Aposta perdida: ONG cria jogo injusto para combater a meritocracia

A discussão a respeito da meritocracia costuma ser exaustiva, mas é elementar. Concordo que seja necessário melhorar as condições dos indivíduos para que explorem o máximo de suas potencialidades, mas há melhorias e melhorias. Apesar das injustiças – inerentes à condição humana – somos a geração mais rica de toda a História. Somos Homo Sapiens com Whatsapp. Digo isso tudo porque o G1 publicou um texto intitulado ONG cria ‘banco imobiliário’ com regras injustas para questionar meritocracia. Sinto em informar que isso mais atrapalha do que ajuda. Vejamos o porquê.

Segundo o G1, neste jogo “Alguns jogadores começam com mais dinheiro que os outros, alguns já com casas, outros ganham cartas-coringa.” Pergunto: qual a novidade? Existem fatores hereditários, genéticos etc., portanto, empenhos, oportunidades e inclinações individuais diversas. Se o filho de um rico empresário tem a sorte de nascer em “berço de ouro” por causa do esforço hercúleo do pai e o filho de um alcoólatra tem o azar de nascer numa família cuja renda é toda destinada ao boteco mais próximo, o que podemos fazer? É a contingência da vida.

Ainda conforme o G1, “As crianças, ao longo do jogo, afirmam: ‘isso não é justo’ e se perguntam: ‘por quê? por quê?’”. A resposta que a “galerinha do bem” vai dar? Por causa do “neoliberalismo”, do capitalismo, dos Estados Unidos e blá blá blá. Em suma, a conclusão dessa turma acabará na velha luta entre mocinhos e vilões. Será necessário culpar alguém. Iniciativas como esta colaboram mais para a revolta – e para uma provável adesão ideológica – do que para a solução de qualquer coisa.

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É evidente que a competição nem sempre é justa. Mas quem disse que o jogo da vida é justo? Diante disso, há três opções: 1) a resignação; 2) a revolta contra a Criação; 3) tentar implantar o socialismo – que definitivamente é a pior delas, pois anula a rica diversidade humana. Se a meritocracia não é justa, o problema não é a meritocracia per se, mas a dinâmica da vida. Portanto, revoltar-se contra a Criação faria mais sentido do que revoltar-se contra os ricos “malvadões”.

Se “O objetivo [do jogo] era mostrar que fatores como ambiente social, nível de vida, cor da pele, deficiência ou sexo pesam na hora de ganhar o jogo da vida”, a ONG Observatoire des Inegalités deveria aponta uma solução. Gostaria de saber qual seria…

Gostando você ou não, a competitividade é natural. Discutir se ela é justa ou não é adentrar em outro universo – embora a resposta seja óbvia. Não, leitor, não sou um darwinista social, mesmo porque temos ferramentas suficientes para tentar melhorar nossas condições. Por isso meu ceticismo incorrigível me aponta o liberalismo, que é a única concepção que permite que os indivíduos explorem suas potencialidades de forma autônoma sem apelar para a tutela do Estado que se propõe a “fazer o bem”.

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Se nós temos problemas com a livre iniciativa, pior sem ela. A supressão dessa liberdade é um crime contra a humanidade. A extinção da liberdade individual em nome de um “bem maior” – leia-se sede de poder – não deve ser incentivada. Se o ser humano é corruptível mesmo sob excelentes condições, ele o será ainda mais quando preso a um sistema que reduz sua capacidade de autonomia, haja vista o lastimável exemplo venezuelano. Por isso a metafísica do Estado salvacionista não deve ser encorajada sob nenhuma hipótese.

Retomando o que falei no início, é por isso que acredito que o jogo criado pela ONG mais prejudica do que auxilia. Neste “jogo injusto” criado pelo Observatoire des Inegalités e que visa excitar os ânimos dos jovens a fim de “combater a meritocracia”, o Estado e as ideologias totalitárias sempre serão os vencedores. Por conseguinte, para o coletivo sair ganhando, a saída mais segura é fomentar o desenvolvimento individual, pois o contrário, que é a propaganda coletivista, não pode beneficiar o indivíduo.

O jogo da vida nunca foi justo. Qual a novidade? Ou melhor, qual a solução? E ainda: ela existe? Tudo indica que não. Mas de uma coisa eu tenho certeza: a saída não está à esquerda, que joga jogos abstratos programados por ideólogos.

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Finalmente, a ONG faz a pergunta: “nós queremos realmente que a vida seja um jogo de tabuleiro em que todos começam com as mesmas chances e os melhores vencem?” Seria bom, mas não é assim. Todo mundo gostaria de nascer rico; muitos gostariam de ter nascido na Dinamarca; ninguém gostaria de morrer de câncer; ninguém gosta de perder os pais etc. Gostaríamos de muita coisa, mas…. c’est la vie!

Dito isso, termino com uma frase do filósofo romeno Émil Cioran que diz muito sobre o ressentimento e a liberdade: “Nous pardonnons aux autres leurs richesses si, en échange, ils nous laissent la latitude de mourir de faim à notre façon.” [Perdoamos aos outros a sua riqueza se, em troca, eles nos deixem morrer de fome à nossa maneira].

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