O teatro da indignação: quando o talento é convertido em panfleto
Se eu amo cinema, não posso me furtar aos prêmios. O Agente Secreto rendeu a Wagner Moura um Globo de Ouro. Brilhante como ator. Mas o que ele faz fora da tela é outra história e, infelizmente, é um desserviço aos brasileiros. O teatro moral está à venda.
Wagner Moura é um bom ator. Isso ninguém contesta. O problema começa quando talento dramático vira certificado de virtude moral. Aí, o palco vira tribunal. A indignação se torna coreografia ensaiada.
A obsessão dessa elite cultural pelo Brasil do Bolsonaro é quase poética. Um governo eleito, ruidoso, fiscalmente audacioso, judicialmente contido, com oposição permanente, é transformado em ditadura absoluta. Venezuela, Cuba, Irã, Coreia do Norte? Silêncio absoluto.
Moral seletiva, indignação seletiva. Eles são apologistas do marxismo, e a profecia de Marx estava correta: tudo o que é sólido se desmancha no ar. Mas a mudança vai além: os valores antes considerados virtuosos se dissolvem, substituídos por cinismo, mentira, corrupção e indecência. Não são valores. São princípios dessa turma “progressista”.
Não sou bolsonarista. Nunca fui. Mas negar acertos — fiscais, institucionais, econômicos — é desonestidade pura. Comparar aquele governo com o caos atual, atolado em cinismo, irresponsabilidade fiscal, diplomacia errática, relações libidinosas com empresários e políticos, indulgência seletiva com autoritarismos alheios, é cegueira ideológica de alto nível. Um desfile de hipocrisia que mereceria prêmio próprio, de ouro.
O curioso é que Moura faz tudo isso parecer coragem, mas é encenação. Advogar em causa própria é humano, já que recebe recursos públicos, prêmios internacionais, aplausos, e a indignação brota pontual, previsível, conveniente. Como dizia Juca Chaves: “se pagar, eles falam a verdade”. Aqui, o palco da moralidade tem preço, e a narrativa se ajusta conforme o financiamento. Talvez devesse revisitar o Capitão Nascimento. Ele entendia clareza moral. Distinguia coragem de pose, autoridade de arbítrio. O ator brilhou; o intelectual tropeça forte na própria máscara. A indignação seletiva já tem roteiro, vilão definido; doméstico, domesticado.
Ao cabo, sobra o paradoxo cruel. Talento convertido em panfleto, consciência guiada pelo eco conveniente, moral seletiva travestida de compromisso. Isso não é engajamento. É teatro. Dos mais cansativos. E, pior, perigosos: o desserviço é perfeito, e os tiranos de verdade sorriem enquanto o progressismo do atraso ovaciona a própria farsa. Pois é a esquerda vermelha, verde-amarela, aquela que idolatra a ideologia do fracasso. Evidentemente, bem paga.



