O caso dos favelados no Rio de Janeiro: agressão, ressentimento ou alienação?

Theodore Dalrymple deixa claro que o problema não é a discriminação em si mesma. O problema é que autênticas discriminações preconceituosas despertam o sentimento generalizado de injustiça em massa, o que acaba gerando uma mudança de sentido na palavra e, por consequência, no imaginário ou subconsciente popular, alienando-o, impedindo toda e qualquer discriminação ou preconceito legítimo de parte de pessoas bem-intencionadas. Por resultado, tem-se que o taxado de preconceituoso vira mesmo um preconceituoso sem o ser, sendo condenado sumariamente e sem qualquer tipo de defesa.

Chega a ser trágico um mesmo fato ser interpretado de forma tão diferente ou tão contrária, por seres humanos que se dizem tão temperados e equilibrados. É impressionante existirem versões tão diferentes para um mesmo caso. É que a diferença está no coração de cada um. É que a sujeira está no coração e não na mente. Aqueles menos suscetíveis ao engano pensam muito, e refletem, antes de lançar qualquer interpretação errônea, enquanto os do senso comum se deixam levar pela massa.

Um colégio pediu para que seus alunos do 4º ano viessem vestidos de “favelados do Rio de Janeiro” para um evento em um determinado dia. Claro que isso viralizou na internet e acabou gerando descontentamento por parte de todos, inclusive de quem não tem nada a ver com o caso. Depois, o colégio se desculpou e informou que o evento desse ano teria como tema a Cidadania Solidária, que versa sobre desigualdades sociais, tendo ocorrido um mero equívoco na escolha das palavras. Ainda, a escola disse que o evento tem por fim expor movimentos de cidadania e que o título foi baseado na música dos Paralamas do Sucesso chamada “Alagados” que se refere à Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Essa notícia foi veiculada também pelo portal G1.

Ainda de acordo com a notícia veiculada pelo portal G1, alguns pais de alunos não se sentiram ofendidos, porque não viram qualquer resquício de preconceito. Enquanto outros sim sob o argumento de que já foram vítimas de preconceito antes.

Leia também:  Danilo Gentili e a Motosserra: um brado liberal

Será que todo aquele que grita negro!, gay!, é racista ou homofóbico? Será que esse grito, que parece ser de ofensa, criminosa, diga-se de passagem, realmente reflete a verdadeira intenção do seu agente perpetrador ou mais é o que vê ofendido já alienado pela vitimização? Será que não é o imaginário corrompido do suposto ofendido? Reflete mais o que pensa o ofensor ou mais o que sente o ofendido? O ofensor assim agiu porque é mesmo racista ou homofóbico ou para que o ofendido apenas se sinta agredido?

Hoje tudo vira preconceito. O sentimento de injustiça retroalimentado por grupos é tão forte que nada fica de fora de mantos protecionistas políticos. Aí, um simples ato, até mesmo um pequeno equívoco, acaba se tornando o mais hediondo de todos os delitos contra a pessoa humana. Até explicar que focinho de porco não é tomada, reputações foram aniquiladas nesse cenário grotesco de vida ou morte entre estranhos que são farinha do mesmo saco. A propósito, lembrando que por natureza todos são iguais, mesmo que a vontade ideóloga diga o contrário.

Por outro lado, buscando sempre os dois lados da balança, pelo que se lê dos textos que veicularam a notícia, se pode dizer que existe preconceito na situação, esse sentimento também deveria ser visto por outro lado. Ou seja, houve separação entre favelados, que deveriam vir vestidos de bermuda, chinelo, boné e óculos escuros, e médicos, advogados e empresários. E apenas quem foi que se sentiu ofendido? Os ditos favelados. Os outros não. Autêntica separação de classes, com aquele velho e conhecido propósito maniqueísta, colocando os favelados do lado do bem e todo o resto (pessoas mais abastadas) do lado do mal. Mas quem se sentiu ofendido? Lógico que aqueles que se dizem representantes do lado do bem, os favelados!

Não se pode deixar de reconhecer que a escolha “favelados do Rio de Janeiro”, especificamente “favelados”, foi um tanto quanto imprudente, no mínimo. Digo imprudente porque o responsável por esse escolha, com esse nome, deveria primeiro ver que estamos em tempos de modernidade, que é praticamente preconceituosa com “preconceitos” que mais são tradições e princípios do que repúdio a contrários. Assim, poderia ter evitado isso tudo com escolha de nome menos impróprio. Para esses e outros imprudentes, um alerta sério: nossa sociedade se diz plural, mas não é! O dever ser constitucional do pluralismo social ainda não existe, e todos que estão do lado do “bem” são aceitos e os do lado do mal, não!

Leia também:  Série Heróis da Liberdade: Antonin Scalia

A modernidade é um sério problema civilizatório de nossos dias atuais. Já não vem de hoje que a somatização das mazelas da modernidade, em cada pessoa, em cada grupo, está mais para a destruição do que para a construção e edificação humanas. O resultado disso tudo, a abolição do homem, que até mesmo serviu de lastro para o título de uma grande obra, de um grande homem de Deus, C.S. Lewis, confirma que as previsões, para alguns profecia, para outros conspiração ou astrologia, ou constatações fáticas de quem pensa em si e no legado civilizatório, paulatinamente estão se cumprindo. Não há como negar que o mundo hoje está de pá virada, de cabeça para baixo. E a grande maioria dos seres viventes, meros seres viventes, acham isso tudo a coisa mais bonita do mundo. Coitados, ledo engano!

Creio, vejo e sinto que um dos maiores problemas do atual Estado e sociedade moderna é o preconceito. Não digo o preconceito naquela inspiração divina de Theodore Dalrymple, de ele sendo um fenômeno necessário e tendo que ser defendido por todos para uma vida melhor, para a conservação de nossos bens sociais mais valiosos, princípios morais, tradições, costumes, etc. Afirmo, em relação a esse texto, sobre o preconceito como ele se dá nas vítimas, como ele se apresenta e se manifesta naquelas que se dizem as próprias vítimas desse mal social. Será que o preconceito estão tão generalizado assim?

Leia também:  Lutar pelo certo não é “fazer o jogo dos Estados Unidos”

Não ouso dizer, e nem penso assim, que preconceito não existe. Preconceito existe e está na nossa cara. Porém, ele não é tão monstruoso assim, não existe em todas as pessoas e em todas as manifestações taxadas com esse tipo de crime. Além disso, e o que é pior, serve de instrumental de ataque para uma agenda política e cultural bem estruturada e armada contra os contrários ao senso comum. Quando ele serve a pessoas ou grupos como uma pauta de conduta humana, aí poderemos sentir que ele é socialmente nocivo. Em vez de ajudar, ele acaba destruindo as relações sociais que devem ser sadias. Nesse ponto, creio ser verdade o que já quase virou um ditado popular: a sociedade está doente! Eu digo que está doente, em parte e olhando por cima, por causa do preconceito.

Como disse, de fato, o preconceito existe. Mas, na grande maioria dos casos, a vítima é mais criada ou institucionalizada pela política e cultura protecionista do que uma autêntica ofendida. A sensação de ofensa vem mais do imaginário do ofendido, que hoje está alienado, do que de um legítimo sentimento de injúria.

Se alguém dissesse que em julho é frio aqui no Brasil e em janeiro é quente, todo santo ano fazendo isso para mostrar que não tem preconceito algum, não tem nada de arraigado ou de costume, a consequência é que esse sujeito acabaria sendo taxado de louco. Louco sim, preconceituoso jamais!

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal no Patreon!