Um anão jogando basquete
A política externa do atual governo brasileiro é uma incursão inconsequente por uma rota anacrônica e perigosa. Em vez de buscar reforçar a inserção do Brasil nas cadeias de comércio e inovação globais, fortalecer laços com democracias e buscar acordos que estimulem o protagonismo econômico, o Itamaraty tem preferido adular autocratas, bajular ditadores e puxar o saco de regimes que desprezam a liberdade. Parece um anão que se enxerga como um gigante e pensa que, para ser respeitado, basta subir em uma escada e, lá de cima, enterrar a bola na rede em um jogo de basquete. Essa excursão leviana ao passado compromete a credibilidade do nosso país e o afasta de parceiros estratégicos tradicionais e indispensáveis, ao mesmo tempo que nitidamente promove a aproximação com regimes autoritários, no âmbito do chamado Sul Global. Tal postura obscura, frequentemente justificada como uma busca por “autonomia e protagonismo”, é logicamente incoerente, ideologicamente enviesada e, portanto, bastante prejudicial às aspirações legítimas do nosso povo.
Sob o comando do assessor especial do presidente da República para Assuntos Internacionais — um velho e conhecido diplomata comunista, do grupo a que Roberto Campos se referia como “os barbudinhos do Itamaraty” —, a política externa do Brasil tem colocado o conceito de Sul Global (sempre explorado e virtuoso) no centro de sua política externa, buscando liderar um bloco de nações emergentes, em oposição ao Norte Global (sempre explorador e mau-caráter). Essa estratégia, que inclui o fortalecimento de grupos como o Brics, é apresentada como um painel colorido de bondades, como um esforço para reequilibrar a ordem mundial e dar voz aos países em desenvolvimento. Contudo, trata-se apenas de fragmentos em preto e branco, desbotados, que retratam a antiquada dialética marxista de jogar sempre uns contra os outros, e cujos efeitos práticos são sempre desastrosos.
A tentativa de fortalecer o Brics
A ampliação do Brics, com a inclusão, em 2024, de países como Irã, Egito, Emirados Árabes Unidos e Etiópia e, a partir de 2025, de Nigéria, Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia e Uganda, atesta a percepção de que o Brasil está se alinhando a regimes autoritários, em detrimento de democracias consolidadas. A revista The Economist (que está longe de ser um órgão “de direita”), em junho deste ano, classificou a política externa brasileira como “incoerente e hostil ao Ocidente”, destacando a proximidade do Brasil com nações como Rússia, China e Irã, enquanto se distancia de aliados tradicionais, como os Estados Unidos e Israel. Essa escolha despreza o devido zelo pelos interesses comerciais e estratégicos do país para priorizar a ideologia e o projeto de poder pessoal do presidente do Brasil.
O fascínio obsessivo com o Sul Global, embora possa soar atraente para a esquerda jurássica em que se enquadra o governo brasileiro, ignora a complexidade do cenário internacional. Países como a Índia e a África do Sul, também membros do Brics, mantêm relações pragmáticas com o Ocidente, enquanto o Brasil parece adotar uma postura marcadamente de confronto, o que reduz substancialmente nossa influência em fóruns globais. A insistência em priorizar nações com históricos negativos de direitos humanos, como Venezuela, Cuba e Irã, tem gerado críticas de que o presidente e o seu Itamaraty sacrificam valores democráticos em nome de uma indefensável solidariedade ideológica.
A coisa está tão patente que, há poucos dias, o outrora “barbudinho” — hoje um provecto barbado, mas com o cérebro ainda povoado pelas mesmas ideias jurássicas —, que faz a cabeça do presidente em assuntos internacionais, em audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, manifestou preocupação com a presença de navios militares dos Estados Unidos próximos à Venezuela e alertou sobre o “risco” de intervenção norte-americana no país vizinho. Isso significa que, entre defender um ditador abertamente ligado ao narcotráfico, ou o povo venezuelano, massacrado por esse tirano, o nosso governo prefere a primeira hipótese.
O rompimento com Israel
Um dos episódios mais lamentáveis da nossa atual política externa foi o rompimento com Israel, iniciado com as críticas contundentes e descabidas do presidente falastrão às ações do governo de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza. Em uma delas, em fevereiro de 2024, sugeriu uma equivalência entre a resposta militar israelense aos ataques terroristas do Hamas e o Holocausto, uma comparação tão infeliz que gerou uma crise diplomática sem precedentes, ao ponto de Israel o declarar persona non grata, convocar o embaixador brasileiro para uma reprimenda pública no Museu do Holocausto e, há poucos dias, anunciar que vai rebaixar as relações diplomáticas com o Brasil. Uma fala vergonhosa e desastrosa, que banalizou o Holocausto e comprometeu a tradição de equilíbrio da nossa diplomacia. Como se isso fosse pouco, o Brasil também aderiu a uma ação, movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, que acusa Israel de genocídio. Atos que só prejudicam o país.
Essa postura anti-Israel é vista como um alinhamento automático com a narrativa do Hamas e de seus financiadores, como o Irã, pois ignora os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023, que mataram mais de 1,2 mil israelenses. É fácil perceber que o Brasil abandonou sua neutralidade histórica no intrincado conflito do Oriente Médio, prejudicando as relações com um parceiro estratégico em áreas como tecnologia, segurança e agronegócio, tudo isso por um devaneio ideológico com cheiro de mofo. A retórica caótica do presidente brasileiro para tentar angariar apoio doméstico entre setores da esquerda, na prática, só isola o Brasil no cenário internacional. Ninguém dá bola para o liliputiano que insiste ser um gigante.
O desgaste desnecessário com o Tio Sam
A relação com os Estados Unidos é outro ponto de atrito. A lenga-lenga oficial — mais do que ultrapassada — consiste em pintar os Estados Unidos como uma potência imperialista que subjuga países em desenvolvimento. Hoje, o que está em jogo é a capacidade de cada país de se inserir nas cadeias globais de valor, atrair investimentos de alta tecnologia e garantir acesso a mercados. Em todas essas áreas, Washington é um aliado natural — não um inimigo. O Brasil não precisa ser submisso aos Estados Unidos ou a qualquer outro país, mas também não pode se entregar ao impulso juvenil de transformar a maior economia e democracia do mundo em um antagonista gratuito, e depois ir jogar calmamente pingue-pongue no DCE da faculdade.
A verdade é que o presidente do Brasil tem visivelmente evitado um diálogo direto com Trump, e é especialista em fazer declarações que soam como provocações: ao associar, por ocasião das eleições nos Estados Unidos, Donald Trump com “nazismo e fascismo”, uma declaração assombrosa pela completa falta de sentido; ao condenar, neste ano, os ataques a instalações iranianas; ao insinuar que os Estados Unidos estariam alimentando o conflito na Ucrânia, colocando a culpa “igualmente” em Kiev e Moscou, numa retórica que ecoa a narrativa russa e foi recebida com duras críticas pelo governo norte-americano; ao classificar as sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia contra a Rússia como uma “forma de guerra”; ao insistir no discurso de que os Estados Unidos “se metem demais nos assuntos internos de outros países”; ao não comparecer à posse de Trump, em janeiro deste ano; e, para completar, ao sugerir que o dólar seja substituído como moeda internacional.
Essa insistência quase infantil em adotar uma postura hostil a Washington contrasta com a benevolência dispensada a ditaduras como Venezuela, Nicarágua, Irã e Cuba. Hostilizar os Estados Unidos em nome de aproximações com regimes autocráticos é um equívoco estratégico de grandes proporções. O discurso de “multipolaridade” pode soar sedutor nos palanques, mas, na prática, significa alinhar o Brasil a governos que não compartilham de nossas instituições democráticas, nem oferecem acesso seguro a capital e tecnologia.
O ponto mais recente dessa escalada insana foi a reação do governo brasileiro à aplicação da Lei Magnitsky, legislação norte-americana que permite a imposição de sanções econômicas e restrições de visto contra pessoas que o governo considera envolvidas em violações de direitos humanos e corrupção em qualquer parte do mundo. Em vez de reconhecer que tais medidas têm respaldo jurídico e que vários países — inclusive democracias consolidadas — adotam mecanismos semelhantes, o Planalto preferiu transformar o episódio em mais um ato de confrontação política, apelando para um nacionalismo demagógico inteiramente descabido.
A postura do presidente e de seus dois chanceleres (o de fato e o oficial, mero capacho do primeiro), ao criticar a aplicação dessas sanções contra figuras influentes no Brasil, revela mais do que uma simples divergência diplomática: mostra uma disposição para relativizar crimes e abusos quando praticados por aliados ideológicos ou por autoridades nacionais, mesmo diante de evidências robustas. É uma escolha que, na prática, envia ao mundo a mensagem de que o Brasil está se lixando para violações de direitos humanos e que o governo está mesmo disposto a sacrificar interesses nacionais por uma agenda ideológica. Ou assumindo que já é uma ditadura.
Um isolamento perigoso
A política externa atual abalroou completamente a história de pragmatismo e equilíbrio do Itamaraty, que a consagrou como um ativo de soft power, para transformá-la em um passivo que compromete a imagem e os interesses do Brasil no mundo. O presidente do Brasil se diz mediador da paz, mas só aponta o dedo para um lado. Isso não é neutralidade, é cumplicidade e está isolando o país.
O alinhamento seletivo com ditaduras e a negação implícita de desrespeito a direitos humanos não apenas comprometem nossa credibilidade internacional, mas também prejudicam o ambiente doméstico. Países que defendem o livre comércio e o Estado de Direito tendem a buscar parceiros confiáveis — e o Brasil, hoje, transmite exatamente o contrário: uma nação que flerta com regimes autoritários, minimiza abusos e despreza o investimento estrangeiro.
A política externa não deve ser usada como palanque para ressentimentos ideológicos ou para reviver alinhamentos falidos. O mundo já é suficientemente instável. O Brasil deveria procurar construir pontes, não muros. Ao transformar a diplomacia em um instrumento de militância, o nosso governo não apenas está isolando deploravelmente o Brasil, mas colocando-o, de caso pensado, do lado errado da História. É triste, para quem já teve, em 1907, uma águia em Haia, ter que aguentar agora um pintassilgo que se vê como águia, ou um anão que pensa que pode jogar basquete contra adversários com mais de dois metros de altura.