Respondendo às perolas anti-churchillianas

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Fui surpreendido por um post na página do Instituto Mises Brasil sobre um livro de Ralph Raico, um “historiador libertário”, crítico à Winston Churchill. Fiquei estarrecido com o teor revisionista e revanchista publicado. O post repleto de comentários, opiniões e dados historicamente incorretos chama a atenção por parecer um panfleto de um DCE das Humanas de alguma federal. A própria classificação como sendo um “historiador libertário” já denota que a isenção, a análise e o conhecimento estão abaixo da retórica e da narrativa.

O que chama a atenção é que, sendo autor de dois livros sobre Churchill e presidente do Capítulo Brasil da International Churchill Society, não vi fontes nem outros autores sendo citados, apenas um aparente ressentimento juvenil adolescente. Nós, da direita, liberais, conservadores, ancaps, objetivistas, libertários etc., deveríamos estar unidos em alguns pontos que são essenciais. Se estamos perdendo para a esquerda há décadas, é justamente porque perdemos tempo não encontrando pontos comuns. Eu estava convencido de que Churchill era um ponto comum – e É PONTO COMUM. O que difere é a falta de entendimento ou de profundidade, procurar fontes confiáveis e propor discussões sobre ideias. Senão, perdemos todos.

Vou tratar de trazer luz a alguns pontos do “historiador libertário”:

1. “Churchill ordenou bombardeios a bairros civis”. Lembremos de que quem começou os bombardeios sobre populações civis foram Hitler e sua Luftwaffe em setembro de 1939 sobre a Polônia. Sobre a Inglaterra, a batalha conhecida com Blitz iniciou em setembro de 1940 e durou até o final do inverno em maio de 1941. Os bombardeios alemães não eram em resposta aos britânicos, eram ataques que procuravam minar a resistência e a opinião publica, destruir fábricas e campos de pouso e preparar a invasão da ilha. É bom lembrar que os bombardeios a Londres e outras cidades nunca pararam e seguiram com novas tecnologias cada vez mais mortais: as bombas voadoras V1 e V2.

2. “O Objetivo de Churchill era prolongar a guerra”. Isso não faz sentido, pois a Inglaterra lutou sozinha entre maio de 1940 e dezembro de 1941. Se não fossem os japoneses atacarem Pearl Harbour, talvez os americanos nunca tivessem entrado na guerra. A URSS foi invadida por Hitler no verão de 1941 depois de ambos terem dividido a Polônia entre si. Uma traição entre duas ideologias nefastas e mortais.

3. “Churchill era entusiasta do poder estatal, planejamento central e a expansão da máquina governamental”. Isso é mais uma opinião do que uma informação. Muito antes pelo contrário. Churchill esteve em dois partidos: o conservador até 1904 e o liberal até 1924, e justamente saiu porque estavam se aproximando dos socialistas e dos trabalhistas. Cabe dizer que Churchill migra para os liberais em 1904 por discordar da política de taxas a importações e a atuação dos conservadores contra o livre mercado. Um dos motivos que fez com que os conservadores perdessem a eleição em 1945 foi porque queriam aprimorar o modelo liberal, com menos governo. Perdeu porque os trabalhistas prometeram o welfare state.

4. “Pai do bem-estar britânico”. Nada mais incorreto. O welfare state for desenvolvido a partir do “Beveridge report” de 1941, capitaneado pelos trabalhistas no governo de coalizão e adotado por Clement Attlee como plataforma eleitoral em 1945. Sugiro a leitura deste documento que prevê educação e saúde gratuita, moradia subsidiada e nacionalização de empresas. Lord Beveridge era trabalhista e os milhões de soldados que estavam voltando da guerra queriam um governo que lhes retribuísse todos os anos de sacrifício pela nação.

5. “Churchill pediu a nacionalização das estradas de ferro”. Por favor, a fonte. E quando disse isso, se disse, em qual contexto? É importante dizer, e em meu novo livro Churchill, o homem certo na hora certa, a autora americana Cita Stelzer declara: “Grandes homens mudam de ideia”. Churchill passou 60 anos na vida pública, trocou de partido duas vezes, ocupou os mais variados cargos em diferentes níveis de governo, errou muito e mudou de ideia várias vezes. Talvez por isso tenha se tornado o grande homem que é.

6. “Fascínio pela guerra”. Sim, Churchill era um militar formado em Sandhurst e esteve em 6 guerras – Cuba como observador do exército espanhol, Índia lutando contra os insurgentes muçulmanos no atual Afeganistão, Sudão contra os muçulmanos que atacaram os ingleses, África do sul (Segunda Guerra dos Böers) como correspondente de guerra e a 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Em nenhuma delas foi ele, ou o Império Britânico, quem começou os confrontos. Sugiro ler a entrevista com Boris Johnson onde ele estabelece a diferença entre o warlord e o warmonger. Churchill lutou guerras para terminá-las.

7. “…ele adorava explosões…”. Sim, como qualquer jovem militar. A ação o motivava. A adrenalina é o alimento de um militar, aqui e na Cochinchina. Porém, dizer que ele seria um líder sanguinário que se divertia com a guerra é absolutamente sem sentido. Segundo seu neto, Lord Soames, “meu avô odiava a guerra”.

8. “A guerra era um fim em si mesmo”. Isso é uma opinião, não é informação.

9. “Crimes de guerra”. Só para lembrar aqui, quem começou a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais? Quem bombardeou populações civis na Polônia, Holanda, Bélgica, França, Reino Unido, Rússia? Quem atacou primeiro? Nenhuma guerra é bonita, mas, para terminá-las, é preciso lutar. E vencer. Justamente porque os aliados venceram é que este “historiador libertário” tem liberdade para questionar, mesmo que seja com pouco conhecimento ou um bias prévio. Voltaire já disse: “discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”. Churchill viveu essa máxima em sua extensão.

10. “Dresden com 600 mil mortos e 800 mil feridos”. Quanta gente morava em Dresden em 1945? Hoje são 560 mil e em 1945 eram 370 mil. Uma rápida pesquisa resolve isso. Em Dresden, foram 25 mil mortos no infame bombardeio, que podemos discutir se foi necessário ou não. Por sinal, segundo Lord Roberts, Churchill foi contra, mas o brigadeiro Sir Athur “Bomber” Harris achou importante dar uma lição aos alemães. Pode não ter sido culpa de Churchill, mas acaba caindo em sua conta como responsável. É como um post, pode não ser culpa de alguém específico, mas acaba sendo responsabilidade de muitos.

11. “…político belicoso, estatista e responsável por massacres … rebaixa os padrões éticos da política e da história”. Quem não conhece história, distorce dados, opina no lugar de informar, não pode falar de padrões éticos.

12. “A Segunda Guerra Mundial … não foi um sucesso”. A frase é bonita, mas era preciso derrotar quem começou. Nenhuma guerra é boa. É sangrenta, é horrível e os responsáveis por ela não devem ser celebrados. Devem ser julgados, condenados e pagar por seus crimes. Quem deve ser celebrado e reverenciado são todos aqueles que morreram lutando pela liberdade, contra a barbárie e por deixar um mundo onde até o “historiador libertário” pode dizer o que quiser e sair impune. Ou quase isso.

Para finalizar, quero ressaltar enfaticamente que minha critica ou revisão não é contra o Mises Brasil, entidade que conheço, respeito e de que fui frequentador de muitos eventos. Vale o comentário para aqueles que tocam o dia a dia que precisam, se pretendem preservar a memória de Von Mises, entender que a verdade é essencial. Lembrando que Von Mises sobreviveu ao nazismo. E sempre com a verdade.

Por fim, Churchill nunca cansou de falar sobre seus erros:

“O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”.
“O sucesso não é final. O fracasso não é fatal. É a coragem de continuar que conta”.
“Melhorar é mudar. Ser perfeito é mudar com frequência”.
“Engolir minhas palavras nunca me causou indigestão”.

Pergunto-me se o autor do post terá, como disse o Dr. Jorge Gerdau, “a grandeza da humildade” de Winston Leonard Spencer Churchill.

*Ricardo Sondermann é empresário, Chairman do capítulo Brasil da International Churchill Society, ex-presidente do Instituto Liberdade do RGS e membro do IEE desde 1989. Autor dos livros “Churchill e a ciência por trás dos discursos” e o recem lançado “Churchill, o homem certo na hora certa”.

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