A “lógica” que precisa fracassar
Há um erro recorrente na crítica à esquerda de raízes marxistas, ou seja, tratá-la como um conjunto de políticas que fracassaram por incompetência ou má execução. Essa leitura é confortável, mas superficial.
O problema não está na ausência de lógica, mas na fidelidade absoluta a uma “lógica” que se fecha sobre si mesma e rejeita qualquer correção vinda da realidade. Trata-se de um sistema que se apresenta como cognitivamente coerente e moralmente bem-intencionado, mas que se sustenta sobre uma visão idealizada da natureza humana, ancorada no bom senso moralizante e deliberadamente desvinculada do mundo como ele é — não como deveria ser.
Essa premissa raramente é explicitada, mas organiza todo o edifício. O indivíduo não é plenamente responsável por si; é visto como produto do meio, da estrutura, das circunstâncias históricas. Quando algo dá errado, a causa é sempre externa. A responsabilidade pessoal deixa de ser um valor civilizatório e passa a ser tratada como imposição moral indevida.
A consequência é inevitável, pois, se ninguém responde por si, alguém precisa responder por todos. O Estado deixa de ser instrumento administrativo e assume a forma de um Pai Leviatã, investido da autoridade moral de decidir o que os indivíduos devem querer, fazer e aceitar.
Dentro dessa “lógica” autorreferente, corrupção, aparelhamento e captura de recursos não surgem como desvios ocasionais, mas como consequências previsíveis. Quando a criação individual de riqueza é tratada como moralmente suspeita, sua apropriação pelo poder político passa a ser racionalizada como correção de uma injustiça original. O discurso se eleva moralmente porque a prática não se sustenta segundo critérios éticos ordinários. A coerência interna do sistema exige essa dissociação permanente entre intenção declarada e resultado concreto.
Forma-se, assim, uma camada dirigente que não se legitima por mérito, virtude ou responsabilidade, mas pela capacidade de organizar ressentimentos e administrar culpas. Não se trata de uma elite no sentido clássico, mas de uma deselite. Sua sobrevivência depende de desacreditar tudo o que possa dispensar sua mediação. O mérito precisa ser relativizado, o sucesso individual moralmente suspeito e a autonomia percebida como ameaça. A pobreza deixa de ser um problema a ser superado e passa a ser um recurso político a ser administrado. Não por acaso, após mais de quinze anos de governos petistas, os pobres continuam pobres, enquanto a retórica permanece a mesma; retirá-los da pobreza, como se ela fosse sempre um ponto de partida e jamais um estado que o próprio sistema se dispõe a encerrar.
É nesse ponto que a economia entra, não como ciência empírica, mas como obstáculo moral. Disciplina fiscal, dentro dessa “lógica”, não é virtude administrativa, mas sinal de insensibilidade social. Limites orçamentários implicam escolha, renúncia e responsabilidade, conceitos rejeitados por um sistema que transforma gasto público em prova de virtude. Quando os recursos se esgotam, não se questiona o tamanho do Estado, mas a suposta insuficiência da arrecadação.
A criação recorrente de novos impostos, como se vê no governo de Da Silva, não é um excesso episódico, mas expressão natural desse impulso. Produzir passa a ser visto com desconfiança, poupar como egoísmo e investir como privilégio. Tributar quem produz deixa de ser meio para financiar serviços essenciais e se transforma em instrumento pedagógico de poder.
As consequências são conhecidas, ou seja, retração do investimento, queda de produtividade, redução da produção e aumento generalizado de preços. Não por abstrações ideológicas, mas porque a realidade insiste em cobrar a conta.
O governo não cria riqueza; apenas redistribui aquilo que foi gerado fora dele, sempre com perdas. Ao tributar e gastar, substitui escolhas individuais por decisões políticas. A economia deixa de ser coordenação voluntária e passa a funcionar como sistema de obediência fiscal, no qual a proximidade com o poder vale mais do que eficiência ou inovação. Por isso, à luz da lógica, da razão, do conhecimento acumulado e da experiência histórica concreta, esse projeto não poderia dar certo. Não deu, não dá e não dará em lugar algum, porque se funda não no mundo como ele é, mas na insistência em negar a própria realidade.



