A pedagogia dos intocáveis

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Durante muito tempo repetiu-se, quase como uma questão de fé cívica, que a Justiça era cega. No Brasil, porém, a imagem foi discretamente atualizada. O que se vê — e o que não se vê — é que a Justiça vê muito bem, distinguindo quem pode de quem não pode e, quando convém, negociando com a serenidade de quem sabe que não será incomodado factualmente.

Fala-se em ditadura da toga; o rótulo seduz, mas acaba empobrecendo o fenômeno. Ditaduras supõem choque, resistência, atrito explícito entre quem manda e quem obedece. O que se consolidou no país é mais sofisticado e, por isso mesmo, mais eficaz. Existe um arranjo em que o poder judicial já não precisa se impor, porque os demais poderes aprenderam a recuar antes do confronto, a ler sinais, a respeitar limites implícitos. Não há conflito aberto, mas o que se configurou foi um adestramento institucional.

O Supremo não governa apenas por decisões. Governa por exemplo. Ensina, com paciência quase didática, que a lei não é fronteira, mas ferramenta, e que princípios comportam elasticidade moral. A sagrada Constituição funciona menos como pacto vinculante e mais como repertório retórico.

Nessa república das bananas, aprende-se rápido que a regra vale para os distraídos; a exceção é prêmio para os bem relacionados. Eis a verdadeira inovação brasileira: a conquista da elevação da exceção à condição de norma pedagógica, transmitida sem alarde, mas com eficácia exemplar.

O Legislativo, que deveria encarnar a soberania popular, assimilou a lição não por corrupção vulgar, mas por cálculo frio de autopreservação. Legislar tornou-se atividade de risco. Mais ainda: reformar leis, impor freios, restabelecer limites, tudo pode ser reclassificado amanhã como desvio moral, ameaça institucional ou ataque abstrato à democracia. O Parlamento reage como todo organismo acuado, reduzindo movimentos, economizando energia e convertendo a omissão em estratégia de sobrevivência.

Nesse silêncio cuidadosamente cultivado, o Judiciário prospera. Não como árbitro, mas como vitrine de sucesso institucional. Demonstra, de forma bizarra, que poder sem vigilância não precisa se esconder; basta invocar valores elevados.

Pratica-se o velho novo sermão da “democracia, estabilidade, civilização”, enquanto o jogo real acontece em outra camada, distante do escrutínio e perigosamente próxima das conveniências.
O recado transmitido à sociedade é claro e corrosivo. A Justiça não combate a maracutaia; ela a profissionaliza. O velho jeitinho nacional sobe de patamar, ganha linguagem técnica, rito solene e aparência de virtude. A moral pública deixa de orientar comportamentos, passando a servir como ornamento discursivo.

O impacto econômico é imediato. Países não se arruínam proibindo investimentos, mas ensinando que nada é previsível. Investidores não discutem narrativas morais; calculam risco. Quando a lei depende menos do texto e mais do intérprete, o cálculo morre, morrendo com ele o futuro verde-amarelo.

Socialmente, a lição tupiniquim é ainda mais perversa. O incentivo perverso do aprendizado de que não existe certo ou errado, apenas forte e fraco; não existe legal ou ilegal, apenas protegido e exposto. Forma-se uma sociedade cínica, silenciosa, defensiva, não por convicção, mas por adaptação – e muita gente, da elite ao povaréu, chama isso de Estado de Direito. Claro, sem dúvida…

Não, claro que não. É apenas o país de Gerson com toga, juridiquês e carimbo atualizado. Pois os intocáveis não fogem mais. Eles se sentam na cátedra, distribuem lições de moral e exigem silêncio absoluto. Pior, eles ainda passam a lista de presença para garantir que todos aprenderam quem manda.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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