A Rebelião das Mulheres no Irã

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Nesta terça-feira, 12/01, notícias internacionais apontam números assustadores de vítimas assassinadas pelo regime dos aiatolás no Irã. Estimativas mais recentes apontam para mais de 12.000 mortos e mencionam o banho de sangue como o “maior massacre da história contemporânea do Irã”. Segundo a BBC, um informante em Teerã disse que a situação parece uma zona de guerra e que as ruas estão cheias de sangue, com corpos sendo levados em caminhões. Rubina Aminian, uma estudante de 23 anos de Teerã, tornou-se o rosto dos protestos após supostamente ter sido baleada à queima-roupa, na nuca. Há relatos de que soldados estão bloqueando cidades inteiras e operando com a política de atirar para matar, enquanto grupos de direitos humanos estimam que mais de 10.600 pessoas foram detidas nas últimas duas semanas. Um vídeo de outra jovem iraniana viralizou nas redes sociais, em que ela acende um cigarro ao queimar uma foto do aiatolá Khamenei, líder supremo do regime iraniano. Gesto de suprema rebeldia, que ela sabe ser punível com pena de morte. Garota de coragem! São predominantemente as jovens iranianas que se rebelam contra o regime islâmico, que oprime, em particular, as mulheres. Elas estão arriscando suas próprias vidas para conquistar a liberdade de não usar o hijab, de se vestir como quiserem, de falar abertamente sobre o que acreditam ser importante. Bravas mulheres!

Quando um governo mata sua própria população, chama-se democídio. Regimes autoritários costumam praticar democídio; alguns dos mais conhecidos democidas são figuras como Stalin, Mao, Pol Pot, Hitler e, para citar alguns latino-americanos, Pinochet e Fidel Castro[1]. O atual regime dos aiatolás no Irã pratica democídio desde sua origem na revolução iraniana de 1979, quando milhares de pessoas foram sumariamente executadas. A maior parte delas eram militantes de partidos políticos de esquerda que apoiaram a revolução e membros de minorias religiosas. A coligação da extrema esquerda com o extremismo islâmico é ainda mais antiga. O famoso economista britânico John Maynard Keynes escreveu no início do século passado que a Europa passava por um surto de atentados terroristas perpetrados por marxistas e jihadistas, que nutriam um declarado desprezo pelo Ocidente.

Para entender o que as jovens iranianas pensam a respeito do que acontece em seu país, nada melhor do que reproduzir aqui o depoimento de uma delas, publicado originalmente nas redes sociais:

“Olá, eu sou iraniana. Todo mundo continua fazendo a mesma pergunta repetidamente: o que há de errado com os esquerdistas? Por que eles são tão barulhentos, por que apoiam a Faixa de Gaza, mas permanecem completamente em silêncio quando se trata do Irã? A resposta é simples: porque a verdade expõe a mentira. Porque reconhecer o Irã destrói a fantasia ideológica que eles construíram. Para que fique claro: a República Islâmica do Irã não é vítima do imperialismo ocidental. Trata-se de um regime teocrático autoritário que se sustenta exportando violência, financiando grupos islamistas e reprimindo seu próprio povo. Sim, financia o Hamas. Financia o Hezbollah. Todos esses pequenos grupos paramilitares na região e no mundo são financiados com dinheiro iraniano — não dinheiro do governo ou do regime, mas fundos roubados: dinheiro tirado de trabalhadores, que hoje no Irã não conseguem nem comprar pão; de famílias destruídas pela inflação; de mulheres que são espancadas, presas, torturadas e estupradas por se recusarem à submissão religiosa. E é exatamente por isso que os esquerdistas se calam: porque o Hamas alimenta a narrativa deles, mas o povo iraniano não. Porque a violência islâmica contra israelenses pode ser transformada em “resistência”, mas a violência islâmica contra iranianos revela a verdade. Neste exato momento, enquanto você lê isto, o Irã — um país com mais de 92 milhões de habitantes — está sendo destruído em tempo real. Quase um apagão total por mais de 24 horas: sem internet, sem conexão telefônica, sem qualquer comunicação. Nada de “protestos urgentes” em universidades ocidentais, nada de hashtags, nada de declarações de solidariedade, nada de megafones. Porque o sofrimento dos iranianos não se encaixa na agenda deles. Porque os movimentos de esquerda modernos já não são impulsionados pelos direitos humanos — são impulsionados pela indignação seletiva e pela lealdade ideológica. Eles vão reclamar de censura — a menos que ela seja feita por um regime islâmico. Eles condenarão a violência estatal com toda a veemência — mas jamais dirão uma palavra se essa violência estiver envolta em linguagem religiosa. Eles entoam “Palestina Livre”, mas jamais dirão “Irã Livre”, porque isso exigiria uma admissão difícil: que o islamismo político não é libertação — é dominação. E, aliás, isso também está acontecendo no Ocidente hoje em dia. A República Islâmica não é anti-imperialista; é imperialista em relação ao seu próprio povo. O Hamas não é um grupo de resistência isolado; faz parte de um ecossistema islâmico mais amplo, financiado, treinado e apoiado por regimes como o da República Islâmica do Irã. Eis a parte que eles não querem ouvir: Não se pode reivindicar superioridade moral enquanto se justifica um regime que mata mulheres e as pune por se recusarem a usar o hijab, mata manifestantes, corta a internet de uma nação de 92 milhões de habitantes e usa grupos estrangeiros para encobrir seu próprio colapso interno. Não se pode fingir que se importa com os palestinos enquanto se ignoram os iranianos baleados, torturados e mortos pela República Islâmica. Isso não é solidariedade — é cegueira ideológica. O povo iraniano não está em silêncio — está sendo forçado ao silêncio. O silêncio dos esquerdistas ocidentais é uma escolha deles: a escolha de defender uma ideologia, justificar o islamismo e fechar os olhos ao sofrimento de milhões, porque a dor do povo iraniano complica o discurso. A história se lembrará deste momento. Vai lembrar quem falou em liberdade universal e quem decidiu que algumas vidas são menos importantes do que preservar uma narrativa. Viva o Irã.”

Em meio à barbárie de um Estado que não hesita em matar para preservar o poder, a coragem das mulheres iranianas se impõe como um dos testemunhos morais mais elevados do nosso tempo. Ao desafiarem um regime que pode executá-las sumariamente por um fio de cabelo à mostra, por um gesto de desobediência ou por uma palavra de liberdade, elas afirmam, com o próprio corpo, um princípio fundamental do liberalismo clássico: o indivíduo não pertence ao Estado, nem à religião, nem a qualquer projeto coletivo imposto pela força. A luta dessas mulheres não é por privilégios, mas pelo direito elementar de serem donas de si mesmas — de escolher como viver, vestir-se, pensar e falar. É justamente por isso que sua rebelião transcende fronteiras e ideologias: porque lembra ao mundo que a liberdade individual é um valor universal, conquistado sempre a um custo alto, mas que jamais pode ser negociado sem que se perca, junto com ela, a própria dignidade humana.

[1] Quem tiver interesse em investigar as diferenças entre liberdade, democracia e paz, por um lado, e poder, democídio e guerra, por outro, além de conhecer a contabilidade macabra dos maiores democidas da história, o site www.hawaii.edu/powerkills é parada obrigatória.

Este artigo foi originalmente publicado no Portal Mulher.

*Ronald Hillbretch tem graduação em Economia pela FURJ (Joinville – SC), mestrado em Economia pela USP e Ph.D. pela University of Illinois (EUA). Atua como professor titular na Faculdade de Ciências Econômicas (FCE) da UFRGS e membro fundador e ex-presidente do IDERS, Instituto de Direito e Economia do RS.

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