O Brasil está em guerra e ninguém fala disso!

Em qualquer sociedade organizada, duas coisas separam o caos sistêmico e a animalidade anárquica do bom-convívio e da ordem social minimamente sensata: consciência moral individual e segurança pública. A primeira diz respeito ao caráter e hombridade individual adquiridos — essencialmente — pela educação familiar e o ensino ético e cívico da escola. O segundo pilar se constitui de dois aparatos de segurança fornecidos pelo Estado: Forças Armadas Federais e Forças Auxiliares. O outro aparato desse pilar é o Direito Natural de autodefesa pessoal e familiar — o que inclui o direito ao porte e posse de armas, mas noutra oportunidade eu falo sobre ele.

Qualquer sociedade organizada e sadia, se analisada em sua estrutura fundante, mantém intactos estes pilares: consciência moral e segurança pública. Sem consciência moral não há como falar em bem ou mal, certo ou errado, justo ou injusto, a não ser de maneira provisória através de um contrato acertado entre partes, porém, facilmente revogável através dos direitos positivados ou ações ditatoriais. Por sua vez, sem segurança pública torna-se utopia achar que as pessoas se manterão livres o suficiente para garantirem suas seguranças. Em caso de ataque exterior, por exemplo, como se defenderão? Caso milícias armadas com fins políticos surjam dentro de suas comunidades, como garantirão as suas proteções? Os egos, ou as loucuras de terceiros, podem ceifar a sua liberdade de expressão, por exemplo, ou atentar contra a sua vida ou a vida de seus familiares; exigindo, assim, do grupo, certas regras comuns e dispositivos coletivos de segurança encarregados da proteção social contra as ocorrências criminosas internas e externas.

Em suma, podemos afirmar que sem segurança pública a consciência moral e a liberdade individual se veem limitadas e cerceadas por todos os lados; da mesma maneira que, sem a consciência moral, sequer podemos definir o que seja um crime ou uma injustiça, dessa forma, tornando a ação da segurança pública inócua e sem praticidade real.

A vida em sociedade não é possível se os indivíduos perdem o sentido de justiça e de ordem; simplesmente se torna uma mentira acreditar que a sociedade pode se estruturar sem a polícia, por exemplo. Para longe das teorias ficcionistas dos anarquistas, e dos engenheiros sociais marxistas sobre sociedades sem polícia; manteremos aqui o pé na realidade, fugindo da tentação de construir um plano paralelo para justificar nossos sonhos juvenis sobre o país das maravilhas.

Somos o país dos 59 mil assassinatos no ano de 2016; somos o país que matou, nos últimos anos, mais que a guerra civil da Síria; somos o país dos 100 policiais mortos no Rio de Janeiro em 8 meses. Ao mesmo tempo, somos o 60º no ranking da educação e a coisa piora quando se analisa os estudantes por matérias específicas. Somos a pátria educadora que menos educa, somos o país-laboratório das ideologias políticas; a consequência nefasta disso é justamente a violência crescente. Nossos alunos tiveram como patrono o saudoso Paulo Freire, o educador mais louvado na história da humanidade, o pedagogo que teve suas teorias estudadas nas universidades brasileiras, e o que gerou, consequentemente, uma das gerações mais inaptas para se concluir um pensamento lógico, e a melhor geração para repetir, sob histerias militantes, frases de ordem política. Deve ser coincidência, não é? A nossa inaptidão educacional, unido à nossa crescente e imparável taxa de criminalidade. Nas escolas ensinam que a culpa das falhas de caráter dos indivíduos não é deles, mas da sociedade que os oprime; dessa forma, reagir criminosamente contra a sociedade e seus representantes — como os policiais — passa a ser um ato de liberdade, uma cultura louvada em músicas, filmes e teatros; algo quase que “ético” e “digno”.

Ora, se é verdade que sem consciência moral é impossível se arrogar a imponência da justiça frente à injustiça, dos bons frente aos maus; como poderemos curar a desordem da segurança pública se esse caos é a consequência imediata das desvirtudes aqui cultuadas? Quando se retira a consciência moral da sociedade, outra coisa deve ser posta no lugar. O que colocaram no lugar aqui no Brasil foi a teoria da culpabilidade social. Os indivíduos tornaram-se incapazes de uma autorreflexão sincera, enxergam sempre os problemas de seus atos criminosos em terceiros e nunca em si próprios.

Hoje, quando um traficante mata um policial, pensa estar fazendo um bem — direta ou indiretamente — para a sociedade. Afinal, a polícia o oprime. É o que ele escuta nas universidades, na televisão, nos filmes e em discursos políticos. Não é porque ele possui fuzis, lança-mísseis e toneladas de entorpecentes, que isso justifica a truculência policial contra ele. Na mentalidade do bandido, é a sociedade a culpada por ele estar naquela situação de crime, afinal, lhe foi ceifado as oportunidades que, na maioria das vezes, ele sequer se pôs a procurá-las.

Se eu ignoro os maus policiais e a corrupção na polícia? Lógico que não, acredito ainda que uma das origens do caos ao qual me refiro acima, começa antes na corrupção desses agentes do que nos traficantes do morro. Acredito que um policial corrupto, que age à margem da lei, é mais sujo que os próprios bandidos que se alastram na sociedade. Mas também tenho a clara certeza que são eles, os policiais, que mantém minimamente a ordem estrutural do país, que acordam de madrugada, deixando suas famílias e acabam morrendo pelas famílias de terceiros; morrem por aqueles que os criticam.

Uma sociedade sensata deve olhar a polícia como aliada e companheira, não por politicagens ou aplausos conservadores, mas porque de fato ela tem que ser aliada e companheira para o bem social da coletividade. Principalmente no Brasil onde a polícia tem a missão divina de ser omnipresente. Afinal, eles são os únicos capazes de nos defender, já que aqui é o país onde o bandido tem AR-15 e AK-47, enquanto o cidadão possui a imponente e assustadora faca de cortar pão.

Os policias são apresentados em nossas novelas e programas televisivos como escórias, representantes da opressão social. A notícia da morte de um menor bandido enche manchetes e gera comoção nacional; enquanto que foi preciso 100 policiais mortos para que a mídia brasileira desse um valor mínimo, seguido de uma face de espanto falsa, tão real quanto o sucesso das teorias pedagógicas do Paulinho Freire acima citado.

Nossos intelectuais, como o Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e autor do Atlas da Violência de 2016, têm a pachorra de nos dizer: “As pessoas costumam pensar que criminosos são os que mais cometem homicídios, quando na verdade o latrocínio participa por no máximo 4% do total de assassinatos. Mata-se muito mais em relações interpessoais, briga de bar, briga em casa, briga de trânsito”.

Ou seja, o “especialista” quer que acreditemos que se mata mais em bares e brigas de trânsito do que em ações criminosas, no país dos morros em guerra e das facções criminosas mais bem armadas que o exército nacional. No país em que bandidos sabem utilizar armas de precisão, ao estilo Sniper. É isso mesmo? O que o Daniel Cerqueira quer que acreditemos é que brigas por causa de pinga, matam mais que ações criminosas e acertos de contas entre traficantes e facções? No país onde, em 8 meses apenas, mataram 100 PMs no RJ, tendo a população que clamar por ajuda das Forças armadas a fim garantir o mínimo de civilidade ao estado do RJ; esse é o país em que brigas de trânsito matam mais que ações de bandidos? A mídia anda numa briga constante contra a lógica e a realidade. Nega-se o óbvio para se exaltar teorias patetas.

A segurança pública brasileira, em suma, é o reflexo social imediato da cultura que adoramos e propagamos. Junto com o relativismo moral sempre adveio a ausência de ordem e a criminalidade em seu auge. Desde o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso o Brasil tomou como caráter de atuação política um pacifismo tolo, confundindo a pretensão sempre válida de paz, com atitudes pacifistas que alimentam a liberdade para a criminalidade. Desarmou-se o cidadão de bem, para dar o monopólio das armas para as facções. Inteligentíssimo mesmo esse estatuto do desarmamento.

Na era do Google Earth, no qual, se eu quiser, posso ver a minha cadelinha no portão de casa, os serviços de segurança e suas inteligências não conseguem localizar a origem dos armamentos e drogas que alimentam a criminalidade urbana no Rio de Janeiro? Na era em que um hacker de 15 anos consegue invadir e quebrar sistemas de segurança internacionais, como não sabem quem são as pessoas donde originam essas armas e drogas? Algo está muito errado, e está errado na raiz; há pessoas “graúdas” que são como vermes, se alimentam das gangrenas deixadas pela guerra civil sem fim.

O que me parece, como analista político, é que muitos fogem da realidade enquanto tal e a atual realidade brasileira é a de que estamos abertamente numa guerra civil; temos mais mortes em 3 anos “normais” aqui no Brasil, do que todos os ataques terroristas registrados na história desde 1850 — sendo considerados nesses números os corpos dos terroristas também.

Estamos em guerra, e isso tem que ser dito abertamente, não somos um país com problemas corriqueiros de segurança pública, somos um país que sofre com poderes armados paralelos. Não conseguimos anular os grupos que ameaçam a sociedade, somos o país com uma das maiores taxas de homicídios do mundo.  Atualmente os policiais vivem num constante trabalho de enxugar gelo. Estamos mandando nossos homens fardados para a morte certa, sem propósito algum para isso. Apreende-se 100 quilos de maconha hoje, chega-se 300 noutro dia; tiram-se 20 fuzis dos morros, e outros 200 são encomendados. As facções criminosas são donas de nossos presídios e quando se comete a “injustiça” de se encarcerar um de seus líderes, eles mandam um “salve geral” para os pupilos ainda soltos e colocam as forças policiais do Estado contra a parede nas capitais do país.

Somos, por fim, um país acuado e sem forças, preocupados com as diretrizes da ONU e não com o sangue do policial, preocupados com o que os “representantes” dos Direitos Humanos dirão noutro dia, após um traficante ser alvejado por um soldado da PM do Rio de Janeiro, que ganha R$ 3.213 por mês para morrer, mais cedo ou mais tarde. Enquanto isso estamos preocupados com as opiniões das ONG’s “humanitárias” e dos partidos políticos e não com o Seu José que saí às 4 horas da manhã para trabalhar sem saber se voltará para casa com o pão e com a vida. Nossos poderes estão preocupados com o bem-estar dos bandidos, sejam eles frequentadores do Senado Federal e Câmara dos Deputados ou dos bailes de funk no morro do alemão.

Perdemos a nossa consciência moral em algum canto escuso da história com o mesmo furor e velocidade com que 100 policiais foram mortos e enterrados recentemente.

O que nos impede de declarar abertamente que estamos numa guerra?

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Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor-chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.