Em que aspectos não sou hayekiano

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Quando li O Caminho da Servidão, de Friedrich A. von Hayek, pela primeira vez, fiquei fascinado. O autor expressava minhas opiniões muito melhor do que eu seria capaz: que o nacional-socialismo e o comunismo eram dois ramos da mesma árvore; que o planejamento central eliminaria gradualmente a liberdade individual; que a civilização cristã do Ocidente estava ameaçada pelo totalitarismo; e que a maioria dos seres humanos só poderia florescer em uma sociedade livre (com exceção, é claro, do bobo da corte e de alguns artistas servis). Depois de concluir meus estudos de história e filosofia na Universidade da Islândia, fui para a Universidade de Oxford, em 1981, a fim de escrever uma tese de doutorado sobre Hayek, sob a orientação de John N. Gray, que, na época, estava escrevendo sobre a obra de Hayek.

“Não se tornem hayekianos”

Na primavera de 1983, Gray organizou uma visita de Hayek a Oxford. Ele ofereceu uma recepção para seu convidado no Jesus College, onde era Fellow (membro do corpo acadêmico da faculdade; veja a foto acima). Depois, Gray, eu e outros dois estudantes interessados no liberalismo clássico, Chandran Kukathas e Andrew Melnyk, fomos com Hayek a um restaurante chinês. Hayek estava de bom humor e falou longamente sobre questões filosóficas e metodológicas. Nós três lhe contamos que queríamos fundar um clube estudantil em Oxford e perguntamos se ele nos permitiria chamá-lo de Sociedade Hayek. “É claro que fico feliz em ver jovens interessados em minhas obras e terei prazer em lhes dar permissão para usar meu nome, com uma única condição”, respondeu Hayek, com um brilho travesso nos olhos: “A condição é que prometam não se tornar hayekianos. Porque percebi que os marxistas são muito piores do que Marx, e os keynesianos são muito piores do que Keynes”.

O liberalismo francês no século XIX

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Não consegui cumprir essa promessa inteiramente, pois ainda considero Hayek um dos pensadores mais profundos do século XX. Mas discordo dele em pelo menos três questões, de modo que não descumpri totalmente minha palavra. A primeira diz respeito ao liberalismo francês, que Hayek não valorizava. Sem dúvida, John Locke, David Hume, Adam Smith, e Edmund Burke expressaram de forma clara e precisa a tradição britânica de governo limitado, propriedade privada e livre-comércio. Mas considero o liberalismo francês do século XIX, especialmente o pensamento de Benjamin Constant e Alexis de Tocqueville, muito mais impressionante do que sua contraparte britânica. A razão, sem dúvida, era que Constant e Tocqueville se depararam com o fracasso da Revolução Francesa. A explicação que deram foi que a França não dispunha das instituições intermediárias e associações bem desenvolvidas de que a Grã-Bretanha desfrutava (as “pequenas associações” de Burke). Por isso, em 1789, intelectuais sem experiência de autogoverno puderam tomar o poder e fazer uma tentativa inútil de reconstruir a sociedade.

A Grande Depressão

A segunda questão diz respeito à Grande Depressão da década de 1930. Considero pouco convincente a explicação de Hayek: a de que ela foi a correção necessária de uma expansão econômica anterior, artificialmente provocada pela facilidade de crédito. Isso implicava que o governo deveria fazer pouco, simplesmente deixando o ajuste ocorrer, ou, como disseram críticos menos benevolentes, que, quanto maiores fossem as falências, melhor. Considero mais convincentes as explicações de Gustav Cassel e Milton Friedman: políticas equivocadas dos bancos centrais provocaram uma forte contração da oferta de moeda, o que levou à deflação e a uma recessão, posteriormente agravada pelo protecionismo.

Nacionalismo

A terceira questão é o nacionalismo, que Hayek rejeitava, possivelmente por ter testemunhado, em 1918, o colapso do Império Habsburgo multinacional, substituído por vários pequenos Estados belicosos e pouco liberais. Mas o nacionalismo não precisa ser agressivo. Ele pode significar o reconhecimento de uma identidade nacional, um sentimento de pertencimento, fruto de um desenvolvimento espontâneo ao longo dos séculos, e a vontade de estabelecer um Estado que expresse e proteja valores compartilhados. Os noruegueses se separaram da Suécia em 1905 porque eram noruegueses, não suecos. Os finlandeses se separaram da Rússia em 1917 porque eram finlandeses, não russos. Considerações semelhantes se aplicam a muitas outras nações europeias, como os poloneses, estonianos, eslovacos e eslovenos. Essas nações não eram movidas pela hostilidade em relação aos outros: simplesmente queriam afirmar sua identidade.

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Hannes Gissurarson

Hannes Gissurarson

É professor emérito de ciência política na Universidade da Islândia e comentarista frequente sobre assuntos atuais na mídia islandesa, além de membro da Sociedade Mont Pêlerin. Ele é mais conhecido como um ferrenho porta-voz das políticas de livre mercado ou liberalismo clássico. É bacharel em Filosofia e História e mestre em História pela Universidade da Islândia, além de PHD em Política na Universidade de Oxford.

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