Por que políticos não respeitam nossa opinião?

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Com a polêmica em torno do Projeto de Lei 896/2023, o PL da Misoginia, surgiram muitas discussões sobre por que políticos identificados com a direita votaram a favor da proposta. Em 24 de março de 2026, o Senado aprovou o projeto por 67 votos a 0, e o registro nominal mostra votos favoráveis de senadores como Eduardo Girão (Novo) e Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo a descrição oficial, o projeto inclui crimes motivados por misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação. Críticos da proposta (eleitores identificados como de direita), porém, argumentam que seu efeito prático pode abrir espaço para censura e ampliação do controle estatal. Se os críticos estão certos, por que os políticos votaram a favor de um projeto que seu eleitorado reprovou?

A intenção deste texto não é discutir o PL da Misoginia, mas tentar entender o porquê há tanta distância entre aquilo que os eleitores desejam e aquilo que os políticos efetivamente votam ou entregam à sociedade. Para isso, vamos recorrer à literatura da Public Choice.

Na sociedade moderna, a profissionalização da política pode ser entendida como uma forma de divisão e especialização do trabalho. Em sociedades complexas, é inviável que os cidadãos participem diretamente de cada decisão coletiva. Essa dinâmica de votar e delegar a um representante para legislar e negociar em seu nome faz com que esses agentes políticos se tornem profissionais.

Imagine se tivéssemos que ler, estudar, pesquisar e depois votar em todas as leis, pautas ou propostas que estão em Câmaras municipais, estaduais ou federais? Esse arranjo é uma forma de reduzir o custo de transação e tornar a tomada de decisão viável.

Profissionalização dos políticos

Em outras palavras, a especialização política resolve o problema do custo de transação e coordenação, mas cria o problema de agência. O eleitor delega ao político o poder de decisão e, uma vez com esse poder, o representante profissional começa a enfrentar incentivos diferentes. O problema começa com o óbvio: políticos são seres humanos como nós, eles têm seus próprios interesses, opiniões, e isso pode acabar afetando suas decisões. Seria muito ingênuo presumir qualquer coisa diferente disso. Podemos chamar isso de problema do principal-agente.

Digamos que um empresário (principal) contrata um gerente (agente) para administrar a empresa. O gerente enfrenta incentivos diferentes do dono. Ele pode querer bater metas de curto prazo para ganhar bônus, mas as escolhas feitas para que o bônus fosse adquirido podem ser ruins para a empresa no longo prazo.

O gerente pode evitar tomar decisões arriscadas que fariam a empresa deslanchar, mas isso pode ser ruim para sua carreira caso não dê certo. Ele pode maquiar os resultados da empresa para parecer mais eficiente.

No caso do eleitor (principal) e o político (agente), pode acontecer que o agente tome decisões que maximizem as chances de ele se reeleger, se preocupar com a imagem da sua carreira, criar benefícios para uma parte dos seus financiadores e até esconder votos que seus eleitores não gostariam que tivesse votado.

Quando você vai comprar uma bicicleta, pode escolher o tamanho do aro, a cor do quadro, se vai ter marcha, pode trocar, diminuir ou aumentar o banco, escolher se vai ter uma buzina. Ao contrário das escolhas feitas no mercado, as pessoas votam em pacotes de diferentes políticas. Se você vota em um candidato, você não vai conseguir escolher todas as suas decisões. Ele pode agradar na economia e na segurança, mas divergir profundamente em pautas sobre meio ambiente ou educação.

“Toma lá, da cá”

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O método de tomada de decisão também é relevante. A troca de favores (logrolling) é uma ferramenta que os políticos usam para conseguir aprovar seus projetos. No Brasil, chamamos de “toma lá, da cá”. Na prática, é um acordo mútuo que políticos fazem para alcançar seus objetivos mais facilmente. Podemos entender que isso seja uma diminuição no custo de transação. Quando um político pede voto no seu projeto de interesse com a promessa de votar em um projeto de interesse de seu colega político, é isso que chamamos “toma lá, da cá”.

Os políticos podem até ter alguma influência sobre os acontecimentos, mas, para ter um impacto real, eles precisam ser mais que oposição, eles precisam estar no poder. E para chegar lá, precisam ser eleitos. Para conseguir esse voto, os políticos podem agir como corretores. O que um corretor de imóveis faz, por exemplo? Ele faz quem quer vender uma casa encontrar quem quer comprar uma casa.

É isso que o político faz. Ele quer atender à demanda de um grupo de eleitores fazendo com que outras pessoas paguem por esse benefício. Diferentemente do salário que o corretor de imóveis recebe ao conseguir êxito, o político recebe votos se for bem-sucedido.

Os melhores “clientes” do político são pequenos grupos com interesses parecidos, e a massa desinformada e difusa é aquela que paga. O político foca nos grupos que são informados e barulhentos, na esperança de que consiga persuadir a massa desinformada. A legislação abrangente (omnibus legislation) também é um problema. Isso pode acontecer quando um projeto de lei reúne, em um único pacote, aumento de verba para saúde e educação, subsídios para montadoras, perdão de dívidas para setores do agronegócio, criação de cargos públicos e benefícios fiscais para empresas de tecnologia.

Nesse caso, o político que votaria no aumento de verba para saúde, educação e no perdão de dívidas para setores do agronegócio, mas não votaria favorável nas outras pautas, acaba se vendo obrigado a votar para que a sua pauta também seja aprovada. O “jabuti” entra nessa mesma lógica, só que mais perverso. O objetivo é inserir temas polêmicos, que geralmente são impopulares dentro de uma proposta com medidas amplamente popular para enfrentar menos resistência política e social.

E a opinião do povo?

Na prática, a parte impopular “pega carona” na parte bem-vista. Não é só uma forma de aumentar o custo de informação. Também é uma forma de atrair apoio político que de outra forma não apoiariam. Um exemplo real foi o PL 914/2024 (Programa Mover). Uma proposta criada para incentivar a descarbonização dos veículos e o desenvolvimento sustentável foi usada como um cavalo de Troia para incluir um imposto de importação sobre produtos estrangeiros.

E se você não está satisfeito com o candidato que ajudou a eleger? Diferentemente do mercado, onde um empresário pode demitir seu gerente ou um cliente pode escolher outro fornecedor, na política, você precisa esperar outra eleição. Isso não significa garantia. Seu candidato pode não ser eleito.

Tentamos explicar de forma muito resumida a teoria de escolha pública que aplica o problema de principal-agente no setor público. Os teóricos entendem que não existe solução, apenas trade-off (trocas). Assim que o Estado aumenta seu poder discricionário, aumenta-se a distância entre eleitor e político eleito. Quanto maior for o poder de regular as interações sociais e econômicas, menor é o espaço que a sociedade tem de autogoverno.

Os cidadãos delegam poder aos governantes, mas não conseguem monitorá-los perfeitamente. Quanto mais margem de decisão o agente político tiver, mais fácil fica agir segundo seus próprios interesses e não segundo os interesses do eleitor. A democracia é vista como uma entidade religiosa, mas a verdade é que, como toda ferramenta criada pelo ser humano, também é imperfeita. Políticos podem se distanciar dos seus eleitores e acabar entregando o que não foi pedido.

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.

 

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Adriano Dorta

Adriano Dorta

É estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política.

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