Aventuras de Ciro no país das maravilhas

Na fábula de Alice no país das maravilhas, num dado momento dos desencontros e passeios quase esquizofrênicos da menina Alice no interior da toca do coelho, ela se encontra sentada numa grande mesa de chá ao bom estilo inglês. Seus companheiros de mesa são: o famoso chapeleiro, a Lebre de Março e o Leirão sonolento. […]

Na fábula de Alice no país das maravilhas, num dado momento dos desencontros e passeios quase esquizofrênicos da menina Alice no interior da toca do coelho, ela se encontra sentada numa grande mesa de chá ao bom estilo inglês. Seus companheiros de mesa são: o famoso chapeleiro, a Lebre de Março e o Leirão sonolento. No início do diálogo que decorre na cena, de maneira polida a Lebre oferece à menina um pouco de vinho; e, com o que restou de lógica nesse conto, Alice olha ao redor, focalizando na mesa onde o cardápio único é o chá das 18 horas, e então fala para a Lebre que não tem vinho. A lebre então responde à observação da menina: “E não há nenhum mesmo”.

Tal diálogo é apenas o início das desconexas conversas que se seguiriam na trama, mas nos deteremos nesse colóquio em especial. Fora o absurdo de uma Lebre oferecendo vinho, e que tenha oferecido tal bebida a uma criança — o que facilmente poderia despertar uma passeata furiosa de abstêmios na paulista, ou ainda gerar uma retirada de patrocínios por parte dos defensores das crianças e adolescentes já nascidos —, a finalização desse breve diálogo me faz lembrar muito um candidato à presidência; o grande estadista, economista, e protecionista, Ciro Gomes.

Há pouco ele nos brindou com mais uma demonstração sensacional de sua temperança, capacidade de diálogo e sensibilidade democrática. Ao discursar com sua costumeira eloquência na CNI (Confederação Nacional da Indústria), utilizando-se de palavras polidas que rasamente disfarçam os bufões antidemocráticos que já vimos ostentar em várias passagens histéricas que ele coleciona; o candidato afirmou em suas exposição que revogaria a reforma trabalhista — um dos poucos ganhos que podemos mostrar nas últimas décadas nesse país. Obviamente que foi vaiado pelo público que o ouvia, um público que não era carregado por suas retóricas apaziguadoras e nem por suas crostas disformes de uma democracia de faz de conta.

Ao perceber que não estava falando com seus mansos militantes, mas com pessoas que nutriam um senso econômico crítico e pragmático para além das falsas “autocríticas dos partidos comunistas”, o candidato se enraiveceu como de costume, e afirmou, também com sua costumeira arrogância: “É assim que vai ser: ponto final”. Ou seja, em seu governo ele irá revogar a reforma trabalhista e ponto final. Simples assim, com ou sem seu consentimento.

E esse é apenas a mais recente das pérolas de Ciro Gomes, “pérolas” que vão de descer do palanque para tentar agredir um manifestante; até denominar Fernando Holiday, um jovem deputado estadual, homossexual, negro — estava indo bem — porém, também liberal, de “capitãozinho do mato”. Todas essas sandices, obviamente, não inflaram aquelas massas policiais dos vigias politicamente corretos (PC) que estão assentados nas redações dos grandes jornais, nas cátedras das universidades e nos diretórios diversos.

Recentemente uma piada de um youtuber gerou comoção nacional e uma caça aos racistas chancelada pelos vigias da Internet. No entanto, quando um candidato à presidência e um dos políticos mais aclamados e antigos da esquerda no país chamou um jovem de “capitãozinho do mato”, tudo que se escutou da mesma patrulha “do-dicurso-que-pode” foi o silêncio dos hipócritas.

Ora, Ciro é o homem que vai “receber o juiz Sérgio Moro na bala”, entretanto vê na abertura da posse de armas de fogo pelos cidadãos brasileiros um grave retrocesso perigoso. Uma verdadeira histeria e contrassenso que faria o conto de Lewis Carroll parecer lógico e coerente.

Para um ex-professor meu, Ciro Gomes era “o único defensor da democracia social nesse país”. Entretanto, ele me parece ser apenas mais um farsante da velha-guarda política que, para conquistar uns desavisados, joga um tempero no prato de chorume e oferece como se fosse a gourmetização de uma nova democracia. Não passa, todavia, da velha política com um novo comandante; uma espécie de castilhismo de Ciro.

Assim como no conto de Alice, se trocássemos a Lebre de março pelo Leviatã de outubro — Ciro Gomes —, poderíamos facilmente reconstruir o diálogo de Lewis Carroll citado no início do texto. Esse leviatã, com boas retóricas e academicismos pululantes, por vezes até mentirosos, sempre vem nos oferecer uma “nova democracia de coalizão”, aquela que supera até as divisões de direita e esquerda. Mas quando nós, Alices que somos, olhamos para a mesa que se estende em nossa frente, aquela posta pelo próprio Leviatã de Outubro, nos perguntamos sobre a famigerada democracia, já que na mesa não há nenhuma. O memorável político, através de suas constantes intempéries e demonstrações de desiquilíbrios, se pudesse ser sincero conosco apenas diria: “é porque não há nenhuma democracia mesmo”. Ciro Gomes oferece uma democracia fantasmagórica, um espectro mentiroso que ele utiliza como véu de seu autoritarismo personalista; de democrático ele tem apenas o discurso, somente isso.

Sua democracia é o velho e já experimentado “democratismo”, aquela “democracia” dos revolucionários franceses, a que deveria acontecer a todo custo pelo simples fato de que os revolucionários assim queriam que acontecesse. A velha máxima que os soviéticos ostentavam em suas políticas sociais: “vocês serão felizes ao modo soviético, mesmo que não queiram”. A democracia de Ciro Gomes, por fim, é o epiteto requentado do velho republicanismo à brasileira; aquela república autoritária que estamos experimentando desde a sua proclamação.

Os mesmos protecionismos, as mesmas balburdias econômicas maquiadas de novas ciências, as mesmas tiranias do: “é assim que vai ser: ponto final”. Ciro Gomes chega a me lembrar Getúlio Vargas em seu personalismo autoritário, só que agora o candidato do PDT acrescenta nesse prato de autoritarismo tupiniquim uma mistura de egocentrismo, ideologia totalitária e umas pitadas de purpurinas pseudo-acadêmicas. Ou seja, o pdtista é o mais do mesmo; o velho “coroné” que faz política através da espingarda e da intimidação.

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