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Estimular a demanda não funciona quando o choque é de oferta

Logo no começo da pandemia, houve um forte choque de demanda – evidência disso foi a queda de preços nos primeiros meses, mas, na sequência, fica cada vez mais claro, o cenário é de choque de oferta. Nesses casos, olhar para hiato de produto, seja lá o que for isso, ou desemprego para desenhar política monetária, é um erro perigoso. A maneira adequada de ler a queda da produção, que alguns pensam ser o tal hiato, é condicionar aos choques que mudaram as condições de oferta.

Um exemplo mais simples do que a pandemia é um eventual racionamento de energia. Não faz muito sentido ler a queda de produção advinda desse choque como uma diferença do produto observado em relação ao produto potencial; mais correto é entender que, pelo menos enquanto durar o racionamento, o produto potencial diminuiu. O caso da pandemia é mais complicado, inclusive por conta do choque de demanda muito forte no início, mas a lógica é a mesma: pelo menos temporariamente há uma redução do produto potencial. Dito de outra forma, o produto deve ser lido como condicionado ao choque de produtividade.

O perigo da confusão vem do tipo de política que acaba sendo usada. Se a queda de produção (ou aumento do desemprego) tem origem na demanda, há justificativas teóricas para defender a expansão da demanda, e.g. política monetária expansionista, como solução. No caso de um choque de oferta negativo, porém, esse tipo de política vai bater forte nos preços. É o que está acontecendo no Brasil e em outros países.

Não é nada novo. Fenômeno semelhante aconteceu quando do Choque do Petróleo no começo (e no final dos anos 70). Naquela época, também fizeram essa confusão e o resultado foi inflação em vários países. Em alguns casos, ocorreu a estagflação. Outra consequência foi o “renascimento” dos modelos macroeconômicos com foco em choques de oferta que mudaram o jeito de fazer macroeconomia.

Aparentemente, os métodos desenvolvidos nesse “renascimento” ficaram – vide modelos DSGE -, mas as lições relativas aos choques de oferta foram esquecidas. Pena. Tivesse feito a leitura pelo lado do choque de oferta, a que eu considero adequada, o BC (e a turma do mercado) não teria errado tanto.

Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.