Entre a panfletagem e o velório
Quem me segue conhece minha fome incurável pela sétima arte. Ontem, em uma espécie de desintoxicação preventiva contra o cinema modernoso, maratonei O Espião.
Ali ainda se encontra algo que o cinema atual parece ter deliberadamente esquecido. Sim, a crueza dos fatos, o peso da realidade e uma interpretação que exala sacrifício.
Mas que fique claro que meu apreço não se limita ao “baseado em fatos reais”. Aceitaria com entusiasmo um cinema puramente imaginativo, fantasioso ou abstrato. Evidente, desde que não fosse a panfletagem rasteira que hoje se tornou regra.
O que me move na arte são os estímulos virtuosos e a busca obsessiva pela excelência estética, não o uso da tela como um quadro-negro de doutrinação ideológica.
Hoje, a entrega do Oscar é um evento pelo qual meu interesse tangencia o zero. A Academia, outrora santuário da genialidade e da invenção artística, transmutou-se lentamente no departamento de RH de um progressismo performático.
Assistir à cerimônia tornou-se um exercício de masoquismo estético, no qual a sinalização de virtude substituiu o talento bruto. O mérito foi exilado; em seu lugar, tabelas invisíveis de conformidade passaram a ditar a cena, convertendo a criação em uma burocracia identitária feita de cotas simbólicas e carimbos ideológicos.
O que Hollywood vende hoje é uma irreverência oca e previsível. São rebeldes de condomínio fechado, encenando uma resistência de roteiro ensaiado enquanto distribuem lições de moral a uma plateia que parecem desprezar.
O wokismo e o politicamente correto funcionam como um ácido silencioso, corroendo lentamente a capacidade do cinema de nos provocar, desafiar e surpreender. Roteiros foram substituídos por manuais de conduta; personagens complexos deram lugar a manequins de uma agenda moralista que confunde arte com engenharia social.
Ao sacrificar a transcendência no altar do aplauso digital, a indústria cometeu o pecado do suicídio da imaginação por excesso de covardia cultural.
O Oscar de hoje já não é celebração alguma; é o banquete servido no velório da inteligência. Enquanto a elite cultural se autoflagela em busca de redenções simbólicas, a estatueta dourada revela-se apenas o peso morto de uma arte que, de tanto querer ser correta, tornou-se profundamente irrelevante.
Hollywood não perdeu apenas mercado. Perdeu a dignidade de ser livre. A luz da sala se apagou, mas o projetor continua rodando — insistente — um filme cada vez mais vazio.



