Por que Hong Kong vive um momento delicado?

Joshua Wong é um estudante natural de Hong Kong que ficou famoso mundialmente quando liderou protestos que ficaram conhecidos como a Revolução dos Guarda-chuvas.

Já escrevi sobre as idiossincrasias e os paradoxos intrínsecos ao discurso populista e demagógico do jovem social-democrata.

Joshua Wong tem uma causa e tem dedicado sua vida, sua liberdade, seu presente e seu futuro a ela, como todo herói faz.

Depois de ser preso pelas autoridades de Hong Kong por violar as leis locais que regulam a liberdade de associação e manifestação em local público, acabou de ser solto por ter cumprido sua pena.

Hong Kong vive um momento delicado.

Há muitas variáveis no jogo político daquele que é tido como um dos países mais livres e ricos do mundo.

O sucesso econômico de Hong Kong se deve fundamentalmente a convivência harmônica e indissociável de quatro instituições basilares: livre iniciativa, propriedade privada, estado de direito (rule of law) e livre mercado.

Hong Kong é um dos países com a menor interferência estatal na vida econômica dos cidadãos, pois a regulação e a taxação são extremamente baixas, considerando o resto das nações.

Para Hong Kong, devido ao ambiente favorável à atividade econômica por conta da segurança jurídica, da estabilidade institucional, inclusive monetária, há um afluxo de capitais, bens e mão-de-obra que poucos países conseguem igualar.

A sociedade de Hong Kong foi construída ao longo do século XX através da ideia, nutrida pelos ingleses, de manterem ali um sistema muito próximo do capitalismo laissez faire.

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Os dirigentes que erigiram a estrutura institucional de Hong Kong se preocuparam em proteger os pilares de uma sociedade livre, justa e próspera.

Não se deixaram encantar pelo populismo fácil, nem pela demagogia autofágica. Colocaram limites ao processo democrático instituindo freios anti-majoritários para proteger a base de sustentação que permitiu àquele povo paupérrimo sair da pobreza e se tornar uma das mais ricas sociedades da história recente do homem.

Em Hong Kong, não há sufrágio universal como conhecemos aqui. Lá, a totalidade da elite empresarial possui o mesmo peso que a imensa maioria de eleitores. Essa foi a maneira que eles encontraram para que os direitos à liberdade e à propriedade dos indivíduos não fossem violados.

Lá, qualquer um pode votar no que quiser, porém, se a maioria quiser adotar políticas intervencionistas que venham a violar a liberdade e a propriedade das pessoas, corroendo os pilares que dão sustentação a décadas de desenvolvimento econômico e social, certamente a minoria não permitirá que isso aconteça.

Em Hong Kong, a ideia de que só se tem direito sobre o que se possui, que ninguém pode almejar possuir o que não é seu sem pagar em troca através de uma transação livre e voluntária, é o ponto essencial que tornou aquela sociedade em uma das mais dinâmicas que se conhece devido à mobilidade social que proporciona.

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Apesar do grau de liberdade e progresso alcançados, há dois movimentos que conspiram contra esse experimento de sucesso.

No curto prazo, há a tentativa do Partido Comunista Chinês de tentar tutelar cada vez mais Hong Kong tirando-lhe a autonomia que possui desde que os ingleses tomaram a ilha e mesmo após Londres devolver o território para Beijing.

Como exemplo, no fim de semana passado, dois milhões de pessoas marcharam para rejeitar uma lei de extradição de dissidentes e criminosos para a China. Tal lei havia sido proposta pela chefe do governo de Hong Kong, Carrie Lam. A indignação da população com tal lei não se encerrou com a retirada da proposta pelo governo. A população quer agora que Carrie Lam renuncie por considerá-la um fantoche nas mãos do governo de Beijing.

No longo prazo, a ameaça vem personificada na figura de Joshua Wong que, sem um discurso muito claro, apresenta sua dissidência ao Partido Comunista Chinês por uma lado e ao sistema herdado da Grã Bretanha por outro, mesmo sendo este sistema responsável por todo o resultado econômico positivo que se vê em Hong Kong.

Joshua Wong pode não falar isso claramente, mas deixa nas entrelinhas que quer moldar a mentalidade dos que integram a sociedade na qual ele vive, para que sejam menos capitalistas e mais social-democratas.

Ele despreza que haja no seu país jovens que querem estudar e trabalhar para melhorarem de vida e buscarem a felicidade como bem desejarem. Como todo social-democrata, Joshua Wong é mais um engenheiro social.

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Ele diz claramente que dinheiro não é tudo, que isso precisa ser ensinado nas escolas e difundido na mídia e que ele irá fazer carreira política para implantar em Hong Kong a democracia representativa baseada no sufrágio universal que permite que o governo da maioria se torne uma tirania, submetendo a vontade individual a interesses difusos, usualmente chamados de bem comum ou interesse social.

Esse choque de forças ideológicas, o capitalismo de Hong Kong, o fascismo do Partido Comunista Chinês e a social-democracia do jovem Joshua Wong, desorientam os observadores menos atentos que se colocam na defesa desse jovem destemido que resolveu lutar contra o establishment sem entender que o capitalismo laissez faire é muito melhor do que as alternativas que se contrapõem a ele, inclusive aquela que o jovem transformou na sua causa.

Não podemos esquecer que democracia não é sinônimo de liberdade. Pelo contrário, em nome da democracia, a liberdade individual e a propriedade privada têm sido relativizadas ao ponto de serem totalmente suprimidas.

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