Confete e palanque da estrela vermelha

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O Rio de Janeiro transformou o Carnaval, essa liturgia pagã da irreverência, em ata partidária com plumas. A sátira foi transformada em obediência, e o deboche em devoção ensaiada. A avenida, que já zombou e provocou, hoje desfila de mãos dadas com o poder, aplaudindo quem governa e ridicularizando quem ousa se opor.

O enredo exaltou a trajetória presidencial com a precisão de um release institucional. O puxador entoava versos como quem lê nota oficial. Componentes faziam o tenebroso “L” quase militarmente, num gesto sincronizado, televisionado, repetido em close. O samba declarado da ideologia do embuste e do fracasso. Que espontaneidade que nada! O “detalhe” mais eloquente é o de que o dirigente da escola é filiado ao Partido dos Trabalhadores; presidente de honra, vereador do PT. A política não apenas inspirando o desfile, mas o dirigindo. Não, não é coincidência estética, é coerência orgânica.

Como se não bastasse, a escola incluiu alegorias impossíveis de ignorar, tais como um palhaço vestido de preso, tornozeleira eletrônica e grades, interpretado por todos como o ex-presidente Jair Bolsonaro; “neoconservadores em lata de conserva”, escárnio deliberado; e zombaria explícita aos evangélicos, num ato claro de preconceito religioso. Não é sutileza; é caricatura oficial, zombaria televisionada.

O Carnaval abraça carinhosamente o governo de turno e escarnece adversários e a fé alheia. Mas não há nada que não possa piorar. Espetáculo do horror pago pelo próprio contribuinte. Somos todos nós, espectadores, obrigados a bater palma, enquanto a moral pública desaparece entre confetes e o “L”.

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Não há pedido explícito de voto. Não há palavras mágicas que acionem a “lei tupiniquim”. Mas todos sabemos de que lado está essa “justiça”. E quanto ao “pai dos pobres”? Evidente, lei nenhuma o constrange. Ele não respeita limites, protocolos ou adversários. Foi até a pista cumprimentar mestre-sala e porta-bandeira da escola, sorrindo como se fosse o dono do mundo. Que horror! O poder, para ele, é espetáculo pessoal; a responsabilidade, um detalhe que não o toca.

Houve tempos em que a Justiça Eleitoral via propaganda em tudo; nos outdoors, gestos, mensagens subliminares. Hoje, diante de coreografias televisionadas, aplausos pagos, palhaços que lembram inimigos políticos e zombarias religiosas, a lente parece menos sensível. A jurisprudência também aparenta aprender a sambar conforme o clima.

O mundo observa o Brasil exportar não apenas alegria, mas alinhamento festivo, da esquerda festiva. A cultura, que deveria ser território de liberdade, transforma-se em extensão simbólica do poder de turno. A avenida se conformando em palanque e o samba em trilha institucional. O confete dissolve a fronteira entre arte e estratégia eleitoral.

O Rio continua lindo, dizem. Talvez. Mas há algo profundamente constrangedor quando a maior festa popular do país deixa de ser irreverência coletiva e se converte em celebração coreografada do governo vigente, com direção partidária na comissão de frente, militância ritmada no refrão, palhaços que lembram adversários e escárnio religioso espalhado pela avenida. Claro que não é Carnaval. É marketing político escrachado com tamborim.

Mas quando o palanque aprende a sambar, o povo continua apenas batendo palma, ou quem sabe olhando para o vazio, sem respirar, sentindo o peso do próprio dinheiro financiar a própria zombaria. Que país é esse? O do óbvio “lulante”: o de que a fantasia da estrela vermelha petista não se restringe ao Carnaval, mas aos 360 dias tupiniquins.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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