O IPTU e a cidade que tributa o próprio crescimento

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Em 2026, a capital de SP deve arrecadar R$ 25 bilhões com o tributo, algo próximo de R$ 2 mil por habitante. 

O ano está começando para muitos brasileiros, mas já havia começado para quem cobra impostos: o Estado em suas várias formas — federal, estadual e municipal. Logo no início do ano, temos os tributos sobre o patrimônio. O IPVA sobre veículos e o IPTU sobre imóveis urbanos não entram em férias e os carnês chegam pontualmente.

 

No caso do IPTU da cidade de São Paulo, parece um carnaval, pois a administração da maior cidade das Américas aumenta consistentemente seu principal imposto, que representa cerca de 18% das receitas municipais. Em 2026, a previsão é de que o IPTU arrecade R$ 25 bilhões, algo próximo de R$ 2 mil por habitante, o maior valor per capita entre as capitais brasileiras.

A propriedade que nunca termina de ser paga

O imposto sobre propriedade tem uma peculiaridade: não incide sobre o que você ganha nem sobre o que você consome, mas sobre aquilo que você já possui.

Se a alíquota efetiva fosse de 1% ao ano, em cem anos, o proprietário teria pagado o equivalente ao valor integral do bem. Economicamente, ele teria sido expropriado. A propriedade permanece juridicamente privada; todo o ônus de sua manutenção, conservação e melhorias continua sendo do proprietário, que economicamente passa a ter um coproprietário silencioso: o Estado.

Um sócio que não investe capital, não assume risco, mas participa perpetuamente do fluxo financeiro, mesmo quando o imóvel não gera renda alguma.

Imóveis se valorizam por razões conhecidas: aumento da demanda, investimentos privados, dinâmica urbana e melhorias realizadas por seus proprietários. O município não compra o imóvel, não assume risco e não aporta capital. Ainda assim, captura parte crescente dessa valorização via IPTU. A valorização é privada. A captura é pública.

Um caso concreto: Moema

Moro no bairro paulistano de Moema há 21 anos. Nesse período, vi o IPTU crescer muito acima da inflação e, em vários momentos, acima da razoabilidade. Os números ajudam a sair da abstração.

  • Evolução do IPTU do imóvel

O crescimento foi de quase sete vezes em 20 anos. Mesmo descontando inflação, o aumento continua expressivo: 139% acima do IPCA e 97% acima do IGP-M. Portanto, não é mera correção monetária, mas de aumento real da carga tributária — e um detalhe revelador: quase 29% de todo o aumento ocorreu entre 2018 e 2020, sob os governos sociais-democratas de João Dória e Bruno Covas. Houve uma mudança de patamar.

Não foi um caso isolado

Se fosse apenas um imóvel, seria irrelevante, mas a cidade inteira acompanhou. A arrecadação cresceu cerca de nove vezes em 20 anos. Mesmo descontando a inflação (IPCA), o crescimento do IPTU mais que dobrou em termos reais.

  • Arrecadação total do IPTU em São Paulo

No mesmo período, estima-se que o PIB da cidade tenha crescido algo próximo de 3,5 vezes. Em outras palavras: o imposto sobre o patrimônio imobiliário cresceu mais que o dobro da economia que o sustenta.

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O IPTU passou a crescer em velocidade superior à da própria cidade.

  • IPTU X PIB em São Paulo

O que houve não foi apenas aumento de arrecadação, mas uma extorsão amparada na força da lei. Aqui surge o primeiro efeito econômico relevante: quando a tributação sobre a propriedade cresce sistematicamente acima da renda e da atividade econômica, o incentivo ao investimento imobiliário diminui, especialmente em projetos de longo prazo.

O esforço do contribuinte

O imposto, de forma isolada, não revela seu peso real para quem o paga. Para comparar cidades, é mais útil observar o esforço fiscal do contribuinte, isto é, a relação entre imposto per capita e renda per capita.

  • Esforço fiscal do IPTU em algumas capitais brasileiras

São Paulo aparece com o maior esforço relativo do país em relação ao IPTU. Isso significa que não é apenas o valor absoluto do imposto que importa, mas o quanto ele consome da capacidade econômica média do cidadão.

São Paulo no contexto internacional

Quando a comparação inclui grandes cidades do mundo, o resultado continua pesado. O pagador de impostos paulistano aparece entre os mais pressionados, ficando atrás apenas de grandes cidades americanas.

Porém, há uma diferença importante: cidades como New York ou Miami operam em economias de renda muito superior. Em São Paulo, o mesmo tipo de estrutura fiscal recai sobre uma base econômica limitada.

  • Comparação internacional

O paradoxo fica ainda mais evidente quando se observa o tempo para aprovação de obras.

  • Licenciamento de obras × dependência do IPTU

São Paulo combina alta dependência do imposto sobre propriedade e um dos ciclos mais longos de aprovação de projetos entre as capitais analisadas. Tributa-se fortemente a propriedade e, ao mesmo tempo, dificulta-se a produção de novos imóveis.

O resultado é previsível: menor velocidade de expansão da oferta imobiliária, maior custo de carregamento dos projetos e, no limite, pressão adicional sobre preços e aluguel. Ou seja, o próprio sistema que arrecada mais pode acabar reduzindo a base que pretende tributar no futuro.

Conclusão

A capital que mais depende do IPTU parece demonstrar pouca preocupação com quem sustenta sua arrecadação. A combinação entre alta tributação imobiliária e elevada complexidade regulatória cria um ambiente em que o contribuinte paga mais e recebe menos dinamismo urbano.

É como matar a galinha dos ovos de ouro por inanição. A propriedade continua sendo juridicamente privada, mas a participação sobre ela tornou-se cada vez mais pública.

No limite, o problema deixa de ser apenas fiscal e passa a ser institucional. Quando a prefeitura passa a depender da valorização dos imóveis privados para financiar sua despesa, cria-se um incentivo permanente para aumentar a captura pelo imposto, não para ampliar a liberdade econômica que gera essa valorização.

Toda cidade é, em última instância, uma construção coletiva baseada em expectativas de longo prazo. Quando o proprietário passa a enxergar o imóvel menos como patrimônio e mais como fonte contínua de extração fiscal, se rompe a confiança de que investir, conservar e melhorar ainda vale a pena.

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste

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André Burger

André Burger

Economista e administrador de empresas pela UFRGS, onde também fez mestrado em finanças. Tem pós-graduação em teoria econômica na ESEADE em Buenos Aires, Argentina. Recebeu treinamento em private equity no Venture Capital Institute, Emory University, em Atlanta, Georgia. Curso de Conselheiro de Administração pelo IBGC. Foi senior partner por 20 anos na CRP Companhia de Participações, uma das empresas pioneiras em private equity no Brasil. Estruturou o fundo de private equity da FAMA Investimentos. Foi sócio responsável por M&A e sourcing na Proinvest Finanças Corporativas por 8 anos. Sócio fundador da Audaka Consultoria, empresa de estruturação de recursos e fusões e aquisições (M&A) desde 2017. Membro do conselho de administração de diversas companhias. Foi Presidente do IEE em 1992, Diretor do IL-RS. Membro da Mont Pèerin Society.

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