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A necrofilia política

Passamos a famigerada marca dos 100 mil mortos pela COVID no Brasil, e é óbvio, não demorou nada para que os abutres políticos determinassem ― com uma certeza cartesiana ― que quem matou a todos foi o Bolsonaro, e não o vírus. Discorda para ver se vocês não se tornam instantaneamente fascistas/nazistas e co-responsáveis por uns 6,5 milhões de mortos no século passado…

Caso tenham ao seu favor a razoabilidade de não construírem análises com o fígado, mas sim com a razão, aí então nem precisarei me aprofundar muito na crítica às tacanhas mentes que abraçam e reproduzem tais discursos; mas ainda assim, como é de praxe, gostaria de deixar meu toco de lenha nessa fogueira, de encostar por querer meu dedo na ferida hipócrita de nosso mainstream. Então permitam-me provocá-los.

Sinceramente, não sei ao certo se já temos elementos suficientes para determinar “O culpado” por esse ano demoníaco; mas será mesmo que o culpado deste pré-apocalipse é o presidente Jair Bolsonaro? Ou seria a China, que deixou o vírus passear livremente por seu país por várias semanas, e ainda encobriu o quanto pôde a real seriedade do caso diante da comunidade médica mundial?

Será que a Culpa é Bolsonaro, ou da OMS que conseguiu a prodigalidade de demorar mais que a China para emitir o alerta de pandemia? Organização que conseguiu errar dantescamente nos primeiros diagnósticos; que determinou vias médicas e de prevenção contraditórias; que divulgou mundialmente um estudo mentiroso sobre um medicamento que, em vários lugares do mundo, está sendo utilizado com eficiência; se afeiçoou  China nos erros desse país, mesmo após esse mesmo país admitir que mentiu ao mundo inteiro, aliás: mesmo sabendo que o partido comunista chinês sumiu com os médicos-heróis que tentaram alertar ao mundo da seriedade do que estava acontecendo. Uma Organização Mundial da Saúde que se cala feito “mulher de bandido” ante à violência estatal contra médicos.

Será que a Culpa é do Bolsonaro ou dos médicos e autoridades, incluindo aqui o ex-ministro Mandetta, que mandou a população ficar em casa caso fosse contaminada, e só recorressem ao atendimento médico após o caso ter avançado ao ponto de quase-óbito; sabendo, no entanto, que existiam evidências ao redor do mundo que apontavam para aqueles que haviam se tratado desde o início da infecção, indivíduos que na grande maioria dos casos sobreviveram sem sofrerem maiores sequelas? Cabe salientar que, desde o início, imprudente ou não, Bolsonaro defendeu o tratamento prévio dos infectados.

Não estou abonando as parcelas de culpa que Bolsonaro porventura pode ostentar nesse ano cabuloso; quem não se lembra daquele pronunciamento patético para falar de sua condição física de ex-atleta? Dos bate-bocas infantis com jornalistas e demais políticos… Sempre afirmei que a postura de cruzado ideológico que Bolsonaro assumiu mais fortemente desde a vitória nas eleições poderia ser a lacuna onde cairia seu prestígio ante a comunidade mundial; mas disso, até colocar as 100 mil mortes no colo do presidente, há uma distância estelar a ser considerada. Ainda mais se considerarmos que o STF, em uma de suas epifanias de momento, diminuiu bastante as ações efetivas do Governo Federal contra o vírus no âmbito dos estados e municípios da federação, legando assim aos governadores e prefeitos os ônus e bônus ante as ações públicas contra a COVID. Cabe salientar, caso queiramos colocar a culpa nas políticas do Governo Federal, por ocasião das 100 mil mortes, teremos que depositar nessa conta também os mais de 2 milhões de pessoas recuperadas da infecção. Ou só vale quando são malefícios?

Chamar o presidente de genocida, quando quase todas as ações contra o vírus da COVID foram determinadas a partir do âmbito estadual e municipal, é o puro mau caratismo “do milho verde”. Primeiro ignoraram 99% das propostas de ações apoiadas pelo Governo Federal, depois surgem como múmias carcomidas para dizer que os 100 mil mortos são culpa direta do Presidente ― que, repito, teve praticamente todas as suas medidas ignoradas. É ou não é esquizofrênico?

Cada vida é um absoluto, não há como mensurar filosoficamente o peso de uma vida perdida, e por isso que esse texto não tem a mínima pretensão de ser balança de análise da evidente tragédia que há em 100 mil mortes. O que debato aqui são os palanques políticos e as faces hipócritas que hoje sobem chorosas nos caixões dos indivíduos vitimados. Assim como os sacerdotes de Jerusalém, que outrora rasgavam as vestes e cobriam-se de cinzas em público, para mostrar o quão piedosos eram, hoje nossos sacerdotes do mainstream choram nos stories do Instagram, lacram nos telejornais e postam imagens com frases de efeito para provarem ao mundo o quanto são humanitários. Dividem-se entre comemorar os defuntos que pesam contra Bolsonaro e os lamentos lacradores pelos mortos; um paradoxo demoníaco que só pode fazer sentido na cabeça dos consequencialistas.

Pois bem, daqui do meu cantão filosófico, esses discursinhos empapados de formol e naftalina, essas perlas populistas e sentimentais, com todo respeito às vítimas e suas famílias, me parecem muito mais politicagem vadia do que luto. Parece-me que, para muitos, o cemitério cheio é o principal cabo eleitoral; há, por mais asqueroso e nojento que soe ler isso, pessoas que ficam politicamente excitadas com o número de mortos crescente. Isso mesmo, humanistas que sensualizam seus argumentos necrófilos como se fossem espadas morais em prol de um mundo melhor. Poucas coisas são tão baixas quanto usar a morte como trampolim eleitoral e alavanca política; soa tão pitoresco quanto ver uma prostituta ensinando a beleza da castidade.

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.