima Bernardes, mas sim de um encontro com a realidade.

Ou seja: tudo que a grade da Globo colocou a fim de lacrar, a fim de satisfazer os egos e utopias de seus idealistas de mundos perfeitos, deu muito ruim. A população está consumindo cada vez menos as atrações acéfalas da Globo, a máquina televisiva de progressismos basbaques está a cada dia mais perdendo campo de influência; e assim como não é possível esconder a calvície durante muito tempo, não é possível esconder o fracasso midiático do progressismo num país que diuturnamente reafirma seus valores conservadores.

O progressismo se afoga em seu próprio vômito, se contorce numa guerra contra seus próprios fantoches. A verdade é que os conservadores não estão dispostos a pular essa fissura para debandar para o lado dos artistas lacradores, e nem os lacradores possuem a humildade suficiente para descer de seus castelos ideológicos a fim de tocar o barro com os próprios pés. Cada dia mais essa fissura se alarga e de um lado está a crua realidade daqueles que não possuem tempo para utopias e idealismos, do outro está o eterno holograma de uma realidade construída por homens e mulheres que pensam que o leite vem da caixinha e que a família é uma invenção da burguesia para aprisionar a mulher ao patriarcado.

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Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor-chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.