A doce ilusão de ser protegido

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Esta semana, travei um embate intelectual com um grande amigo – daqueles que não se curvam a respostas prontas – que me enviou um vídeo de Guilherme Boulos defendendo a regulação do Uber. Ele estava genuinamente tocado pelas “senhas mágicas” de justiça social, proteção ao trabalhador, a “urgência” de impor limites a uma relação tida como desigual. Havia convicção, sensibilidade e aquela certeza moral que costuma escoltar ideias que se pretendem inevitáveis.

E é justamente aí que reside o perigo. Essas ideias não avançam pela força bruta; elas seduzem pelo conforto. Chegam revestidas de cuidado, sustentadas por uma promessa simples: a de que alguém pode desenhar a realidade melhor do que aqueles que nela vivem. Sem alarde, essa promessa desloca o eixo da decisão, retirando-o do indivíduo e entregando-o a uma autoridade que se arroga o direito de corrigir o que sequer compreende.

O motorista de aplicativo, contudo, não é um refém. Ele escolhe entrar, permanecer ou sair; calibra jornadas, alterna plataformas e ajusta sua própria dinâmica conforme seus interesses.
É uma relação imperfeita, como todas, mas erguida sobre um alicerce que os reguladores preferem ignorar: a liberdade de escolha. Essa liberdade, porém, não se encaixa na narrativa. Quando algo não se encaixa, ele não é aceito, é reinterpretado.

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A escolha se transforma em falta de alternativa, o acordo passa a carregar suspeita, e a autonomia vai sendo lentamente tratada como um problema a ser corrigido. Não porque a realidade imponha isso, mas porque a história precisa fechar. Consolidado o pretexto, a solução é apresentada como inevitável. Regulamentar, limitar, engessar, como se a realidade obedecesse a normas editadas à distância.

No entanto, o que funciona não se origina de decretos, mas da interação contínua entre indivíduos que testam, ajustam e corrigem seus próprios arranjos. Se prospera, é porque serve; se não serve, é abandonado. Ao assumir que sabe mais, o Estado não apenas regula; ele substitui. Impõe uma lógica única a realidades plurais, comprimindo escolhas em um modelo padronizado que ignora contextos e preferências. No lugar da negociação, surge a obrigação; no lugar da adaptação, instala-se a rigidez; no lugar da liberdade, expande-se a burocracia.

Tudo isso, é claro, em nome do bem. Mas há um custo silencioso. Cada intervenção elimina mais do que corrige, cada regra restringe mais do que organiza, e cada “proteção” reduz a margem de escolha daqueles que supostamente deveriam ser protegidos. O Estado não protege o indivíduo da incerteza; ele o protege da própria liberdade, pois, quando a liberdade passa a ser tratada como risco, algo mais profundo se altera, fazendo com que as pessoas deixem de decidir por si mesmas e passem, aos poucos, a aceitar que decidam por elas. Pior, passam a viver como se isso fosse normal.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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