“Nos censurem, mas por favor não cortem a verba estatal”

O que faz uma crítica política ser algo digno de atenção é a sinceridade no trato do tema, o reconhecimento de acertos e erros, verdades e mentiras para além dos gostos pessoais. Isso, todavia, não se trata de uma espécie amorfa de imparcialidade, até porque uma análise opinativa não é para ser imparcial, e sim […]

O que faz uma crítica política ser algo digno de atenção é a sinceridade no trato do tema, o reconhecimento de acertos e erros, verdades e mentiras para além dos gostos pessoais. Isso, todavia, não se trata de uma espécie amorfa de imparcialidade, até porque uma análise opinativa não é para ser imparcial, e sim sincera e fundamentada. Eu posso não gostar de um governo, mas isso não impede que eu reconheça nele acertos e virtudes; isso se chama amadurecimento de caráter, profissionalismo e compromisso com a verdade. Só consegue isso, porém, quem tem a verdade como valor absoluto e não a uma ideologia de pelúcia.

Pois bem, essa introdução se fez necessária e creio ser unânime que o papel primevo da grande mídia seja informar e não direcionar opiniões. Um atentado terrorista é um atentado terrorista e ponto, que as análises pessoais, editoriais e opiniões venham, mas que antes surja a notícia crua e simples, o relato do fato. Muitas mídias tratam os seus leitores e telespectadores como crianças, vivendo para direcioná-los como se os leitores não fossem capazes de opiniões e análises próprias.

Entretanto, numa sociedade livre temos que admitir que há pontos de vista que são inaceitáveis em si mesmas, por exemplo, a regulação estatal da mídia. A democracia precisa de uma mídia livre para acontecer, tanto que um dos primeiros passos dos governos totalitários é buscar o controle sobre ela. Democracia e mídia livre não são artigos separáveis.

No dia 11 de agosto desse ano, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu que se voltar à presidência da República ele fará a regulação midiática; o mesmo Lula que chorava a regulação midiática dos militares. Aliás, políticos de esquerda que tanto apregoam os males da ditadura militar — principalmente sobre seu antigo controle sobre as mídias —, reapresentam tal ideia como uma possibilidade para os seus fins.

Tal atitude só prova a tese de que comunistas não são contra ditaduras, apenas são contra ditaduras que não são comunistas. Não bastasse a hipocrisia daqueles que variam entre chorar as mínguas da mídia sufocada do passado e os aplausos à ideia de sufocar a mídia hoje; esses ideólogos sobrevivem, muitas vezes, de contar ao mundo sobre as ausências de liberdades básicas do período militar brasileiro, rogando a “Deus” que o Lula vença para tirar da sociedade a liberdade basal da imprensa.

Mas, sejamos sinceros, isso não é novidade alguma para quem trabalha, estuda ou convive no meio socialista. O duplipensar, o ato de defender dois pontos de vista contraditórios, ao mesmo tempo, já é carta marcada na mentalidade esquerdista. Eu mesmo já escrevi um texto sobre isso explicando como se configura essa ação verdadeiramente esquizofrênica. O que se torna espantoso nisso tudo é o silêncio sepulcral da grande mídia frente a um ataque frontal desses. Que as cadeiras editoriais e os conselhos midiáticos estejam tomadas por mentes esquerdistas, isso se tornou evidente para aqueles mais espertos; não obstante, que essas mesmas mentes tenham sido cegadas ao ponto de se curvarem ante a ameaça de perderem a própria liberdade de crítica, bom, isso é novo para mim.

Uma situação ocorrida recentemente ilustrará isso com maior clareza. O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC – RJ), no dia primeiro desse mês, aparece em um vídeo onde sob seu modo exaltado de ser afirma que, se for eleito, diminuirá o repasse estatal para o jornal O Globo; jornal que repetidas vezes vem atacando o deputado de maneira viral, seja pelo próprio meio oficial do jornal, seja por mídias alternativas que as organizações Globo gerenciam. Não sou nenhum entusiasta do deputado, mas atacá-lo na mídia virou sinônimo de virtude social; parece que não aprenderam nada com o exemplo de Donald Trump. O povo vem tendendo a seguir o caminho oposto que a mídia propõe como sendo a via-sacra rumo à “paz social”, ou o famigerado “Estado de bem-estar social”.

Façamos uma revisão rápida, Lula ameaça fazer a regulação estatal da mídia, voltar aos tempos de cerceamento de liberdades de imprensa; Bolsonaro ameaça cortar a verba estatal para as organizações Globo — cá entre nós, se tem alguma organização nesse país que não precisa de dinheiro estatal essa organização é a Globo —; advinha quem a mídia resolveu atacar?

Pois é, no dia 3/12 o jornal O Globo fez uma matéria onde o título dava a entender que Bolsonaro havia cometido um crime de administração pública a fim de empregar parentes; o título da matéria diz: “Bolsonaro empregou ex-mulher e parentes dela no Legislativo”. A matéria discorre fazendo um levantamento histórico do fato, entretanto, lendo o artigo nós percebemos que “apesar dos quase 20 anos de nomeações, os casos não podem ser tecnicamente enquadrados como nepotismo”. Ou seja, o deputado não cometeu crime algum, a matéria do O Globo teve a intenção pura e simples de borrifar através de um enunciado pedante a condenação prévia de seu inimigo público por um crime inexistente. Bem sabemos que na era dos compartilhamentos, onde 70% — ou mais — da população sequer lê a matéria além do título, essa é uma arma de propaganda nefasta e desonesta. Meus caros, o tempo passa e as táticas totalitárias de propaganda não mudam, Joseph Goebbels está orgulhoso.

Em suma, o que percebemos é que a mídia nacional julgou ser mais digno de revolta o corte de verbas estatais para as mídias do que a regulação estatal da imprensa. Desde quando a imprensa brasileira começou a gostar do masoquismo político? Não sei. Mas é fato que ela elegeu um inimigo mor para 2018, Jair Bolsonaro. Isso não é discurso de simpatizante, é simplesmente uma constatação de quem não é um cego político. Entretanto, meus caros, assim como disse acima, a imprensa deveria se precaver. O assassínio de reputação promovido pela mídia americana contra Donald Trump acabou o elegendo; em dado momento da cobertura jornalística nos EUA o tratamento dispensado ao republicano se tornou tão desleal que o povo começou a perceber que havia uma agenda por trás daquele ataque deliberado, começou a se questionar porque era tão absurdo eleger Trump e tão necessário votar em Hillary. O resultado veio nas urnas, Trump foi eleito e hoje ele tem a sua popularidade crescente e suas políticas econômicas e sociais a todo vapor.

O seletismo midiático no trato jornalístico, quando o assunto é candidatos ausentes da agenda esquerdista, é algo absurdo. Os jornais podem e devem ter linhas editoriais, mas a sinceridade e a honestidade no trato dos conteúdos ainda deve ser uma ética universal inegociável. A submissão de militantes frente as doutrinas partidárias são compreensíveis, já que, infelizmente, sempre existiram vassalos de diretórios. Todavia, quando as redações de grandes jornais se tornam partições de facções ideológicas, aí sim se torna preocupante. Quando a imprensa se assusta mais com cortes de verbas estatais do que com a regulação estatal dos seus jornais, aí talvez tenhamos que repensar seriamente aquilo que hoje chamamos de democracia.

Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal e Pedro Henrique Alves no Patreon!