Por que 1776 ainda humilha o presente?
Quem me conhece, quem acompanha meus textos e reflexões ao longo do tempo, sabe da minha admiração quase reverencial pelo maior de todos: Adam Smith. Não se trata apenas de respeito intelectual. Trata-se da convicção de que poucas mentes compreenderam tão profundamente a natureza da prosperidade humana quanto aquele filósofo escocês do século XVIII.
Em 9 de março de 2026, completaram-se exatos 250 anos da publicação de A Riqueza das Nações (1776). Mas não estamos aqui para lustrar um busto de mármore. Precisamos urgentemente resgatar uma “arma”. Em uma era em que o profundo intervencionismo estatal é requentado e servido como “panaceia civilizatória”, a voz de Smith ressoa não como um eco do passado, mas como um insulto à arrogância dos planejadores centrais, os coletivistas de hoje.
Smith foi o primeiro a desmascarar o “homem do sistema”, esse arquétipo eterno do burocrata que, do alto de sua pretensa iluminação, acredita que pode mover indivíduos como peças inertes em um tabuleiro de xadrez. O que vemos ao nosso redor é, funestamente, a antítese de Smith. Tem-se um emaranhado de privilégios onde grupos de pressão capturam o Estado para sufocar a concorrência sob o manto de um “protecionismo salvador”. É o triunfo do compadrio, de relações promíscuas, sobre a competência.
A genialidade de Smith foi admitir o óbvio que o poder insiste em esconder. A prosperidade não é um decreto de cima para baixo; é uma emergência. Ela brota da liberdade do padeiro, do cervejeiro e do açougueiro de perseguirem seus próprios interesses. Essa “mão invisível” é a mais sofisticada rede de cooperação voluntária já descrita. Ao buscar o seu melhor, o indivíduo é compelido pela mecânica das trocas a ser útil ao próximo. Você não janta pela caridade do produtor, mas porque a liberdade dele em buscar o próprio sustento o obriga a servir à sua necessidade.
Smith fulminou as barreiras comerciais e o intervencionismo não por preciosismo técnico, mas por rigor moral. Ele sabia que cada tarifa “protetora” é, na prática, um imposto sobre o cidadão para subsidiar o barão industrial bem conectado. É uma transferência de riqueza da liberdade para o privilégio oficial.
Contudo, o edifício smithiano só para de pé por causa de sua fundação: Teoria dos Sentimentos Morais (1759). O mercado não é um vácuo ético, mas um ecossistema de confiança. Sem o “espectador imparcial” que nos governa internamente, a liberdade vira pilhagem.
Dois séculos e meio depois, a lição magna permanece, ou seja, a de que o Estado que se arroga o direito de planejar a vida dos indivíduos acaba apenas distribuindo a miséria comum. Adam Smith continua sendo o único antídoto real contra a engenharia social.
É 2026 e precisamos, cada vez mais, de Smith e das liberdades econômicas e individuais e, claramente, de muito menos “progressismo do atraso”. A liberdade não precisa de tutores, apenas de espaço para respirar. Ao cabo, tudo o mais é ruído; o barulho de quem teme perder o controle da narrativa e o poder de sedução das velhas “novas” ilusões.



