Milton Friedman estava certo; Marx e Vivek, errados

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“A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que já foram tentadas” – Churchill

Em entrevista ao podcast Confronting Capitalism, publicada pela revista socialista Jacobin, o sociólogo Vivek Chibber contesta a ideia formulada por Milton Friedman de que o capitalismo seria o sistema econômico mais favorável à democracia.[i]

Chibber concorda parcialmente com Friedman. Segundo ele, o capitalismo criou uma condição institucional importante: a separação entre poder econômico, poder político e, consequentemente, o surgimento da democracia. No feudalismo, os proprietários de terras precisavam exercer autoridade política e coerciva direta sobre os camponeses para extrair deles um excedente. No capitalismo, como os trabalhadores dependem do emprego para sobreviver, os empregadores podem preservar seu poder econômico sem necessariamente controlar diretamente os direitos políticos de cada trabalhador.

Essa separação torna a igualdade política formal possível, mas, para Chibber, não faz do capitalismo o sistema ideal para a democracia. A relação entre os dois sistemas seria compatível, porém marcada por uma tensão permanente. A ideia é de que os donos dos meios de produção exercem controle sobre os trabalhadores. Isso ocorre porque trabalhadores não possuem meios de produção e, consequentemente, não possuem poder político. Isso faz com que eles sejam obrigados a participar dessa dinâmica. Essa assimetria resulta em uma baixa capacidade de barganha por parte dos trabalhadores.

Na sua opinião, por mais que o capitalismo tenha proporcionado bases para a democracia, os capitalistas só renunciaram ao seu poder político na medida em que essa transferência de poder não acabasse com a assimetria. O fim dessa assimetria faria com que trabalhadores pudessem eleger representantes, legalizar sindicatos e aprovar normas trabalhistas que aumentassem seu poder diante dos empregadores. Para Vivek, os países capitalistas implementam políticas públicas que seguem as preferências dos capitalistas. Isso acontece porque a renda é o determinante na aproximação política. Quanto maior a renda, maiores podem ser as doações para campanha e, consequentemente, maior a influência nas leis.

Os capitalistas usam a sua assimetria de poder político para dificultar o acesso dos trabalhadores ao processo democrático e influenciar a corrosão das instituições que defendem os interesses desses trabalhadores. Nos países em que os capitalistas conseguem corroer as instituições que protegem os trabalhadores, os partidos de esquerda e os sindicatos são instituições com pouco poder.

Em sua interpretação histórica, o capitalismo tornou a democracia possível, mas não foi a classe capitalista que concretizou essa possibilidade. Os principais agentes da democratização teriam sido movimentos populares e organizações de trabalhadores, especialmente o movimento sindical que se fortaleceu entre o final do século XIX e o início do século XX. Uma vez estabelecida a democracia, capitalismo e instituições democráticas podem coexistir. Chibber argumenta, entretanto, que os capitalistas continuam tendo incentivos para enfraquecer sindicatos, partidos trabalhistas e mecanismos de participação que aumentem o poder dos trabalhadores. Sem um contrapeso organizado, o poder econômico poderia transformar-se em influência política desproporcional.

Seguindo esse raciocínio, a corrosão dessas instituições acaba criando um retrocesso democrático porque é a esquerda quem luta contra esse declínio. Os sindicatos, partidos políticos e associações de trabalhadores são algumas dessas instituições que estão inseridas no que ele chama de esquerda. Uma democracia saudável é aquela em que trabalhadores têm ampla participação. Isso não ocorre na democracia burguesa porque os trabalhadores não podem gozar de tempo livre para estudar ou se informar sobre política – assim como também não podem doar. Por isso, os liberais e socialistas deveriam lutar lado a lado. Apenas as instituições que representem os pobres são capazes de conciliar uma democracia robusta e um melhor capitalismo.

Até aqui, procurei apresentar a argumentação de Vivek Chibber em seus próprios termos. Sua tese não é simplesmente que capitalismo e democracia não possam coexistir. O argumento mais preciso é que o capitalismo torna possível a igualdade política formal, mas gera uma assimetria econômica que tende a enfraquecer a participação substantiva dos trabalhadores. Sem instituições compensatórias, a democracia capitalista tenderia à oligarquia.

Minha objeção ao argumento de Chibber possui três partes. Primeiro, ele atribui a Milton Friedman uma proposição distorcida daquela que Friedman efetivamente defendeu. Segundo, é sobre a análise dos políticos e como eles agem com base em seu posicionamento no espectro político. Terceiro, sua tese de que o capitalismo possui uma tendência sistematicamente antidemocrática encontra dificuldades diante da evidência comparada.

O que Friedman realmente afirmou

A hipótese de Friedman não era que o capitalismo produziria uma democracia imune à captura. Em Capitalismo e liberdade, sua afirmação era que a liberdade econômica constitui uma condição necessária, mas não suficiente, para a preservação da liberdade política. Uma condição necessária precisa estar presente para que determinado resultado possa existir, mas sua presença não garante o resultado. Oxigênio é necessário para uma fogueira, mas a simples presença de oxigênio não produz fogo. Da mesma maneira, liberdade econômica pode ser necessária para sustentar centros de poder independentes do Estado sem serem suficientes para criar eleições livres ou igualdade política.

A existência de regimes autoritários com propriedade privada não refuta Friedman. Para isso, seria necessário demonstrar a existência duradoura de liberdade política sem um grau relevante de propriedade privada ou liberdade econômica. Friedman deixa isso claro em vários trechos do livro. Por exemplo, quando ele escreve: “…a liberdade econômica também é um meio indispensável para a conquista da liberdade política”.[ii] Ou “a liberdade econômica, por si só, é parte extremamente importante da liberdade total”. Também em “Vista como um meio para obter a liberdade política…”

Para ilustrar essa ideia, Friedman imagina um dissidente em uma sociedade sem liberdade econômica.[iii] Ele dependeria do próprio Estado para obter papel, imprimir e distribuir seu panfleto. Assim, o governo poderia silenciá-lo sem proibir legalmente sua opinião, bastando negar-lhe os recursos necessários para divulgá-la. Apesar de ser um exemplo para fins reflexivos, parece que Friedman previu o futuro. Em um vídeo, dois militantes comunistas comemoram e endossam as ações do governo chinês de fechar think tanks liberais na China.[iv]

Capitalismo e Democracia

Segundo a Varieties of Democracy, ou V-Dem, “O princípio liberal da democracia enfatiza a importância de proteger os direitos individuais e das minorias contra a tirania do Estado e a tirania da maioria. O modelo liberal adota uma concepção “negativa” do poder político na medida em que avalia a qualidade da democracia pelos limites impostos ao governo. Isso é alcançado por meio de liberdades civis constitucionalmente protegidas, um sólido Estado de Direito, um Judiciário independente e freios e contrapesos eficazes que, em conjunto, limitam o exercício do Poder Executivo. Para transformá-lo em uma medida da democracia liberal, o índice também considera o nível de democracia eleitoral”.

O princípio participativo da democracia enfatiza a participação ativa dos cidadãos em todos os processos políticos, eleitorais e não eleitorais. Ele é motivado pelo desconforto diante de uma prática fundamental da democracia eleitoral: a delegação de autoridade a representantes. Assim, sempre que possível, prefere-se o governo direto dos cidadãos. Esse modelo de democracia toma o sufrágio como algo estabelecido e enfatiza a participação em organizações da sociedade civil, a democracia direta e os órgãos eletivos subnacionais. Para transformá-lo em uma medida da democracia participativa, o índice também considera o nível de democracia eleitoral.

Já o capitalismo, para o Economic Freedom of the World ou EFW do Fraser Institute, é averiguado “como uma medida do grau em que recursos escassos são alocados por escolhas pessoais coordenadas pelos mercados, em vez de pelo planejamento centralizado conduzido pelo processo político. Também pode ser entendido como uma tentativa de identificar em que medida as instituições e políticas de determinado país correspondem ao ideal liberal clássico de um governo limitado, no qual o governo protege os direitos de propriedade e providencia um conjunto restrito de “bens públicos”, como a defesa nacional e o acesso a uma moeda de valor estável, mas pouco além dessas funções fundamentais”.

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Friedman argumentou que nenhuma sociedade conseguiu preservar um grau elevado de liberdade política sem recorrer a alguma forma de mercado e de propriedade privada para organizar a maior parte de sua atividade econômica. Capitalismo e democracia podem existir separadamente, mas a democracia liberal dificilmente sobrevive quando o poder político também controla os recursos econômicos.

Essa distinção é importante porque a existência de uma ditadura com empresas privadas não refuta Friedman. Para refutá-lo, seria necessário apresentar o caso duradouro de uma sociedade politicamente livre na qual o Estado controlasse a maior parte dos meios de produção. Também seria necessário demonstrar que a liberdade econômica e a democracia tendem a se mover em direções opostas.

Geloso e Tabarrok encontram uma correlação entre liberdade econômica e democracia liberal. A associação continua positiva quando são utilizadas concepções participativa, deliberativa e igualitária de democracia. Até mesmo o índice de democracia igualitária, construído para considerar a distribuição do poder e dos recursos, apresenta correlação com a liberdade econômica. Portanto, o resultado não depende apenas de uma definição rígida de democracia limitada ao direito de votar.[v]

Provavelmente, alguém vai ler e dizer “é, mas correlação não é casualidade”. Isso é verdade. Essa limitação, porém, não torna a evidência irrelevante. Se o capitalismo corroesse sistematicamente a democracia, teríamos que encontrar uma relação negativa entre os dois. Os dados mostram o contrário. Isso obriga os defensores da teoria a explicar por que a relação observada segue a direção oposta à prevista por sua teoria.

As evidências históricas reforçam esse problema. Geloso e Tabarrok mostram que os países que mais se democratizaram também tenderam a ampliar sua liberdade econômica. Países que registraram grandes avanços democráticos também aumentaram sua liberdade econômica. Depois da queda do Muro de Berlim, democracia e liberdade econômica cresceram conjuntamente em países do Leste Europeu.

Uma evidência complementar aparece no estudo de Gabriel Benzecry, Nicholas Reinarts e Daniel Smith. Os autores distinguem a proposição abrangente de Friedman da hipótese de Hayek, segundo a qual a liberdade política não pode ser preservada quando o Estado controla os meios de produção, utilizando os indicadores de propriedade estatal e liberdades civis do V-Dem. Os próprios autores reconhecem casos marginais, como Jamaica e Sri Lanka, que preservaram liberdades políticas durante períodos de propriedade estatal elevada, mas incompleta. Não há exemplo duradouro de ampla liberdade política acompanhada pelo controle estatal praticamente completo dos recursos econômicos.

Há uma razão para isso. A propriedade privada dispersa os recursos e cria centros de poder relativamente independentes do governo. Um partido de oposição, um jornal, uma associação civil ou um dissidente político precisam de dinheiro, imóveis, meios de impressão e canais de distribuição. Quando todos esses recursos pertencem ao Estado, o direito de oposição pode continuar escrito na Constituição, mas seu exercício passa a depender da autorização de quem governa. O Estado não precisa proibir expressamente uma opinião: basta negar ao dissidente os meios necessários para divulgá-la.

Mesmo em uma sociedade democrática, não há garantia de liberdade política. Uma maioria pode apoiar a censura de uma minoria. A democracia liberal exige, além do voto, limites constitucionais que impeçam os vencedores de utilizar o Estado contra a minoria. Caso contrário, a liberdade política passa a não mais ser tutelada pelo Estado, mas pela maioria.

Chibber está correto ao afirmar que empresários podem utilizar sua riqueza para buscar privilégios políticos. A tradição da Escolha Pública não nega esse problema. A divergência está na solução. Se empresários, políticos, burocratas, sindicatos e grupos organizados respondem a incentivos próprios, não há motivo para supor que ampliar o controle do Estado sobre a economia eliminará a influência privada. Isso pode apenas aumentar o valor dos privilégios distribuídos pelo governo e intensificar a disputa por seu controle.

Também atribui motivações diferentes aos agentes que analisa. Enquanto partidos de de direita agem em interesse próprio, os partidos de esquerda, sindicatos e organizações trabalhistas são tratados como representantes naturais dos pobres e dos trabalhadores. O princípio da simetria comportamental exige que o interesse próprio seja considerado tanto no mercado quanto na política.

Há ainda outro problema na análise de Chibber. A classe capitalista é apresentada como um grupo estável, coeso e permanentemente instalado no topo da hierarquia econômica. Essa descrição desconsidera o papel da concorrência e da destruição criativa na substituição das elites econômicas. Essa forma de análise parte de uma análise coletivista que trata de classes, quando, na verdade, deveríamos olhar para os indivíduos. Apenas indivíduos agem. A unidade básica de decisão é o indivíduo. Coletivos não são agentes que “tomam decisões” por si mesmos; toda decisão coletiva é sempre o resultado de algum mecanismo de escolha — votação, barganha— baseado nas decisões individuais.

O “Estado” não é um bloco monolítico orientado por objetivos homogêneos; é um conceito abstrato que reúne uma multiplicidade de objetivos que, muitas vezes, são conflitantes entre si. Um exemplo pode ser visto quando o Estado – encarado como o monopólio legitimo da força – oferece serviço de segurança e policiamento. De um lado, órgãos querem endurecer punições, ampliar o poder da polícia, facilitar prisões e ampliar o uso da força. De outro, há instituições que defendem garantias individuais, devido processo legal, limites à ação policial, proteção de minorias, redução de encarceramento em massa.

Algo semelhante ocorre no que chamamos de “mercado”: algumas empresas produzem e comercializam cigarros, enquanto outras vendem pastilhas e medicamentos para ajudar as pessoas a parar de fumar. Não há um “propósito único” do mercado, mas uma multiplicidade de estratégias e objetivos individuais que, em conjunto, produzem resultados muitas vezes contraditórios.

Randall Holcombe distingue dois grupos dentro do próprio capitalismo: aqueles que procuram chegar ao topo — getting ahead — e aqueles que procuram permanecer no topo — staying ahead. Os primeiros são empreendedores e empresas emergentes que se beneficiam da inovação, da abertura dos mercados e da possibilidade de desafiar os agentes estabelecidos. Os segundos são os integrantes da elite econômica já consolidada, para os quais a concorrência representa uma ameaça.

É justamente por isso que as elites estabelecidas procuram frequentemente recorrer ao Estado. Regulações, subsídios, tratamentos tributários diferenciados, licenças e barreiras à entrada podem ser utilizados para preservar posições que já não estariam garantidas pela preferência dos consumidores. Segundo Holcombe, a destruição criativa permite que novos empreendedores ascendam, mas ameaça aqueles que desejam conservar sua posição; por isso, estes procuram instituições políticas capazes de proteger o status quo[vi]

Isso não significa que os integrantes do grupo getting ahead sejam permanentemente virtuosos. Depois de alcançarem o topo, eles também podem tentar bloquear novos concorrentes. Porém, quando a liberdade econômica permanece, ainda existe um mecanismo pelo qual elites econômicas podem ser substituídas.

Uma democracia livre não precisa encontrar governantes, empresários ou representantes de classe desprovidos de interesses próprios. Precisa de instituições que impeçam qualquer um deles de transformar poder político em privilégio. Defender o capitalismo não é defender quem está no topo; é impedir que o topo se transforme em trono.

[i] CHIBBER, Vivek; NASCHEK, Melissa. How capitalism undermines democracy. Jacobin. Disponível em: https://jacobin.com/2026/08/capitalism-democracy-friedman-class-power. Acesso em: 14 ago. 2026.

[ii] FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e liberdade. Tradução de Ligia Filgueiras. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023, p. 48.

[iii] Ibid., p. 62.

[iv] DORTADRIANO (@Dortadriano). [Publicação no X sobre capitalismo e democracia]. X, 15 ago. 2026. Disponível em: https://x.com/Dortadriano/status/2088538533136871467. Acesso em: 15 ago. 2026.

[v] GELOSO, Vincent; TABARROK, Alex. Two peas in a pod: democracy and capitalism. In: MILKIS, Sidney M.; MILLER, Scott C. (ed.). Can democracy and capitalism be reconciled? New York: Oxford University Press, 2025. p. 55–93. DOI: https://doi.org/10.1093/9780197774731.003.0003.

[vi] Holcombe, R.G. Creative destruction: getting ahead and staying ahead in a capitalist economy. Rev Austrian Econ 35, 467–480 (2022). https://doi.org/10.1007/s11138-020-00523-8

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Adriano Dorta

Adriano Dorta

É estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política.

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