O Brasil e a ética do necrotério

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O Brasil parece não ser mais uma República; em inúmeros contextos, lembra um estádio de quinta categoria, com o gramado em lama e as arquibancadas tomadas por uma turba bêbada de pertencimento.

No campo da política, parece que não existem cidadãos; mas fanáticos morais que, entre um urro e outro contra o adversário, já não percebem que o país apodrece sob os próprios pés.

A tragédia nacional não é a falta de caráter dos nossos homens públicos; isso já virou paisagem. A tragédia é a metástase da conveniência no cérebro de muitos homens comuns.

Quando surge um novo escândalo, como esse balé milionário envolvendo herdeiros políticos e banqueiros de ocasião, a pergunta nunca é sobre a verdade dos fatos. A única questão capaz de fazer o córtex de muitos brasileiros vibrar é: “atinge quem?”.

Se o alvo é o inimigo, celebra-se com o êxtase de um gol nos acréscimos. Se o alvo é o aliado, entram em cena os acrobatas da relativização, os especialistas em “contexto” e os sacerdotes da cegueira seletiva.

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O sujeito que ontem desmaiava de indignação diante da corrupção alheia hoje explica, com a serenidade de um mestre zen, por que milhões suspeitos são apenas “relações institucionais”. Do outro lado, o humanista de fachada, que jura defender garantias democráticas, converte qualquer denúncia contra o rival em prova definitiva do apocalipse.

Parece que ninguém busca o fato; buscam o álibi. Os fatos tornaram-se adereços cênicos numa guerra tribal movida a ressentimento e fome de revanche.

Vivemos o triunfo da ética de torcida. Se o gatuno usa a nossa cor, absolve-se; se usa a cor oposta, exige-se a guilhotina. Não há princípios, apenas alinhamentos de alcateia?

Com tantos escândalos de corrupção, a honestidade no Brasil nos faz acreditar que transformou-se numa excentricidade decorativa, uma peça vintage esquecida numa vitrine empoeirada que ninguém mais sabe como operar.

A política no país afunda, mas a claque vibra porque o rival caiu primeiro no esgoto. O mais humilhante disso tudo é assistir a pessoas aparentemente racionais dedicando inteligência genuína à tarefa de defender o indefensável. O brasileiro médio já não pensa para compreender a realidade; pensa para absolver sua própria tribo. Funesto. Pouco importa quem embolsou o quê. O que resta é a constatação de que muitos já não desejam uma nação decente.

Querem apenas o prazer de vencer o outro lado, mesmo que a comemoração aconteça dentro de um necrotério vestido de verde e amarelo.

Dizem que sou pessimista. Pode ser. Mas necrotérios raramente inspiram otimismo.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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