Por que a produtividade por aqui continua indo de mal a pior

Com a chegada da nova versão da PWT (link aqui), vale dar uma olhada no desempenho da produtividade total dos fatores no Brasil em comparação com a de outros países. Com esta finalidade, selecionei todos os países disponíveis na PWT com mais de cinco milhões de habitantes em 2017 (último ano disponível) e classificados como países de renda média alta pelo Banco Mundial. Como medida de produtividade, escolhi a “ctfp”, que corresponde à produtividade do país como proporção da produtividade dos Estados Unidos corrigida por poder de compra. A figura abaixo mostra o resultado.

O Brasil apresenta o segundo pior desempenho. Entre 2013 e 2017, nossa produtividade caiu 13,6% em relação à dos EUA. O desempenho de países como Rússia e Cazaquistão sugere um efeito do petróleo na medida de produtividade utilizada, mas esse efeito, se for relevante, não é tão direto e nem nos salva do vexame. Considerando apenas o petróleo, países como Rússia, Iraque, Cazaquistão e México deveriam ter um desempenho pior que o do Brasil, posto que todos eles exportam mais petróleo que o Brasil (links aquiaqui e/ou aqui) e possuem um PIB menor que o nosso, de forma que as exportações de petróleo tem mais peso no PIB desses países do que no PIB brasileiro.

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Caso o leitor não esteja satisfeito com essa aproximação, pode checar as rendas do petróleo de cada país no banco de dados do Banco Mundial (link aqui). No Brasil, essas rendas equivalem a 1,3% do PIB; no Iraque é de 37,8% do PIB, no Irã é de 15,3% do PIB, na Venezuela é de 11,3% do PIB. no Cazaquistão é de 10,2% do PIB, na Rússia é de 6,4% do PIB, no Equador é de 5,0% do PIB, na Colômbia é de 2,7% do PIB, no México é de 1,7% do PIB. Mais uma vez os números sugerem que é difícil culpar o petróleo por tamanha queda de produtividade no Brasil, principalmente quando lembramos que o fraco desempenho da produtividade por aqui já é observado há algumas décadas.

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O problema da produtividade no Brasil decorre de um fenômeno microeconômico onde os incentivos para o investimento em capital físico (e humano!) respondem menos a incentivos de mercado do que a grupos de interesse, principalmente conluios entre políticos e grandes empresários, e a planos estratégicos do governo de plantão. Desde o final da década passada, essas distorções voltaram a crescer por aqui. O poder destrutivo de incentivos errados não deve ser subestimado; se as distorções são grandes e se acumulam o suficiente, podem destruir uma economia. Não acredita em mim? Então explique a queda de mais de 50% na produtividade relativa da Venezuela… ou o leitor acredita que lá foi o petróleo?

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Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.