Tudo terminará em pizza? eu me recuso a fingir
Ontem, participei de um debate sobre aquilo que muitos fingem não ver e outros já desistiram de enfrentar: a verdadeira degradação institucional brasileira, a promiscuidade entre poder político, poder econômico e um Judiciário que já não sente necessidade de disfarçar suas preferências. Falou-se das acusações de corrupção recorrentes deste governo populista, da chamada ditadura da toga, do tratamento dado a Jair Bolsonaro — gostem ou não dele — e das relações indecentes entre um STF capturado, banqueiros sempre bem posicionados e membros do governo que transitam com naturalidade entre o discurso moralista e o pragmatismo mais cínico.
Quando me perguntaram como eu achava que tudo aquilo terminaria, respondi sem rodeios; em pizza. Não foi provocação. Foi constatação.
O sistema brasileiro aprendeu a absorver escândalos, digerir indignações e seguir funcionando como se nada tivesse acontecido. Não haverá catarse moral nem correção institucional súbita. O próprio “pai dos pobres”, em mais um gesto flagrantemente inconstitucional, já reuniu Banco Central, Receita Federal e Judiciário sob o pretexto de “discutir” a crise, quando, na prática, apenas acomoda interesses cruzados e serve, mais uma vez, a pizza de sempre à população de analfabetos econômicos deste país.
Alguém pode chamar isso de pessimismo. Eu chamo de pessimismo realista, ou quem sabe de maturidade adquirida por quem já viu escândalos demais terminarem do mesmo jeito. Esse estado permanente de acomodação só é possível porque o debate público foi infantilizado. O Estado passou a ser tratado como salvador, o mercado como ameaça moral e o empresário como vilão por definição. Espalhou-se, especialmente entre os mais jovens, a crença confortável de que problemas complexos se resolvem por canetadas, de que riqueza nasce de vontade política e de que alguém “lá em cima” deve decidir por todos.
Nessa lógica, o capitalismo deixa de ser um sistema imperfeito, porém produtivo, e se transforma em um pecado. O lucro deixa de ser valor criado e passa a ser suspeita moral. O empresário vira bode expiatório conveniente. Essa visão anticapitalista não vence porque é verdadeira, mas porque raramente é enfrentada com clareza e firmeza.
Ainda assim, há algo que me impede de cruzar os braços. Não é esperança ingênua. É a convicção de que sistemas não se mantêm apenas pela força, mas pela aceitação passiva das mentiras que os sustentam. Regimes prosperam quando quem entende o jogo desiste de explicá-lo.
Escrevo com insistência quase pedagógica, porque combater a desinformação econômica é uma das poucas formas reais de resistência. Uma população que não entende como riqueza é criada se torna presa fácil de promessas fáceis, salvadores da pátria e soluções que nunca funcionam. O coletivismo brasileiro não é apenas um fracasso econômico repetido. É um projeto corrosivo. Ensina que ninguém é responsável por nada, exceto o Estado. Estado hipertrofiado, uma entidade que jamais responde pelos próprios erros. Onde o poder se concentra, a corrupção deixa de ser exceção e se transforma em consequência.
Liberdade econômica e liberdade individual não são abstrações ideológicas. São condições básicas de uma sociedade funcional. Não é o Estado inchado que protege os mais frágeis, mas a possibilidade real de cada indivíduo decidir, trabalhar e prosperar. Não é a imposição que cria riqueza, mas a cooperação voluntária. Não é o discurso moral que limita abusos, mas instituições contidas e pessoas realmente responsáveis.
Evitar o colapso exige ações simples e impopulares. Consiste em defender a liberdade econômica sem pedir desculpas; explicar, com paciência, como a riqueza é criada; exigir limites ao Estado; valorizar quem empreende e gera oportunidades; recusar narrativas que trocam liberdade por mentiras sedutoras, tais quais “picanha e cervejinha”.
Eu não escrevo porque acredito que venceremos amanhã. Escrevo porque sei que perder em silêncio é factualmente a única derrota definitiva. Se tudo terminar, mais uma vez, em pizza, que ao menos não se diga que faltaram vozes dispostas a apontar o forno, os ingredientes e os cozinheiros, não os chefs da moda. Toda descrença começa com alguém que se recusa a fingir. Escrever também é a minha forma de agir.



