Entre a razão e a indignação

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Há acontecimentos que ultrapassam o nosso treino de analisar os fatos com racionalidade. Não se trata apenas da conhecida supremacia das emoções sobre a razão; quando as nossas paixões são diretamente ameaçadas, a racionalidade tende a ocupar um papel secundário.

A recente ameaça de Donald Trump de anexar a Groenlândia — “pelo caminho fácil ou pelo difícil” — viola frontalmente a soberania de um aliado histórico como a Dinamarca e fere princípios elementares do convívio entre nações civilizadas. Trata-se de uma declaração que causa perplexidade e indignação em qualquer pessoa que ainda leve a sério o direito internacional e a ética diplomática.

No meu caso, a reação não é apenas política, mas também pessoal. Tenho laços familiares profundos com a Dinamarca. A mãe dos meus filhos é filha de dinamarqueses, e parte da nossa família vive naquele país. As frequentes visitas ao longo dos anos consolidaram em mim uma admiração sincera pela cultura escandinava.

Nem o clima rigoroso diminui o encanto da civilidade, das lindas cidades, da culinária refinada, do elevado nível educacional da população e da divina beleza das mulheres. O que mais impressiona, no entanto, é a honestidade cotidiana, incorporada de forma quase natural ao modo de viver do povo dinamarquês.

Meu sogro, após décadas vivendo no Brasil, jamais conseguiu compreender o que aqui se convencionou chamar de “flexibilidade moral”. Morreu sem entender como alguém poderia tentar se aproveitar do outro. A chamada “Lei de Gérson” simplesmente não encontra abrigo na Dinamarca.

Guardo um episódio emblemático dessa retidão moral. Ao comprar um canivete, o vendedor pediu um preço inferior ao que ele havia visto no dia anterior em outra loja. Sua reação imediata foi questionar se aquele valor estava correto, pois não desejava se beneficiar de um possível erro. O que, a muitos, poderia parecer ingenuidade, para ele, era apenas a obrigação ética de não tirar vantagem indevida.

Não por acaso, a Dinamarca figura consistentemente no primeiro lugar entre os países mais bem colocados no Índice de Percepção da Corrupção (CPI), publicado anualmente pela Transparency International, sendo reconhecida mundialmente pela integridade de suas instituições públicas. Na Dinamarca, até mesmo o welfare state funciona como deveria: o abuso de benefícios sociais é moralmente reprovado pela própria sociedade. Diante disso, soa quase ofensiva qualquer tentativa de equiparar a organização política, econômica e institucional dinamarquesa à de países marcados por fragilidades estruturais e tolerância histórica com desvios éticos.

A honestidade e a solidariedade humana parecem fazer parte do DNA coletivo daquele povo. Durante a ocupação nazista, os dinamarqueses protegeram seus cidadãos judeus de forma exemplar, protagonizando uma das mais notáveis ações humanitárias da Europa na Segunda Guerra Mundial, ao se recusarem a colaborar com a perseguição e ao resgatarem a imensa maioria da população judaica para a segurança da Suécia.

Também não é incomum ver membros da família real dinamarquesa circulando de bicicleta pelas ruas de Copenhague, indo ao mercado ou cumprindo compromissos cotidianos. Vivem com a simplicidade de uma classe média brasileira — e, longe de críticas, despertam admiração e respeito. É de se esperar que a comunidade judaica, em reconhecimento à coragem moral e à dignidade histórica do povo dinamarquês, levante alto a bandeira da Dinamarca para demonstrar ter  merecido ter sido salva dos nazistas.

É por tudo isso que a ameaça à soberania dinamarquesa não pode ser tratada como mera bravata retórica. Quando a força tenta se impor sobre o direito, não é apenas um território que está em jogo, mas valores fundamentais da civilização. Os dinamarqueses, por sua história, merecem ser tratados com respeito. Enfrentaram o barbarismo nazista e honraram princípios universais de humanidade. Está na hora de o mundo, por razão e por indignação, levantar-se em defesa da soberania da Dinamarca.

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Jorge Simeira Jacob

Jorge Simeira Jacob

Proprietário das lojas Arapuã, rede de lojas de tecidos originária de São Paulo. Diversificou os produtos comercializados em sua rede, iniciando com liquidificadores, e mais tarde voltou-se para o ramo de eletrodomésticos. Fez parte do Grupo Fenícia.

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