Eleições presidenciais portuguesas: a espiral do silêncio e a burrice direitista

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Daqui a alguns dias, Portugal elegerá seu novo presidente. O segundo turno será disputado entre António José Seguro, do Partido Socialista, e André Ventura, do Chega. Mesmo com muitas limitações típicas de um regime parlamentarista, a Presidência tem em mãos uma série de atribuições vitais para a vida política portuguesa — convocar eleições, dissolver o Parlamento, declarar estado de sítio, dentre outras prerrogativas.

No primeiro turno, Seguro obteve 31,12% dos votos contra os 23,52% de Ventura. Desde então, candidatos derrotados e lideranças de outros partidos declararam apoio ao candidato socialista — até mesmo partidários de agremiações consideradas direitistas, como o Partido Social Democrata (PSD) e a Iniciativa Liberal (IL). É a reunião do establishment português contra o candidato direitista, pois, segundo os seus expoentes, Ventura é uma ameaça ao Estado Democrático de Direito. Já ouvimos ad nauseam essa conversa fiada antes, não?

Essa premissa é sustentada por duas coisas: (I) Seguro e os socialistas não querem destruir a democracia e (II) Ventura deseja precisamente isso ao ferir de morte as tais “diferentes liberdades’” evocadas pelo manifesto de artistas portugueses contra ele. Xutos e Pontapés são obrigatórios na minha playlist e o GNR recorda a minha paixão pelo Futebol Clube do Porto em ‘’Pronúncia do Norte’’ — hino de uma região esquecida e marginalizada. Porém, a opinião política de quem vive da arte não é especial de maneira alguma — ao contrário: costuma ser a mais estúpida possível.

Socialismo: a verdadeira ameaça à democracia

Pois bem, volto ao objeto do artigo. Qualquer forma de socialismo, repito, qualquer forma, é uma ameaça à democracia por si. Não seria necessário alongar muito esse tema para chegar a tal conclusão, mas basta recordar que o socialismo é um estágio temporário para o preparo da utopia comunista, a dita sociedade sem classes. Como toda revolução, é necessária uma concentração total de poder nas mãos de quem irá realizar tal façanha, além da mudança absoluta dos padrões morais e culturais da sociedade existente. Ambas as coisas levam ao fim das liberdades individuais garantidas pelo rule of law, que é justamente a democracia — sem falar do banho de sangue vindouro, consequência lógica da materialização da mentalidade revolucionária.

Alguém pode falar que o PS não representa ameaça alguma à democracia por fazer parte do jogo e nunca tentar diretamente acabar com ele. As alianças com o Partido Comunista Português (PCP) para a formação de governos parlamentares já bastariam para elucidar qualquer dúvida. “Me diga com quem tu andas…” Além disso, a Constituição portuguesa tem forte inspiração socialista por ter sido redigida após o fim do Estado Novo salazarista. Como destruir algo que você mesmo criou? Ou alguém acredita mesmo que, sem a existência do PSD, da IL, do CDS e do próprio Chega, os socialistas teriam o pudor democrático em não empreender um regime autoritário? Eles não precisam. Já fazem isso sem assumir o ônus da coisa.

Dizem os adversários do Chega que Ventura ameaça a sacrossanta democracia. Por qual razão? Falar mal dos jihadistas, do multiculturalismo, do assistencialismo e da imigração ilegal? Foi essa a tão sacrossanta liberdade conquistada pela Revolução dos Cravos? A verdade, única e inconfessável, é que o discurso político direitista propalado por ele não é — ao menos fazem de tudo para não ser — permitido no debate público português. É a velha espiral do silêncio: todas as opiniões são válidas e respeitáveis, exceto as que divergem do consenso estabelecido. E o mainstream em Portugal segue a mesma linha diretiva dos seus vizinhos europeus: esquerda progressista. Qualquer palavra mal colocada vira pretexto para a mordaça imposta por burocratas invisíveis alocados em tribunais.

Todos contra a direita

Mas sabem o melhor? Cotrim de Figueiredo, candidato da IL, seguiu o movimento de várias figuras do seu partido no apoio a Seguro. Vocês já sabem a ladainha utilizada como justificativa para tal estupidez injustificável. O homem que foi candidato pela agremiação que promete um choque de capitalismo e livre mercado a Portugal apoia os seus maiores algozes. Ele e os militantes da Iniciativa Liberal esqueceram a bancarrota de 2011 sob o governo do socialista José Sócrates? A nossa Pátria Mãe enfrentou naquele ano um cenário de caos econômico completo, com o governo sem dinheiro até mesmo para pagar funcionários públicos e aposentados. Colaborar com quem foi responsável pela desgraça socialista, seja lá qual argumento for utilizado, é jogar no lixo a razão do advento da própria IL.

Alega-se que Cotrim de Figueiredo e a própria IL são globalistas. Podem até ser, mas não me entra na cabeça como uma liderança política defende o capitalismo laissez-faire como bandeira vital da sua presença no debate público e, logo em seguida, entra nas fileiras eleitorais de um socialista. Dos figurões do PSD, eu já esperava tal atitude, mas de quem se diz liberal, a coisa é mais indecente ainda. É constrangedor. É estúpido. É, na melhor das hipóteses, burrice.

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.

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Carlos Junior

Carlos Junior

É jornalista. Colunista dos portais "Renova Mídia" e a "A Tocha". Estudioso profundo da história, da política e da formação nacional do Brasil, também escreve sobre política americana.

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