Uma dimensão oculta do empreendedor
Há algo profundamente criativo no ato de empreender, que vai além da mera busca por lucro e eficiência. Empreender significa descobrir o potencial oculto do mundo, reorganizando o que já existe em algo novo e surpreendente.
Sempre me incomodou o olhar da esquerda sobre o empreendedor: um vilão que explora o trabalhador e que em nada contribuiria para a sociedade além de “exploração, dor e sofrimento”. Outros imaginam o empreendedor como um frio calculista, uma personificação do “egoísmo randiano”, disposto a remodelar o mundo apenas para satisfazer ao próprio capricho em nome de sua “busca pela felicidade”. Essas visões opostas, aparentemente inconciliáveis, compartilham um mesmo equívoco: ambas enxergam o empreendedor como fundamentalmente indiferente ao mundo, seja como predador, seja como um autômato racional.
Essa caricatura persiste, em parte, porque a linguagem disponível para descrever o mercado é insuficiente. De um lado, há um vocabulário marxista da exploração; do outro, o vocabulário utilitário do cálculo. Em ambos os casos, falta espaço para a virtude, para o encanto e para uma dimensão metafísica do ato criativo. É essa dimensão que este ensaio busca recuperar.
Para expandir essa linguagem insuficiente, devemos buscar aliados improváveis, como J. R. R. Tolkien. Em sua carta On Fairy Stories [1], ele apresenta o conceito de subcriação — o ato de criar dentro de uma realidade que não inventamos, mas que nos foi dada. Subcriar não é fabricar algo do nada; é reunir matérias-primas, leis naturais e necessidades já existentes e reorganizá-las em uma forma inédita.
Tolkien estava pensando em literatura e mitos (e talvez nem gostasse dessa comparação que faço), mas a ideia tem um alcance muito maior do que ele talvez imaginasse. Ela descreve o que fazem os melhores empreendedores: eles não inventam a realidade, mas enxergam nela um potencial que os demais não perceberam.
Muitos conhecem Tolkien apenas como o homem que escreveu histórias sobre anéis, elfos e dragões. No entanto, ao refletir sobre a natureza dos contos de fadas, ele elaborou uma visão ampla do potencial humano de criar e imaginar. Subcriar é reunir elementos já disponíveis e moldá-los em novos significados, quase como um reflexo, ainda que pálido, da própria Criação.
É o homem, criado à imagem e semelhança do divino, imitando o seu Criador. Embora Tolkien estivesse pensando em literatura e mitos, esse mesmo impulso criativo pode ser percebido em outras áreas, incluindo o mundo dos negócios. Afinal, o empreendedor, tal como o artista, manipula o que encontra pela frente — tecnologia, ideias, recursos financeiros e necessidades sociais — e combina tudo para formar algo que antes não existia.
Assim como o Criador olhou para a terra e viu o homem, o empreendedor olha para os problemas do mundo e, indo além da realidade imediata, enxerga potencial e cria.
Israel Kirzner, um economista que talvez nunca tenha trocado uma palavra com Tolkien, traz em sua obra sobre o empreendedor na economia a ideia de uma capacidade humana igualmente fascinante: a de perceber oportunidades onde ninguém mais vê. Ele identifica uma capacidade que chama de “alertedness” (algo como “estado de alerta”): a habilidade de reconhecer, quase intuitivamente, uma lacuna no mercado e vislumbrar uma solução antes que ela se torne óbvia a todos [2].
O que torna essa ideia especialmente rica é que Kirzner não está descrevendo um cálculo puramente racional, mas sim uma forma de percepção pré-analítica, quase instintiva. O empreendedor não deriva sua descoberta de um modelo matemático; ele a percebe antes mesmo de conseguir articulá-la plenamente.
A alertedness não é o oposto da razão, mas tampouco se reduz a ela. Ela opera no espaço anterior ao cálculo — o espaço da intuição criativa, da atenção voltada para o mundo. É aqui que Kirzner e Tolkien se encontram: em ambos, há uma realidade já dada — o mundo com seus recursos e problemas —, mas também um lampejo que a reorganiza de modo surpreendente. Em ambos, esse lampejo não é puramente racional. É criativo. É, em certo sentido, contemplativo: a atenção de quem percebe o que ainda não foi percebido.
Podemos ilustrar isso com casos concretos. Thomas Edison não descobriu a eletricidade, mas percebeu a possibilidade de popularizar a luz elétrica de modo comercialmente viável. Henry Ford não criou o automóvel do nada, mas percebeu que a produção em massa poderia torná-lo mais acessível.
Mas esse conceito não se limita aos grandes nomes. Vale olhar também para exemplos mais próximos do cotidiano. Pense no pequeno produtor do interior que, sem laboratório ou grande capital, percebeu que o queijo artesanal de sua região tinha um sabor que o mercado premium ainda não sabia que desejava — e construiu, com persistência e sensibilidade, uma pequena empresa que hoje abastece restaurantes e conta a história de um lugar. Ou na criança que, percebendo que os colegas adorariam comer um doce no intervalo, começa a fazer e vender brigadeiros — e descobre, quase por acaso, a lógica do empreendedorismo: identificar uma necessidade real, criar algo com as próprias mãos, oferecer valor e receber algo em troca.
Em cada caso, o empreendedor não cria do nada; ele reorganiza o que já existe — mas o faz porque percebe algo que os demais não perceberam.
G.K. Chesterton, fascinado pela beleza das coisas ordinárias, diz que “uma inconveniência é apenas uma aventura erroneamente considerada; uma aventura é uma inconveniência corretamente considerada” [3]. Inspirados por essa perspectiva, podemos ver o empreendedorismo não como um campo frio e calculista, mas como um espaço repleto de maravilhas.
Afinal, há algo quase poético em vislumbrar possibilidades onde outros veem apenas problemas ou em reunir ideias desconexas em um projeto coerente que transforma nosso modo de viver. Claro que há quem torça o nariz para essa perspectiva mais sonhadora — mas talvez isso revele mais sobre a limitação do olhar do que sobre o fenômeno em si.
O mundo dos negócios não é feito de contos de fadas: exige reuniões longas, contas que precisam fechar e clientes exigentes. Muito da vida do empreendedor é resiliência — muita resiliência. Ainda assim, é possível buscar um senso de missão por trás do trabalho cotidiano. A seriedade e a planilha não excluem a inspiração; pelo contrário, podem sustentá-la, tornando o sonho viável.
Mas há um risco que pode manchar a obra de um empreendedor virtuoso: cair no excesso de orgulho, como se o ato de criar no mercado transformasse o empreendedor em um demiurgo absoluto. Tolkien alerta para esse perigo: a subcriação pode ser pervertida pelo orgulho, rompendo seu vínculo com a realidade maior.
Quem se ilude acreditando ser dono supremo da criação acaba gerando danos para si e para a comunidade. A história está repleta de exemplos disso — de bolhas financeiras a monopólios abusivos e inovações com impactos negativos profundos.
Por isso, embora Tolkien não estivesse interessado em dar conselhos de gestão, suas reflexões ajudam a lembrar que a criatividade existe para cooperar e servir, não para subjugar. Sempre que um empreendedor descobre uma solução útil para problemas reais, levando em conta o bem comum, há algo de nobre em sua atividade.
Há exemplos discretos e belíssimos dessa combinação entre criatividade e responsabilidade. Monges, em determinados mosteiros, há séculos produzem cervejas e queijos de alta qualidade não para liderar rankings de faturamento, mas para servir à comunidade e sustentar seu modo de vida.
Podemos manter um olhar quase chestertoniano, admirando o extraordinário que se esconde no ordinário. Empreender, nesse sentido, é encarar o mundo dado e criar novas formas de convivência e produção.
Da mesma forma que o escritor de fantasia se apoia nas lendas e palavras existentes, o empreendedor se apoia em tecnologias, recursos e desejos humanos para criar soluções que constroem o futuro. Não se trata de criação absoluta, mas de colaboração com a realidade.
Isso não significa abandonar a lógica do mercado. Sem organização e consciência dos limites dos recursos, qualquer empreendimento fracassa. Contudo, manter viva a chama do sonho não prejudica os cálculos — apenas lhes confere propósito.
Há um infinito de possibilidades esperando para ser percebido — em cada cidade, em cada bairro, em cada problema ainda não resolvido. O empreendedor, então, deixa de ser apenas um gestor e se torna um descobridor.
No fim das contas, talvez Chesterton estivesse certo ao sugerir que o mundo não sofre por falta de maravilhas, mas pela falta de quem se maravilhe [5]. Talvez seja justamente essa capacidade de se maravilhar que esteja na raiz de todo grande empreendimento.
Tolkien usava a expressão subcriação com reverência, consciente de que o ser humano participa de algo maior. Da mesma forma, o empreendedor que reconhece que não criou o solo em que pisa, mas reorganiza o que existe para produzir algo bom e útil, descobre uma vocação que vai além da eficiência.
Não há contradição em unir cifrões e maravilhamento, planilhas e imaginação. Há, sim, uma síntese poderosa nessa união: ao subcriar, o empreendedor revela que o mundo não é apenas um conjunto de recursos à espera de exploração, mas um campo de possibilidades à espera de quem tenha olhos — e coragem — para enxergá-las.
Referências:
[1] TOLKIEN, J.R.R. Tree and Leaf: Including Mythopoeia. HarperCollins, 2001.
[2] KIRZNER, Israel M. Competition and Entrepreneurship. Chicago: University of Chicago Press, 1973.
[3] CHESTERTON, G. K. All Things Considered. [S.l.]: Projeto Gutenberg, 2004. Disponível em: https://www.gutenberg.org/cache/epub/11505/pg11505-images.html#chap04. Acesso em: 17/02/2025.
[4] CHESTERTON, G. K. On Mr. Rudyard Kipling and Making the World Small. In: ____. Heretics. [S.l.]: [s.e.], 1905.
[5] CHESTERTON, G. K. Tremendous trifles. In: ____. Tremendous trifles. [S.l.]: Projeto Gutenberg, 2005. Disponível em: https://www.gutenberg.org/cache/epub/8092/pg8092-images.html#link2H_4_0002. Acesso em: 17/02/2025
*Yuri Quadros é fundador do Instituto Aliança e membro do IFL-BH.



