A visão de um estudante conservador sobre o possível corte de verbas nas ciências humanas

Estou no último ano de Filosofia. A orientação político-filosófica por que tenho maior apreço remete ao conservadorismo e ao livre mercado. É o que comumente Luiz Felipe Pondé em suas conferências chama de liberal-conservative. Acrescentaria ainda que o filtro desta minha orientação firma-se na visão cristã de mundo. Diante disso, talvez você esteja se perguntando: como é que eu sobrevivo na academia?

Bem, sobreviver na academia tendo um pensamento antitético ao pensamento vigente, sobretudo, na área de Humanas, é difícil, mas não impossível. É bem verdade que o caminho para prosseguir na academia em termos de admissão em grupos de pesquisa, participação em CA’s e agremiações estudantis (não que eu queira participar), bolsas de pós-graduação, etc., certamente, é mais difícil (você não é bem-vindo em qualquer grupo).

Conforme grandes intelectuais têm apontado, a Universidade vem tomando rumos totalmente opostos aos que foram traçados desde a sua concepção. Logo de cara, no livro Radicais nas Universidades de Roger Kimball, John Searle, filósofo americano que, inclusive, esteve na Unicamp em 1981, escreveu acerca da perversão do ideal da universidade: “A ideia de que o currículo deva ser alterado de acordo com qualquer propósito partidário é uma perversão do ideal da universidade. O objetivo de converter o currículo em um instrumento de transformação social (de esquerda, direita, centro ou o que seja) é o exato oposto do ensino superior”.

As ações da universidade na atualidade gravitam em torno dessa tal de transformação social. Esse espírito revolucionário, explícito em alguns casos, implícito em outros, encanta a cabeça dos jovens universitários, sendo uma espécie de fio condutor dos cursos de Humanas. O objetivo da universidade, nesse caso, remete à transformação pela educação do status quo de opressão que, para muitos da área de Humanidades, é visto por todos os lados.

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A consequência direta desse modo de conceber e atuar na educação superior são os trabalhos produzidos por alunos e professores. Ideias como lutar por algum tipo de libertação política, social ou econômica, além da necessidade de se estabelecerem personagens antitéticos opressores como alvos a serem abatidos, permeiam o imaginário de grande parte desta juventude universitária. O legado de Marx sobre a contradição das classes, calcada no conceito de infraestrutura (econômica), demoveu-se para a contradição em termos de superestrutura (religião, política, moralidade, etc.) desembocando para o que hoje se conhece por políticas de identidade.

A despeito disso, registro que ainda há professores e alunos nas universidades, ainda que não sejam a maioria, preocupados e ocupados com a vida intelectual que resulta em sólido progresso científico assentado na realidade das ações e relações humanas. Infelizmente, essa minoria tem sido colocada, pelo governo do atual Presidente, em um pacotão com todos os outros professores e alunos que se ocupam do exercício acadêmico, prioritariamente, enquanto transformação social. Esse modo de olhar para as universidades, em especial, à área de Humanas das universidades públicas – com seus “espaços e ensinos inusitados” – culminou no alerta sobre os investimentos públicos nessa área e, obviamente, que resultados esses investimentos têm trazido para o progresso e elevação do Brasil no cenário científico mundial.

A conclusão a que se tem chegado sobre os ganhos efetivos que, em alguma medida, melhoram o cotidiano do povo brasileiro, bem como do destaque do Brasil no cenário mundial, não tem sido das melhores. O resultado? Anúncio do corte de verbas na área de Humanidades, descentralização de investimentos e realocação de recursos para outras áreas “mais importantes”. Vale ressaltar que a educação sofreu perdas bilionárias no governo Dilma por ineficiências e cortes deliberados, além do analfabetismo “bater no teto” entre os anos de 2013 e 2016 em, pelo menos seis estados brasileiros – e não vimos tanto alarde pelos mesmos que hoje maximizam qualquer “deslize” do governo nesta área.

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Dito isso, endosso a afirmação de que o corte deliberado de verbas das Humanas não seja a medida mais inteligente a ser tomada, do ponto de vista estritamente educacional, isto é, não levando em conta as questões de contingenciamento e ajustes fiscais associados à reforma da Previdência.

O filósofo Olavo de Carvalho alguns anos atrás e, recentemente, o filósofo Luiz Felipe Pondé sinalizaram para a necessidade de extinção do MEC. Talvez essa medida drástica, deixando o ensino a cargo dos estados e municípios, traga mais problemas que soluções caso algum dia venha a ser implementada. O que quero dizer com isso é que o problema da educação, provavelmente, mais do que o problema da economia, é uma “batata-quente” difícil de ser dominada. Isso ocorre porque o que está em jogo é o ideal de homem a ser formado pelo Estado que se utiliza da academia para atingir o telos (propósito, finalidade) que melhor se adequa a sua visão de mundo. Esse é o ponto.

A celeuma que se tem armado em torno do Ministério da Educação é resultado de um conflito de cosmovisões. O ideal de homem que os progressistas tentavam buscar (transformar) nos governos anteriores é totalmente diferente do ideal de homem que conservadores e liberais buscam a partir do governo recém-eleito. Logo, o desafio hercúleo que o atual governo tem encarado se traduz no choque com uma cosmovisão progressista maciçamente hegemônica em toda a academia brasileira.

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Assim, enquanto estudante de Filosofia de uma grande universidade católica, concluo dizendo que, em função do anúncio do corte de verbas (ainda não efetivado e espero que não seja!), sinto na pele a possibilidade de maiores obstáculos para a tentativa de bolsas e subsídios educacionais, além de me solidarizar com professores e alunos que buscam fazer ciência com a menor afetação possível do terrível pathos (paixão) ideológico.

Por outro lado, enquanto o paradigma do ensino nas escolas e universidades estiver focado na transformação social, mais do que na construção de bases intelectuais necessárias ao alcance de conhecimentos mais complexos – amparados em uma clara visão da realidade e da natureza humana –, continuaremos com resultados pífios que pouco contribuem para o cotidiano do povo brasileiro.

Portanto, todas essas tensões remetem a um problema altamente complexo: como mudar esse paradigma em um sistema educacional cuja maioria dos seus integrantes não reconhece a necessidade dessa mudança? Responder a esse problema de forma imediata, satisfatória e concreta me parece ser o caminho para sairmos de vez desse confuso emaranhado em que se encontra a educação brasileira.

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