Burgueses, não aristocratas? A formação das elites brasileiras e o desafio de uma sociedade verdadeiramente aberta
Quando pensamos na formação das sociedades ocidentais, uma das grandes transformações da história moderna foi a gradual substituição do prestígio baseado exclusivamente no nascimento pelo prestígio associado à propriedade, ao trabalho, ao comércio e à capacidade de produzir riqueza. Durante séculos, em grande parte da Europa, a posição social de um indivíduo estava profundamente ligada à sua origem. Nascer em determinada família significava herdar privilégios, terras, títulos e influência política. A aristocracia representava uma ordem social na qual o passado frequentemente pesava mais do que a capacidade individual. A ascensão da burguesia alterou profundamente essa lógica. O comerciante, o empreendedor, o industrial e o profissional passaram a conquistar um espaço crescente na sociedade. O dinheiro, a inovação e a capacidade de criar e administrar negócios começaram, gradualmente, a competir com a tradição e o sobrenome como fontes de poder social.
No Brasil, entretanto, essa transformação ocorreu de maneira peculiar. Não fomos simplesmente uma sociedade aristocrática que, após uma revolução, foi substituída por uma sociedade burguesa. Tampouco fomos, desde o início, uma nação plenamente fundada sobre os valores burgueses do capitalismo moderno. Nossa história foi marcada por uma mistura complexa entre aristocracia agrária, poder estatal, comércio e empreendedorismo. Talvez seja justamente nessa mistura que esteja uma das chaves para compreender o Brasil. O Brasil teve aristocracia, mas não viveu apenas dela. É importante evitar simplificações. Durante o Império brasileiro existiram títulos de nobreza, uma sociedade de corte e elites agrárias extremamente poderosas. A nobreza, entretanto, possuía características próprias e estava frequentemente associada ao Estado e às atividades econômicas das elites do país.
Estudos históricos mostram, inclusive, que a formação da elite imperial reunia fazendeiros, comerciantes, negociantes, militares, parlamentares e profissionais liberais. A fronteira entre o burguês e o aristocrata, portanto, nem sempre era clara. Em muitos casos, a riqueza obtida por meio de atividades econômicas buscava reconhecimento e prestígio por meio da aproximação com a ordem aristocrática. Isso diferencia profundamente o caso brasileiro de uma visão simplificada da história europeia, na qual a burguesia teria se levantado de forma uniforme contra uma aristocracia hereditária. No Brasil, as elites frequentemente se acomodaram.
A aristocracia agrária produziu riqueza e poder. O comércio cresceu ao seu redor. O Estado distribuiu influência e reconhecimento. A burguesia emergente, em vez de romper completamente com as estruturas antigas, muitas vezes incorporou seus valores, hábitos e relações de poder. Essa característica explica um dos grandes paradoxos brasileiros: uma sociedade economicamente moderna pode conservar comportamentos socialmente aristocráticos. A burguesia brasileira nasceu do mercado, mas também do Estado. A formação da classe empresarial brasileira foi gradual. Pesquisas sobre a história do empresariado nacional destacam que a aristocracia agroexportadora participou do processo de acumulação que permitiu a formação da classe industrial, cuja influência cresceu progressivamente ao longo da República.
Mas o desenvolvimento brasileiro não produziu uma burguesia completamente independente do Estado. Pelo contrário, empresários e grupos econômicos frequentemente dependeram de proteções, concessões, créditos públicos, regulamentações e relações políticas. Isso criou uma forma peculiar de capitalismo, na qual a capacidade de competir no mercado nem sempre foi a única fonte de sucesso. Ser burguês não é necessariamente ser liberal. Uma pessoa pode defender a livre iniciativa quando ela beneficia seus próprios negócios e, ao mesmo tempo, defender privilégios, reservas de mercado e proteções estatais contra seus concorrentes. Esse comportamento não representa o espírito da livre concorrência. Representa aquilo que muitos liberais chamariam de capitalismo de compadrio: uma economia na qual o sucesso depende menos da capacidade de servir ao consumidor e mais da capacidade de obter vantagens junto ao poder político.
Adam Smith, frequentemente lembrado como um defensor do mercado, também desconfiava profundamente dos privilégios concedidos a grupos econômicos. Para ele, comerciantes e empresários não deveriam ser confundidos automaticamente com o interesse de toda a sociedade. Essa é uma lição especialmente importante para o Brasil. Defender o mercado não significa defender empresários específicos. Defender o capitalismo não significa defender privilégios privados garantidos pelo Estado. Uma sociedade liberal deve defender regras gerais, concorrência e igualdade perante a lei.
O verdadeiro espírito burguês: construir em vez de herdar. Existe, porém, um aspecto positivo e transformador na tradição burguesa. A lógica aristocrática pergunta: “de onde você vem?” A lógica burguesa, em sua melhor expressão, pergunta: “o que você é capaz de fazer?” Essa diferença parece simples, mas possui enormes consequências. Uma sociedade aristocrática tende a valorizar a origem. Uma sociedade aberta valoriza, ao menos em princípio, a capacidade de cada indivíduo construir seu próprio caminho.
O economista Adam Smith compreendeu que a prosperidade não depende apenas de grandes propriedades ou de privilégios concedidos pelo governo. Ela também nasce da cooperação entre indivíduos, da divisão do trabalho e da liberdade para produzir e trocar. Essa visão revolucionou a compreensão sobre a riqueza. A riqueza deixou de ser vista apenas como algo ligado à posse de terras ou à conquista militar. Passou a ser entendida como resultado da produção, da inovação e da cooperação humana. É justamente esse espírito que deveria orientar uma sociedade moderna: não o culto ao sobrenome, mas o respeito à capacidade de criar. O empreendedor que abre uma empresa, o trabalhador que desenvolve uma habilidade, o cientista que produz conhecimento e o comerciante que atende às necessidades de seus clientes participam, cada um à sua maneira, da construção da riqueza nacional.
A burguesia, nesse sentido, não deveria ser entendida apenas como uma classe social. Ela também pode representar uma mudança de mentalidade: a ideia de que o futuro pode ser construído e não apenas herdado. O problema brasileiro: comportamentos aristocráticos em uma economia burguesa. O Brasil contemporâneo é predominantemente urbano, comercial e orientado por atividades econômicas que vão muito além da antiga aristocracia rural. Nossa vida social é marcada por empresas, profissões, comércio, serviços e empreendedorismo, mas muitos hábitos aristocráticos permanecem.
Ainda valorizamos excessivamente o acesso ao poder. Ainda confundimos influência política com mérito. Ainda existe uma cultura na qual determinadas pessoas parecem acreditar que regras comuns devem ser aplicadas aos outros, mas não a elas. Essa é uma herança profundamente incompatível com o liberalismo.
Alexis de Tocqueville observou que a democracia moderna estava associada a um movimento histórico de igualdade de condições. Isso não significava que todos seriam iguais em riqueza ou talento, mas que a ideia de privilégios permanentes baseados no nascimento perderia legitimidade. O grande desafio brasileiro é concluir essa transição cultural. Não basta acabar formalmente com títulos de nobreza se continuarmos a criar novas aristocracias informais. Uma sociedade pode abolir os barões, mas criar castas políticas. Pode eliminar privilégios hereditários e substituí-los por privilégios burocráticos. Pode abandonar os títulos imperiais e criar uma elite protegida por benefícios, reservas de mercado e acesso exclusivo ao Estado. O nome muda. O privilégio permanece.
O liberalismo possui uma contribuição fundamental para esse debate porque, em sua essência, é uma filosofia contrária ao privilégio arbitrário. A liberdade econômica só faz sentido quando existe igualdade perante a lei. O direito de empreender só é verdadeiramente livre quando o pequeno empreendedor possui a possibilidade de competir sem enfrentar barreiras criadas para proteger os grandes e influentes.
Friedrich Hayek advertiu sobre os perigos de concentrar poder nas mãos de autoridades que passam a decidir quais indivíduos ou grupos merecem determinados benefícios. Quando o Estado possui poder demais para distribuir favores, torna-se inevitável que diferentes grupos disputem esses favores. Quando o sucesso depende da proximidade com o poder, o empreendedor deixa de buscar apenas a preferência do consumidor e passa a buscar a preferência do governante. Esse é um dos maiores riscos para uma sociedade que deseja ser verdadeiramente burguesa no melhor sentido do termo. Uma economia livre não deveria premiar famílias, amigos ou grupos privilegiados. Deveria permitir que novas pessoas entrassem no mercado e desafiassem os que já estão estabelecidos.
O liberalismo, portanto, não é a defesa de uma elite econômica permanente. É a defesa de uma sociedade na qual nenhuma elite deveria ser permanente. A história brasileira ensina que os privilégios podem mudar de forma sem desaparecer. No passado, o prestígio estava associado à terra, ao título e à proximidade com a Coroa. Hoje, ele pode estar associado à influência política, ao acesso privilegiado a recursos públicos ou à capacidade de navegar pelos corredores do poder. Por isso, o verdadeiro espírito liberal exige vigilância constante.
John Stuart Mill defendia a individualidade como uma condição essencial para o desenvolvimento humano. Uma sociedade que permite aos indivíduos experimentar, criar e seguir caminhos diferentes produz não apenas mais liberdade, mas também mais inovação. Essa ideia é incompatível com uma sociedade rigidamente hierarquizada. O filho de uma família humilde deve poder construir uma empresa. O jovem de uma cidade pequena deve poder competir com quem nasceu nos grandes centros econômicos. O pequeno comerciante deve ter a oportunidade de desafiar empresas estabelecidas. Não haverá igualdade absoluta de resultados. E o liberalismo nunca prometeu isso. Mas deve existir algo ainda mais importante: igualdade de dignidade e igualdade perante as regras.
Uma sociedade burguesa pode ser uma sociedade aberta. Existe uma crítica comum à burguesia que a apresenta apenas como sinônimo de riqueza, egoísmo ou materialismo. Essa crítica ignora uma das transformações mais importantes promovidas pela modernidade: a expansão das oportunidades para indivíduos que não pertenciam às antigas elites. O mercado, quando protegido por instituições justas e concorrência, permite que pessoas desconhecidas criem valor para milhões de outras pessoas.
Uma pessoa não precisa nascer em uma família poderosa para escrever um livro, criar uma empresa, desenvolver uma tecnologia ou inventar um novo produto. É claro que as condições de partida não são iguais e que obstáculos sociais existem. Reconhecer isso não exige abandonar a defesa da liberdade. Exige justamente compreender que uma sociedade aberta deve remover barreiras artificiais e ampliar as oportunidades de mobilidade. O grande ideal liberal não é criar uma nova aristocracia econômica. É impedir que riqueza e poder se transformem em privilégios impenetráveis.
A história brasileira não pode ser resumida a uma simples predominância burguesa em oposição a uma aristocracia inexistente. Tivemos nobreza, elites agrárias e uma forte tradição aristocrática, mas também tivemos comerciantes, empresários e grupos econômicos que participaram da construção de uma sociedade cada vez mais urbana e capitalista. O nosso verdadeiro desafio está em compreender que a transição para uma sociedade moderna não termina quando uma aristocracia desaparece formalmente. Ela só se completa quando os privilégios deixam de determinar o destino das pessoas. O Brasil precisa preservar o melhor do espírito burguês: o valor do trabalho, da inovação, do empreendedorismo e da capacidade individual de construir. Mas precisa abandonar definitivamente o pior da herança aristocrática: a crença de que alguns merecem regras diferentes simplesmente porque possuem sobrenome, riqueza, influência ou proximidade com o poder.
Uma sociedade liberal não pergunta quem é seu pai antes de reconhecer seu direito de empreender. Não deveria perguntar qual é sua família antes de aplicar a lei. Não deveria exigir conexões políticas como condição para o sucesso. O Brasil será mais livre quando compreender que a verdadeira grandeza de uma sociedade não está em proteger aqueles que já nasceram no topo, mas em garantir que qualquer indivíduo tenha a liberdade de subir por seus próprios méritos. A aristocracia olha para o passado e pergunta o que foi herdado. A mentalidade burguesa, em sua melhor forma, olha para o futuro e pergunta: “o que podemos construir?” E talvez seja justamente dessa pergunta que o Brasil mais precise.



